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Helder Caldeira
Helder Caldeira
Escritor, Colunista Político, Palestrante e Conferencista.

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História sarneysista

Enviado Segunda-feira, 06 de junho de 2011 às 11:26:22 | Nenhum comentário »

Talvez esse episódio seja apenas um acidente que não deveria ter acontecido na História do Brasil”. Foi com essa ignominiosa frase que o presidente do Senado Federal, José Sarney, sustentou a exclusão do impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello da história recente do país. Com seu defectivo sapato lustrado, cuja origem remonta o suado bolso do tolo contribuinte brasileiro, o imortal literato maranhense esfregou na cara do país a ímpar capacidade de nossa classe política em compreender o poder e o valor da democracia e de como, em mãos equivocadas, podem ser frágeis as linhas que nos chancelam enquanto nação.

 

Quando o presidente do Congresso Nacional decide manipular a história e extrair de suas páginas o último movimento político popular de grande monta, estamos diante não apenas de um desdenho institucional, mas da tentativa torpe de macular um tempo, de apagar páginas históricas que não podem – e não devem – ser esquecidas. José Sarney afronta a dignidade, a honra e o orgulho do povo brasileiro. São indeléveis da história do país os milhões de jovens com suas caras pintadas que invadiram as ruas e exigiram que o então presidente da República, acusado de alta corrupção, fosse defenestrado de sua cadeira no Palácio do Planalto. Revoga-se qualquer disposição em contrário, ainda que vinda de um presidente-coronel, comandante de uma nau de néscios engravatados – esses sim, cada dia mais desprezíveis.

 

Alguns podem até imaginar que há muito barulho por nada na questão. Mas a decisão  de extrair os painéis e os textos que relatam o processo de impeachment de Collor da exposição histórica no chamado “Túnel do Tempo” do Senado Federal é emblemática  quanto à expectativa de subserviência e aniquilação cultural que a classe política dispõe à sociedade. Vide a recente querela dos erráticos livros didáticos do Ministério da Educação e a posterior citação de seu ministro – que conseguiu a proeza inversa de tentar justificar os genocídios de Stalin – e temos um extraordinário exemplo dos tipos “sui generis” a quem as “canetas” são concedidas nesse país. E quantos mais ainda serão “tiriricas” ou “severinos”?

 

Mas como é possível um senador ter tanto poder? Fernando Henrique Cardoso abraçou José Sarney em seu governo. Lula beijou a mão do agora amapaense coronel ludovico. Dilma Rousseff fez e faz questão de estruturar seu governo no campo gravitacional do maior bigode político da nação. O que podemos concluir disso? O sistema político e eleitoral do Brasil é tão anômalo e insano que a um homem capaz de destroçar seu estado natal por décadas e figurar como um dos piores presidentes da República, ainda é dado o poder de pisar, desdenhar e enodoar a história do país, mantendo uma espécie de soberania capaz de transformar mandatários em títeres e seus pares em patetas desprezíveis.

 

José Sarney é apenas o principal expoente vivo dessa linhagem política decrépita. Um homem com poderes quase sobrehumanos e cujo chão onde pisa é diariamente lambido e chafurdado pela vara bem vestida que o segue, contempla e reverencia. O inacreditável – e inabalável, diga-se de passagem – poder que lhe é outorgado obriga-nos a revisitar com constância nossa própria história na tentativa de encontrar quais pecados absurdos cometemos e que nos façam merecer tamanho degredo e punição. Muito provavelmente, escamotear painéis da História do Brasil seja uma tentativa risível de nos poupar da constatação de que nossa República ainda é um feudo e de que nossos notáveis “senhores” não conseguem – e não querem – nos admitir enquanto cidadãos.

