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Fábio Berti
Fábio Berti
*Jornalista, doutorando em Educação em Ciências (Ufrgs)

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Para não perder o trem da história

Enviado Sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010 às 19:00:25 | Nenhum comentário »
“Recordar é viver”, ensinou o velho samba. Em função disso, o tema da Festa da Uva 2010 é extremamente oportuno. Mais do que resgatar um dos principais pilares do progresso caxiense e serrano, expõe uma de nossas maiores contradições. Se é habitual compararmos os nossos aos bons costumes europeus, é incrivelmente anacrônico nos curvarmos a uma tendência tupiniquim. A exultação à chegada do trem, marco da elevação de Caxias do Sul à categoria de cidade há um século, deve servir de estímulo para uma profunda reflexão pela sociedade e seus representantes políticos, comunitários e classistas.
 
            Praticamente desprezado no Brasil, o trem é uma das opções de transporte mais utilizadas no mundo. Seu surgimento foi na Inglaterra, no século XIX, com a aplicação do princípio das máquinas a vapor às locomotivas. Rapidamente as ferrovias se espalharam e, em 1869, os Estados Unidos inauguraram sua primeira transcontinental, a maior do mundo na época. Atualmente, se encontram em todos os continentes com 1,3 milhão de quilômetros e a tecnologia moderna permite aliar grande velocidade à alta eficiência.
 
O Brasil apresenta a décima maior malha, o que significa pouco, se levarmos em conta nossa extensão territorial. Durante décadas, a política de transportes não deu atenção a esse meio de transporte, o que resultou em envelhecimento da malha ferroviária, baixa tecnologia, lentidão, falta de armazéns e fretes caros. Diversos fatores, principalmente a pressão da indústria automobilística e do segmento de transporte rodoviário, contribuíram para esse quadro.
 
A via ferroviária é considerada ideal para o transporte de mercadorias pesadas e que necessitam percorrer longas distâncias, assim como para o deslocamento de passageiros. O advento do trem pode ser considerado um dos marcos fundamentais para a rica indústria do turismo, já que a concepção do transporte de um grande número de viajantes para um mesmo destino, de uma só vez, teve início com eles.
 
            É, portanto, fundamental que as esparsas iniciativas do poder público municipal ao longo dos anos sejam ampliadas e tomadas como prioritárias. Discussões infrutíferas como a que até o momento envolve o trem regional precisam ser retomadas e instigar o planejamento de um transporte coletivo de massa não-poluente, oportunizando aos caxienses uma aguardada alternativa, moderna e sustentável, aos ônibus da única empresa concessionária e à meia dúzia de táxis-lotação.
 
Secretarias como a dos Transportes e da Cultura estão capitaneando estudos de viabilidade técnica. Esperamos que a visão seja tão arrojada quanto a que determinou, há cem anos, a emancipação da pequena vila que hoje se tornou metrópole regional.
 
 

Diálogos modernos

Enviado Terça-feira, 24 de março de 2009 às 16:49:23 | Nenhum comentário »
A vida contemporânea nos oferece muitas facilidades. Mas também nos traz uma carga de responsabilidade tal que os valores mais básicos passam por inevitáveis e perigosas mutações. Muitos de nós irão se identificar com o diálogo que segue:
- Paiê, vamos jogar bola? – pede o menino de sete anos ao pai recém chegado da estafante jornada de trabalho, que não lhe garante lastro financeiro para comprar muitos brinquedos, embora já tenha dado ao filho um super-mega-ultra viodeogame.
- Agora não! Tô cansado.
- Ô mãe, brinca um pouquinho comigo? – insiste o garoto, em tom de súplica, mudando o alvo para a mãe, habitualmente mais dócil.
- Já vai, meu amor... – responde a mãe, involuntariamente sem perceber que o efeito do seu "já vai" se prolongaria até a hora do menino cair de sono.
- Tá, então vou jogar viodeogame! – avisa o filho, entre o desânimo e a resignação, pois aquilo acontece com frequência.
Tenho lido nestes últimos tempos opiniões de diversos ‘interessados’ na repercussão da lei de autoria do deputado Kalil Sehbe que impede o acesso de crianças e adolescentes a games violentos. Seja por meio de grandes veículos de comunicação ou em blogs para adoradores de jogos eletrônicos, psicólogos, psiquiatras, jogadores eventuais e jogadores inveterados opinam sobre a conveniência ou não da lei recentemente sancionada pela governadora.
Sou pai de um menino de sete anos, orgulhoso por ele adorar ler e escrever, contudo um pouco frustrado em razão do diálogo fictício acima também já ter ocorrido na minha casa. Aprovo que o meu filho jogue viodeogame e use o computador com supervisão e regrinhas pré-acordadas, assim como considero fundamental softwares e jogos didáticos em sua educação.
Meu alento reside no fato de ele realmente preferir um bom livro, até mesmo um livro virtual, com historinha narrada em um site para crianças. Apesar de conhecer estudos que apontam prós e contras, estou convicto de que, melhor que um jogo que incita a bater em professores, seria incentivar nossos pequenos a ler, sem precisar vivenciar também em seu mundo virtual o mundo cruel em que já estamos vivendo.

