E por falar do interior
Enviado Sábado, 21 de julho de 2007 às 10:56:19 |
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Filó, novena, família reunida, jogo de futebol, salão lotado no final de semana e, ainda mais, quando tem festa de Santo. Chimia, pão caseiro, salame e vinho, muitas vezes, produzidos na própria casa. Hábitos simples, pessoas humildes, porém, visionárias, alegria, trabalho e fé superando qualquer adversidade.
Enquanto que, nas cidades, as delegacias estão lotadas; no interior, as cadeias são usadas para comemorar festa junina. Carregado é só o sotaque. Corre-corre, agitação e barulho são a forma como as crianças brincam quando tem festa na comunidade.
Como tantos em nossa cidade, também vim do interior, mas de Santa Catarina, juntamente com minha família. Observar Nossa Senhora da Saúde, Vila Maestra, Linha 40, Vila Oliva e tantos outros lugares bucólicos do interior de Caxias, nos remete a tranqüilidade, nos faz acreditar que a sinceridade, o trabalho árduo e a fé sempre valem a pena e devem prevalecer.
A solidariedade é presença constante nas promoções, normalmente vem acompanhada pela boa comida e o tradicional e indispensável rifão. O resultado é revertido em benefício da comunidade, seja para melhorar as estruturas da igreja ou do clube, ou ainda, para ajudar em alguma campanha assistencial promovida pela paróquia.
O futebol, o vôlei, o baralho e a bocha são disputados e confraternizados tanto por homens quanto por mulheres. O trabalho coletivo envolve os casais com seus filhos e até mesmo suas namoradas e namorados. Todos juntos, o que caracteriza o verdadeiro significado do crescimento saudável e da pujança de um interior democrático e acolhedor, que ainda hoje expressa as raízes do desenvolvimento da nossa querida Caxias do Sul.
Muitas pessoas criadas na urbanidade que a cidade proporciona estão se mudando e escolhendo para morar a tranqüilidade e a qualidade de vida disponibilizadas pela natureza, através da sombra das árvores, nas uvas colhidas diretamente dos parreirais, no barulho dos rios e nos cantos dos pássaros, que as “colônias” têm o privilégio de oferecer.
Oportunamente, há que se fazer uma ressalva triste. Infelizmente nosso interior já sofre e necessita se cercar de cuidados, que até a alguns anos atrás atormentavam somente a cidade. Buscam se atualizar em infra-estrutura, tecnologia, modernidade e segurança, mas o mais importante é não perder o hábito simples, o espírito de solidariedade e o poder de confraternizar.
As canções típicas, as histórias dos nonos, o cheiro do mato e da terra quando chove, a mesa farta, o respeito por idosos e crianças e a alegria do convívio devem servir para encher a todos de orgulho por ser do interior ou de alguma forma estar relacionado a ele.
E aí beleza-fera?
Enviado Sexta-feira, 06 de julho de 2007 às 20:34:08 |
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Sou professor há mais de 20 anos – 24 anos para ser mais exato. Nesse tempo todo já convivi com milhares de alunos. Impossível lembrar de todos, mas assim como muitos mestres ficam na memória de seus alunos, muitos deles também deixam impressões profundas em nós, professores.
Já trabalhei nos Colégios do Carmo, Objetivo, São José, na UCS, bem como em diferentes funções e em diferentes realidades sócio-econômicas. Trabalhei em sala de aula e também tive a oportunidade de ser diretor da querida Escola São Vicente e do Colégio Dante Alighieri. Por falar do São Vicente, quanta carência material, mas muita riqueza de afetividade e de solidariedade daquele povo. De todas as experiências que trago desse tempo de magistério, sempre tive uma identificação muito forte com um dos meus trabalhos em particular: lecionar há mais de 20 anos para jovens do cursinho pré-vestibular Mutirão, na condição de professor de Geografia.
Cursinho Pré-Vestibular é sempre uma verdadeira maratona, tanto para quem aprende como para quem ensina. Seguramente, nem todos que estão ali apresentam reais intenções de aprender. Muitos querem cumprir a agenda, acompanhar a galera ou simplesmente satisfazer a vontade dos pais. Felizmente, a maioria pensa diferente. A maior parte desses jovens está firme na intenção de estudar, passar do vestibular para o curso de sua escolha e partir para o futuro escolhido.
A maratona é diária, já que é preciso vencer o conteúdo de uma vida escolar em somente alguns meses, ou com alguma folga, em um ano. Além disso, as salas fervilham de jovens sedentos de tudo, muitas vezes, menos da matéria em questão. Os jovens, nessa etapa da vida, são intensos e carentes de tudo. São visionários e pouco práticos. Entrar nesse universo tão peculiar requer um certo esforço do professor.
A minha sorte foi que comecei a trabalhar com esse público quando tinha pouco mais de 20 anos. Aí foi fácil. A linguagem, anseios e receios eram muito parecidos. Eu era um jovem ensinando outros. Falar a mesma língua sempre foi essencial para quem quer ser ouvido e eu não tive dúvidas: busquei dois ou três bordões que facilitassem a minha comunicação. Foi assim que nasceu o “beleza fera”, ou então aquele “aí diretoria” entre outros... O que era para ser uma estratégica de comunicação, virou marca pessoal. É muito comum estar em algum lugar e alguém me chamar por “beleza fera”. Por causa disso também ganhei comunidade no Orkut, que por falta de tempo quase não tenho acompanhado.
Hoje, tenho o dobro da idade de quando comecei e muita coisa mudou nesse tempo. Eu que era um razoável atacante no futebol, hoje virei um esforçado atleta das bochas. De solteiro passei para a condição de casado e, profissionalmente, fui incorporando outras atividades à minha vida. Mas o que realmente não venceu, foi o prazo de validade dos meus jargões. Eles continuam me acompanhando em sala de aula até hoje e eu acho, talvez pretensiosamente, que ainda continuam eficientes.
O mais importante, no entanto, é ter convivido com essa juventude que sempre traz consigo uma inquietação saudável e uma energia inesgotável. De todos tenho saudades e de alguns ainda acompanho seus passos. Hoje eles são homens e mulheres que se tornaram sociólogos, arquitetos, farmacêuticos, médicos, dentistas, artistas e, muitos, professores como eu. Espero que alguns tenham aprendido mais do que duas ou três brincadeiras. Espero que outros tenham aprendido bem mais do que é um solstício ou um equinócio. Espero que todos tenham aprendido que o respeito e o caráter valem mais do que qualquer matéria escolar.
Dizem que ser professor é renunciar a um pouco de si a cada dia. Eu discordo. O magistério não é uma renúncia. É uma troca, onde aprendemos tanto quanto ensinamos.