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Colunista
André Campos
André Campos
Professor de História - Especialista em história do Brasil e da América Latina

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Acesso Restrito

Consumir significa ter qualidade de vida?

Enviado Segunda-feira, 23 de agosto de 2010 às 09:44:28 | Nenhum comentário »

O mundo atual nos proporciona conforto material, mas nega-nos o espiritual; temos estradas melhores, mas não sabemos para onde ir; portões eletrônicos, cercas elétricas e vivemos enjaulados, carros velozes, mas a pressa gera imperfeição; conhecemos o mundo pela internet, mas não conhecemos a nós mesmos.

     Hoje não somos mais cidadãos e sim consumidores, os nossos direitos de cidadania foram trocados por um código de defesa do consumidor; pagamos pela segurança, mas recebemos violência, pagamos pela educação, mas recebemos desrespeito, pagamos pela saúde, mas as doenças se proliferam, pagamos impostos e recebemos desprezo.

     Consumir,consumir e consumir,esse é o slogan do momento, sem termos noção do que consumimos,por que consumimos e se podemos consumir.Em tempos onde se corre contra o tempo e tudo tem que ser prático (enlatado), acabamos deixando de lado muitas vezes por obrigação,o prazer das coisas boas e sadias,daquela boa leitura,da comida caseira,de um abraço nos amigos,de uma visita à família,de observar os pássaros e os jardins,de um aceno de mão para o vizinho e até mesmo de uma oração.O mundo material e os homens são imperfeitos,já o espírito humano, somente alcançará a perfeição quando se purificar, inverter as suas prioridades, buscando viver em harmonia, sem luxuria, egoísmo,avidez, desprezo, coisas fúteis que na realidade não nos levam a lugar nenhum, somente a nossa própria miséria.

     Estamos em conflito com a própria evolução, nossos cérebros não raciocinam,mastigam; nossos olhos não enxergam, espiam; nossos corpos não andam, arrasta-se; nossas vidas têm mais quantidade e menos qualidade; amamos pouco, nos irritamos e odiamos freqüentemente; planejamos bastante e não realizamos quase nada; procuramos riqueza e encontramos miséria material e espiritual; buscamos a paz,mas ela nos leva a guerra; queremos respeito mas não sabemos respeitar;julgamos o irmão sem termos direito;queremos a perfeição mas somos aleijados ;nossos sentimentos estão embrutecidos.

     Vivemos hoje em um mundo altamente materialista, ganancioso, impiedoso e corrupto, onde palavras como moral, dignidade, solidariedade e compaixão se tornaram superficiais ,vazias, supérfluas, onde os principais valores humanos estão  reduzidos a pó.O individualismo,a competição e o egoísmo são marcas presentes em nosso tempo,infelizmente o “ser” significa “poder”e não mais “viver”; viver significa consumir, se não consumimos mais e mais não nos contentamos e passamos a desprezar o mundo em que vivemos.

     Estamos no meio de um processo revolucionário(científico-tecnológico) altamente excludente, seletivo,  que aos poucos vai invertendo e re-conceituando valores que à muito eram considerados como estruturais dentro de uma sociedade, tudo em nome da evolução desenfreada, despreocupada e ilimitada. Se fizermos uma análise profunda da nossa existência como seres racionais, poderemos observar que essa revolução na qual estamos inseridos é antagônica, ou seja beneficia somente alguns setores da sociedade, justamente os que não precisam, enquanto que os mais necessitados, são jogados à margem do processo e sujeitos a em pouco tempo desaparecerem.

 

 

Partidos Políticos: Algumas interpretações.

Enviado Segunda-feira, 19 de julho de 2010 às 10:00:38 | Nenhum comentário »

O sistema democrático representativo consiste, formal e substancialmente, numa organização estatal fundada na existência de partidos políticos, considerados como órgãos de coordenação e manifestação da vontade popular, visto que todo poder emana do povo e em seu nome será exercido.

     Sabemos que o cenário político brasileiro está complicado e difícil de ser analisado ou interpretado, mas o que se pode constatar nos últimos processos eleitorais, é que os arranjos, coligações ou composições políticas, norteiam-se cada vez mais pela questão fisiológica-carguista e não mais pela ideológica. Não pretendo entrar nesse mérito por enquanto, apenas trabalhar com algumas definições de partidos políticos, para que o leitor possa tirar suas interpretações.

     Segundo Edmund Burke, partido é: “um conjunto organizado de homens unidos para trabalhar em comum pelo interesse nacional, conforme o princípio particular com o qual se puseram em acordo”. Hans Kelsen diz que partidos “são formações que agrupam homens de mesma opinião para lhes garantir uma influência verdadeira sobre a gestão dos negócios públicos”.