Boa vontade com a educação

Enviado Segunda-feira, 19 de janeiro de 2009 às 09:15:59 | Nenhum comentário »

Ao ler recentemente nos jornais que a secretária da Educação do Estado daria plantão nos feriadões de Natal e Ano Novo fiquei especialmente satisfeito. Não pelo senso comum de que servidor público trabalha pouco, mas pela expectativa que a notícia gerou. Diante de tantos equívocos de condução na área educacional que a história tem revelado, será que finalmente um gestor irá promover uma evolução - ou revolução, um projeto educacional diferente, mais atraente, capaz de cativar crianças e adolescentes, permitindo permanentes reciclagens aos professores, enfim, muito mais eficiente?

Na sociedade contemporânea, a educação precisa estar voltada para a transformação da realidade, não pode estar desvinculada do processo de produção e das relações sociais. A educação para a ciência é parte integrante deste processo. O esforço educacional cabe ao poder público e, obrigatoriamente, passa pelas escolas. A possibilidade de ver, ouvir, tocar, experimentar, questionar, discutir, refletir e emocionar, ou seja, interagir como sujeito ativo com o objeto tecnológico, é uma contribuição substancial para a compreensão de nossa realidade cotidiana e da natureza do conhecimento científico e tecnológico.

Para medirmos o nível educacional de um país devemos medir não apenas a qualidade do ensino oferecido nos bancos escolares, mas, o grau de alfabetismo científico da população. Com uma população analfabeta cientificamente, reduz-se a perspectiva de um mundo melhor. Evidencia-se a necessidade de ações que busquem formas de comunicar a ciência e a cultura de forma lúdica, agradável e de fácil compreensão. Os educandos, desde a mais tenra idade, devem ser estimulados a duvidar e a investigar. Desta maneira, no futuro, teremos profissionais bem definidos em suas carreiras, solucionando problemas como a evasão escolar.

A instituição de uma política pública que permita a socialização do conhecimento, naturalmente, envolve o Estado e se faz premente e fundamental. Pode-se afirmar que ações governamentais articuladas, planejamentos públicos com sistemas de avaliação, bem como a continuidade de projetos relevantes determinam a consolidação de ações neste âmbito. É isso o que imagino que a secretária da Educação persiga e, realmente, gostaria que fosse seu maior compromisso. Afinal, equacionar falta de professores no início do ano letivo aparenta tarefa não mais que simplória para alguém com tamanho preparo e tão boa vontade de trabalhar.

Quem perde? Todos nós!

Enviado Sexta-feira, 21 de novembro de 2008 às 15:55:27 | Nenhum comentário »
Caxias do Sul e o seu povo estão perdendo uma grande oportunidade de seguir presentes na pauta diária nacional. Nem nossa pujança produtiva, nem nosso clima ‘europeu’, nem mesmo os estratosféricos índices de criminalidade são suficientes para garantir espaço na mídia nacional com a freqüência que nos acostumamos há mais de uma década. É consensual que a ausência do Esporte Clube Juventude na elite do futebol nacional, por pelo menos mais um ano, reduz sensivelmente o retorno de imagem para nossa cidade e, indubitavelmente, para a região da Serra.
 
Estes argumentos reforçam a responsabilidade que significa comandar um clube de expressão como o Juventude. Os equívocos, certamente, não passam impunes. E quem acaba pagando a mula roubada? Os apaixonados que, por toda a vida permanecem despidos de quaisquer interesses senão assistir a momentos gloriosos de seu clube do coração. Errar tentando acertar é passível de compaixão, e de uma nova chance, a que terá o presidente Florian, este sim, juventudista de berço.
 
