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A palavra “democracia” surgiu entre os gregos antigos e é resultado da fusão de dois termos: demo e kratos, que significam respectivamente, povo, grupo de cidadãos, e poder. Isso não significa que todos os habitantes da Grécia Antiga podiam participar das decisões políticas, na verdade, apenas um grupo tinha o poder de decisão. Dessa forma, o conceito de cidadania era limitado a um grupo de pessoas, a uma elite, que comandava e impunha os seus interesses sobre o de todos os outros.
A pólis era a cidade-estado grega. Como a Grécia Antiga nunca foi um estado unificado, temos de considerar que cada cidade (pólis) era independente da outra e seus destinos eram exercidos por seus cidadãos. Nesse aspecto, a grande característica que se destacava era o espaço público no qual a pólis se constituíra no decorrer do tempo. A praça, chamada de ágora, era o espaço físico e político daquela época. Os interesses públicos eram ali discutidos e atendidos, à medida que um consenso se originava dos debates. Portanto, a questão pública era tratada e encaminhada pela argumentação e pelo consenso de idéias.
As experiências de democracia, da primeira metade do século XX, partiam não da base do debate e do interesse público, mas da apropriação do espaço público pelos interesses privados. Dessa forma, os grupos se organizam, de acordo com seus interesses pessoais, e ocupam o espaço que é de todos (o Estado, as instituições públicas) para defender esses interesses. Os demais membros da sociedade são convocados a escolher entre os interesses em disputa, mas não a conversar, debater e dialogar sobre os problemas e necessidades comuns a todos.
À minoria derrotada cabe negociar seus interesses (também privados) com o poder vitorioso. Dessa forma, a política transforma-se na ação de alguns sobre todos, na aplicação de interesses e desejos particulares sobre o espaço público. Essa forma assumida pela democracia contemporânea, nega a essência política do espaço público. Na verdade, “despolitiza” e transforma o poder num jogo de elites.
Agir, argumentar, comunicar-se coletivamente seriam grandes características dos regimes democráticos da antiguidade. A maior parte das pessoas sente que não tem o que dizer ou não se sente em condições de agir coletivamente, já que o jogo político contemporâneo reduziu-se a uma disputa de interesses.
Além do problema público versus privado, ou seja, além de interesses particulares e necessidades coletivas, outras dificuldades se apresentam hoje para o exercício democrático.
A vida coletiva traz consigo uma série de vantagens e, também, muitos desafios. O fato é que, cada vez mais, a participação das pessoas é necessária para não cairmos em um jogo de interesses restritos. Dessa forma, o voto e a construção democrática ainda são instrumentos acessíveis e devem ser discutidos e ampliados.
Se a nossa democracia é falha, pior seria sem ela, até porque, o Brasil viveu sob o regime ditatorial em alguns momentos do século XX, sendo o mais recente entre os anos de 1964 e 1985. Implantou-se aqui o Estado de Exceção, onde o governo ampliou e concentrou poderes, diminuindo e restringindo os direitos dos cidadãos.
Portanto, a democracia ainda é um regime idealizado, porém em construção e constante aperfeiçoamento, necessitando de participação e diálogo, análise e comunicação entre os grupos sociais, em um espaço público e para todos. Esse é o grande desafio do século XXI, amadurecermos democraticamente, com justiça e igualdade de fato.