     Para os cientistas políticos e sociólogos François Goguel e Georges Burdeau, respectivamente: “Um partido é um agrupamento organizado para participar na vida política, tendo em vista conquistar, parcial ou totalmente, o poder e de nele fazer prevalecer às idéias e os interesses dos seus membros”. “Constitui um partido todo agrupamento de indivíduos, que professando os mesmos pontos de vistas políticos, se esforçam para fazer prevalece-los, ao mesmo tempo juntando a eles o maior número possível de cidadãos e procurando conquistar o poder ou, pelo menos, influenciar suas decisões”.

     Max Weber afirma que “o partido constitui relações de tipo associativo, uma dependência fundada num recrutamento de forma livre. Seu objetivo é assegurar o poder a seus dirigentes no seio de um grupo institucionalizado, a fim de realizar um ideal ou de obter vantagens materiais para seus militantes”. Já o sociólogo, Daniel-Louis Seiler, analisa os partidos políticos como sendo “organizações visando mobilizar indivíduos numa ação coletiva conduzida contra outros, paralelamente mobilizados, a fim de alcançar, sozinhos ou em coalizão, o exercício das funções de governo”. 

      A tese marxista, desenvolvida por Lênin e Stalin, atribui aos partidos políticos uma existência precária e transitória, necessária apenas na fase evolutiva da sociedade, até alcançar o estágio superior da ordem comunista ideal. Completada a evolução, com o aniquilamento completo da ordem burguesa, a abolição da propriedade privada, a suspensão das desigualdades políticas e econômicas, o desaparecimento total da divisão social em classes antagônicas, então, os partidos políticos, mantidos como mal necessário, como elementos naturais das lutas pela transformação social, tenderiam a desaparecer, como o próprio Estado, que se transformará em simples órgão de administração do patrimônio comum.

     Podemos dizer que os partidos políticos asseguram o revezamento de homens e de idéias, que eles estabilizam o sistema ao torna-lo legítimos aos olhos dos cidadãos e, para alguns dentre eles, canalizam os descontentamentos, reforçando assim, a legitimidade do sistema. Efetivamente, os partidos políticos são peças necessárias, senão mesmo as vigas mestras do travejamento político e jurídico do Estado democrático.  Aliás, é generalizado o conceito simplista de democracia representativa como Estado de Partidos, ilustrando-se a idéia de que não se pode conceber esse sistema de governo sem a pluralidade de partidos políticos, isto é, sem a técnica do pluripartidarismo.

      O descrédito lançado sobre os partidos políticos existe quase desde o surgimento dos mesmos no cenário político, porém, sabemos que nenhuma democracia representativa do mundo funciona sem partidos e muito menos sem a competição entre eles. Evidentemente que esse modelo não é o ideal, principalmente porque nossos representantes acabam representando os próprios interesses, mas precisamos aperfeiçoar cada vez mais o sistema, até torna-lo efetivamente participativo. Uma tarefa que requer trabalho, conscientização e muita determinação.

Realidade Periférica

Enviado Segunda-feira, 21 de junho de 2010 às 14:10:36 | Nenhum comentário »

Nas periferias das grandes cidades cresce a violência, a miséria e a marginalidade. Crianças e jovens são vítimas do sistema, modelo excludente, injusto e decadente.

     A vulnerabilidade desses adolescentes e jovens, expressa, também, por inúmeros índices relacionados à violência, demonstra também a ineficácia, a insuficiência ou o equivoco das políticas públicas.

     Apesar de mais da metade dos jovens não considerarem sua escola violenta, ainda percebe-se a ocorrência de situações e de atitudes de violência na escola. As práticas de violência podem ser compreendidas no interior das escolas e na interpretação dos atores envolvidos como uma resposta às precárias condições de sobrevivência com as quais comunidades excluídas se defrontam. Sabemos que essas práticas dentro da escola não acontecem isoladamente e que, pelo contrário demonstram o quanto a escola é vulnerável e reflexo da sociedade na qual se insere.

     A “sociedade” se omite, o Estado repassa responsabilidades, a família desestruturada, enquanto a escola acaba sendo sobrecarregada e na maioria das vezes condenada ao fracasso e a inoperância.