O mais doloroso é observar o descaso com as simbologias. Para expor um guindaste, conseguiram enforcar o periquito! Sem intenções subliminares, quero dizer que penduraram um gimmick (boneco) do JU a, sei lá, 30 metros de altura, dando a nítida impressão de que estava sendo enforcado. Realmente simbólico para uma noite em que o time carimbava passaporte para permanecer na segundona diante do Corinthians treinado pela figurinha marketeira que abandonou a SER Caxias com as calças na mão havia pouco tempo.
 
Para mim, essa lembrança do periquito esganado é mais forte até do que os 8 a 1 no Gauchão que não defenestraram ninguém. Nem o Márcio Alemão – que não serviu sequer para o confiança de Sergipe na terceirona – nem o tal de Élvis, que mandava a torcida calar a boca com o consentimento de seus chefetes. A quem interessava dar tanto respaldo a uns carinhas desse naipe? Se alguém souber, por favor, me esclareça.
 
Já me encaminhando para os finalmentes, a cobrança deverá ser sempre a mesma. Os poderosos de Caxias do Sul, cujas marcas estão consolidadas nos cenários nacional e até internacional, evidentemente em razão da competência na gestão dos negócios, deveriam apoiar com vigor as instituições da cidade. Foi assim, com essa receitinha básica, feijão e arroz mesmo, que Avaí e Santo André acabaram de ascender à Série A. No clube catarinesnse, há cinco patrocinadores locais e outros 26 parceiros, todos sediados em Florianópolis ou arredores. Nos paulistas também, empresas locais estampam as camisas e demais produtos.
 
Fica o compromisso mútuo: o clube estar organizado, gerando confiabilidade no mercado e as empresas – e não só as indústrias – simplesmente ampliarem um pouquinho seu papel social. E olha que vou focar no futebol, para não falar do absurdo abandono a que todas as outras modalidades esportivas estão submetidas. Só com o dedo na moleira para mudar o statu quo.
 
 
 
 

Pérola das colônias do século 21

Enviado Segunda-feira, 03 de novembro de 2008 às 14:26:38 | Nenhum comentário »
 
 
Caxias teve dois bons candidatos a prefeito na última eleição. Um deles governou a cidade por oito anos e conquistou altíssima popularidade. O outro, em quatro, ganhou aprovação espetacular, refletida no resultado do pleito. Evidentemente, há méritos no trabalho de ambos e suas equipes. Entretanto, fico com a nítida impressão de que Caxias continuará sendo a mesma. Desenvolvimentista, sim, mas não mais do que a "Pérola das Colônias".
 
Jamais renegaria minhas origens – por parte de pai, sou tataraneto de Ana Rech e tenho um pé na Sicília. Nutro orgulho por termos progredido amassando uva e entortando ferro. Mas é no mínimo um contra-senso ocuparmos posição destacada em rankings de inovação tecnológica na indústria e continuarmos discutindo o básico na esfera pública. Ou muito me engano, ou só se falou em posto de saúde e viaduto durante essa campanha. Tá bom, para não ser injusto, falou-se em educação e segurança, outras demandas prioritárias da comunidade. E no bendito centro de eventos da Festa da Uva, nada mais que um terceiro pavilhão, que tem vários padrinhos e ninguém entende se já está concluído.
 
Alguém aí lembra dos candidatos terem passado perto de temas como pesquisa científica e inovação tecnológica? Tocaram em assuntos como transporte coletivo de massa não-poluente? Disseram se apóiam o Trino Park, que muito poucos caxienses imaginam que seu filho poderá encontrar lá a sua vocação, um ótimo emprego e um salário bem acima do mercado? Falaram que esse deveria ser o embrião de um grande parque tecnológico multisetorial?
 
Moro a cem quilômetros de Caxias há alguns anos, mas estou aqui semanalmente. Auto intitulei-me embaixador da terra, um juventudista que defende o SER Caxias, que tem paciência para explicar aos mais debochados sobre o prazer inigualável de uma polenta com molho de perdiz. Portanto, não posso estar tão desinformado assim. Em nossa cidade, o trânsito já é problemático e tende a ficar caótico em um punhado de anos. As empresas crescem, mas a riqueza não fica para a coletividade, já que pouco se cria e muito se copia.
 
Desejo que quando a sociedade despertar para essas relevantes questões, o preço da visão estreita e da falta de planejamento não seja impagável.
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