     Quando me refiro à escola de periferia direciono a atenção para um local que apresenta uma problemática bem complexa, desafiadora e preocupante. Nessas escolas, o contexto sócio-econômico e político interfere no trabalho do professor e no processo de aprendizagem dos alunos. Nos professores, gera sentimentos de frustração, insatisfação e angústia, porque não conseguem desenvolver o que planejam, enfrentam situações imprevistas que acabam desestabilizando o trabalho de sala de aula.    

     Já para a grande maioria dos alunos, apesar de toda complexidade sócio-econômica e cultural, a escola pública de periferia, ainda é uma referência, ou seja, um equipamento social fundamental para a criação de espaços de participação democrática, onde se ampliem a rede de possibilidades, desses jovens, na direção da construção e inserção dos mesmos à cidadania, ampliando as suas perspectivas de futuro.

    

     A periferia por si só já é rotulada, discriminada e maculada pelo fato de ser periferia, habitada por pessoas normalmente com perfil sócio-econômico baixo, que lutam para sobreviver, enfrentando diariamente inúmeras mazelas, problemas terríveis, que somados ao preconceito e a indiferença, contribuem para agravar a situação. Associa-se periferia as ideias de pobreza e criminalidade. O desemprego, a fome, a droga, a baixa escolaridade, a promiscuidade, representam também algumas dessas mazelas. Há violência e traficantes, mas grande parte dos que lá residem são trabalhadores assalariados que, se pudessem, viveriam em condições e lugares melhores.

     O preconceito também existe e é uma barreira que dificulta ainda mais o respeito aos direitos humanos nessas comunidades, o que acaba resultando na baixa auto-estima e autoconfiança dos moradores e refletido diretamente nas crianças e jovens dessas comunidades.

     Qual será a solução para essa perversa realidade? Eu acredito na valorização da educação e da escola, pois ela é o espaço público de maior abrangência para crianças, adolescentes e jovens de grupos populares urbanos e, por isso, um instrumento importante na construção da cidadania, de referenciais democráticos e da dignidade do ser humano.

Educação e Civilidade

Enviado Segunda-feira, 24 de maio de 2010 às 16:54:23 | Nenhum comentário »

"Minha intenção, meu objetivo de vida como educador, é trabalhar com toda dedicação para a construção de um mundo melhor, de uma "sociedade" mais harmônica e humanizada, onde todas as pessoas possam viver com um mínimo de decência e dignidade. Tamanha pretensão a mina. Não acham?

Por vezes me sinto impotente e penso estar cada vez mais distante desse objetivo, principalmente quando me deparo com certos abusos ou absurdos, com a insensibilidade das autoridades, com a ganância desenfreada e a mediocridade de muitas pessoas, com a falta de consciência, educação e civilidade da nossa "sociedade". Pergunto-me frequentemente. Que mundo estamos construindo? Ou será que estamos destruindo? Qual caminho estamos percorrendo? Onde iremos chegar? Indagações que me inquietam, que não permitem que eu me acomode, que me incitam a pensar, questionar e refletir.

Enquanto alguns esbanjam, consomem incessantemente, a maioria passa necessidades, infelizmente. Sem ter o que comer, o que vestir, onde morar e estudar, maltratados pela própria existência, crianças jogadas na marginalidade, sem piedade, condenados pela ignorância, pobre sobrevivência. Crucificados pelo sistema, que submete a maioria à exclusão e torna o mundo cada vez mais cruel, violento, inseguro, doentio e deformado em seus valores.

Tarefa árdua, à de lutar por um mundo mais humano no meio de tanta bestialidade. Que mundo mais humano? Se o próprio homem desconhece suas qualidades de ser humano.

Estamos vivendo em uma era violenta; sofremos violências cada vez maiores e mais constantes, assistimos quotidianamente manifestações de violência, que já entra em nossas casas, muda nossas vidas, nossos valores, nossas famílias, nossos comportamentos. A violência é um sinal, um sintoma de uma "sociedade" que não criou apreço pelos valores e acabou formando adultos sem referencias de cidadania e de respeito pelo próximo. A violência é a marca de uma "sociedade" excludente, que exclui em todos os sentidos, até afetivos.

A solução. Será que existe? A longo prazo talvez com uma verdadeira revolução na maneira de educar nossas crianças e jovens. Muito mais importante do que favorecer uma avalanche de conhecimentos e informações está o fato de nós os formarmos enquanto pessoas humanas, incentivando-os a darem o melhor de si. Devemos juntos, educadores, pais e responsáveis, tomar essa atitude diante de nossas crianças, tornando isso nossa missão: colaborarmos para a formação humana integral das mesmas. Estimulando valores e no dia a dia poderemos comprovar isso. À medida que a criança for utilizando a intensa capacidade amorosa que existe dentro dela, germinarão os valores humanos em seu coração, o que se refletirá no comportamento familiar, social e profissional.

Independentemente de dificuldades, sofrimentos e decepções que, como todo ser humano, ela encontrar em sua trajetória sobre a terra, será feliz. Porque felicidade, afinal, não é estar radiante de alegria e de bom humor diariamente, mas permanecer em harmonia com sua natureza humana. As leis da natureza humana só serão cumpridas quando conseguirmos ser leais à verdade, o que nos levará à retidão, à qual nos proporcionará a paz. Estando em paz, torna-se possível para nós viver e entender o verdadeiro amor incondicional. Com esses valores aflorados, somos capazes de praticar a não-violência, que é a abstenção de ferir o outro pelo pensamento, palavra ou ação.

Só assim, talvez consigamos construir um mundo mais humano, justo, solidário e harmonioso, onde impere o amor, o respeito e a felicidade de todos.

Os vilões da história

Enviado Segunda-feira, 03 de maio de 2010 às 13:44:07 | Nenhum comentário »
Pioneiros e legítimos descobridores e desbravadores da América, os índios, vivendo com suas crenças, deuses, tradições e costumes, gradativamente foram sendo exterminados, roubados e expropriados de suas terras, num processo justificado pelo branco europeu de “civilizatório e catequizante”, mas que na verdade, serviu de fachada para encobrir atrocidades, latrocínios e aberrações cometidas por ele. Nas áreas coloniais, os países europeus promoveram o reaparecimento da escravidão. A partir daí, ocorria necessariamente à adequação do novo escravismo às exigências e as bases do pré-capitalismo nascente. No sistema colonial tradicional, o elemento escravo é “mercadoria” importante na dinamização do mercantilismo.
     A América não era, porém, uma terra de ninguém. Sua história começara bem antes de os europeus iniciarem a conquista. Era habitada por povos de diferentes culturas. O europeu “civilizado”, “cristianizado”, na realidade não passou de um assassino violento, injusto e hipócrita, a serviço de uma nobreza parasitária. Os invasores agiam como donos do mundo, guardas da civilização contra os perigos da barbárie, misturando interesses econômicos com o ato de “civilizar”, sempre sob o manto sagrado da Igreja Católica, ou seja, civilizar com a cruz utilizando a espada. Em nome da Igreja, os índios foram exterminados e entraram para a história como vilões, vadios, bêbados, indigentes, homens sem cultura e alma.
     Chiparopai, uma velha índia Yuma, no livro Pés nus sobre a terra sagrada, fala das mudanças que presenciou com a chegada dos homens: “A doença veio com o homem branco e centenas de nós morreram. Onde está a nossa força?... nos velhos tempos éramos saudáveis. Costumávamos caçar e pescar. Plantávamos um pouco de milho e melões. Comemos a comida do homem branco e ela nos deixa fracos. Vestimos as pesadas roupas do homem branco e elas nos deixam doentes. Fomos culpados de um só pecado – possuir o que o branco cobiçava. Os brancos não se importam com as sorte dos índios, só querem satisfazer a própria voracidade, não se importam com a natureza, com os pássaros, com as arvores, com o próprio homem, são irracionais. Gostaria de acreditar que nossas gerações futuras não mais sentirão os efeitos das medidas opressivas que nos foram impostas de maneira tão pouco liberal; e que a paz e a felicidade serão sua recompensa. O homem branco, na sua insensibilidade à natureza, tem dessacralizado à face da Mãe-Terra”.
     A capacidade tecnológica do homem resulta desta falta de consideração pelo caminho espiritual e modo de ser das coisas vivas. Seu desejo de poder e riqueza material o impede de raciocinar sobre o mal e a dor que causa ao mundo. O passado machuca, mas não pode ser esquecido. Tantos povos e culturas se perderam devido à ação indiscriminada do que hoje são os heróis da nossa história e constam nos livros como bravos homens que proporcionaram o avanço da civilização e do cristianismo em terras repletas de bárbaros. Se o branco quer viver em paz com o índio, basta que todos sejam tratados com igualdade, que a mesma lei se aplique a todos. Como dizia um grande chefe indígena no início do século XIX: “... assim como os rios não voltam para trás, não se pode esperar que um homem que nasceu livre se contente em viver confinado e sem liberdade de ir onde quiser. Se amarrarem um cavalo num poste, esperam que ele engorde e cresça? Se confinarem o índio num pequeno pedaço de terra e o forçarem a permanecer ali, ele não se conformará e não irá crescer e prosperar”.  
 
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