 

A manutenção plena e absoluta da influência do imortal José Sarney, esse ser político inamovível, faz-nos lançar dúvidas sobre a nossa própria compreensão do que seja a administração de um Estado democrático. Fossemos realmente um país sério e politicamente engajado, a escória da sociedade não estaria em Brasília disfarçada sob togas ou recebendo auxílios-paletó. Fossemos, de fato, uma democracia consolidada e inteligente, já teríamos banido esses coronéis constitucionais e a Praça dos Três Poderes já teria deixado de ser uma capitania hereditária talhada em mármore e concreto. Mas, ao que tudo indica, a narrativa brasileira insiste sustentar-se em uma história sarneysista. Triste assim.

O triunfo de Ti Ti Ti

Enviado Segunda-feira, 21 de março de 2011 às 11:08:04 | Nenhum comentário »

No final de 2009, quando a Rede Globo anunciou oficialmente estar produzindo um remake-fusão das novelas Plumas e Paetês e Ti Ti Ti para ocupar o horário das sete da emissora, o público torceu o bico. A releitura das obras do genial Cassiano Gabus Mendes, sucessos na primeira metade da década de 1980, foram para as mãos da experiente dramaturga Maria Adelaide Amaral com a dura missão de resgatar a audiência em queda vertiginosa devido às grandes porcarias que vinham ilustrando o horário e com a tarefa de reconstruir os legendários estilistas Victor Valentim e Jacques Leclair e todas as minuciosas e importantíssimas tramas paralelas, marca registrada do gigante Cassiano.

Apesar da preconceituosa repulsa inicial, tão logo estreou, em julho de 2010, Ti Ti Ti triunfou, conquistando crítica e público. Sem meios termos, abriu as cortinas com ar de novelão. Tramas bem orquestradas e desenvolvidas, no melhor estilo folhetim, desenhando uma nova roupagem para antigos personagens que povoam o inconsciente de nossas predileções e fantasias. Isso sem falar na impecável direção de Jorge Fernando e na fotografia, figurinos e seleção de atores. Até a luz de cada cena parece ser milimetricamente calculada para adequar-se ao horário das sete, uma transição entre o movimento do dia e a preparação para a paz noturna. Mínimos detalhes para máximos resultados: uma matemática quase infalível.

 Maria Adelaide Amaral, reconhecida por bons trabalhos na TV, revelou-se a grande dama da teledramaturgia de seu tempo. Com maestria, realocou as personagens, refez suas trajetórias, modernizou o discurso e marcou um golaço. Para aqueles que não conheciam as tramas, deixará a marca de uma excelente novela, instigando uma curiosidade histórica pelo trabalho de Cassiano Gabus Mendes. Às gerações que tiveram o prazer o assistir as obras na década de 1980, a autora deixa um sabor de incrível déjà vu, costurado com as linhas dos novos tempos. Um trabalho sensacional que consolidou o sucesso, abocanhou uma audiência crescente e chegou a desbancar, pela primeira vez na história recente, duas novelas das nove, o dito “horário nobre”.

 Mas o triunfo de Ti Ti Ti passa diretamente pela qualidade de seu elenco. De experientes atores, laureados por veias dramáticas, cômicas ou até tragicômicas, a jovens tão belos quanto talentosos, a novela das sete produziu um feito notável: distribui equitativamente o protagonismo das tramas. Em tempos de amplo domínio de Narciso, que acha feio tudo que não é espelho, uma novela que faz de seus coadjuvantes os grandes protagonistas é digna não apenas de nota enciclopédica, mas de forte reverência ao conjunto da obra. Ou melhor, das obras.

 Se a grande maioria já conhece a versatilidade que fazem de Murilo Benício o melhor ator de sua geração, fomos levados à lona pela habilidade de Caio Castro e Ísis Valverde, cuja trama rende um dos assuntos mais comentados da internet brasileira há meses. E se as apostas em nomes que sempre dão certo, como Christiane Torloni e Malu Mader, pareciam opções conservadoras, a ascensão plena e delicada do romance homossexual entre os personagens de André Arteche e Armando Babaioff, emoldurados pelas talentosas Cláudia Raia e Giulia Gam, cria uma “jurisprudência” para a temática na TV e prova que há espaço para todas as tribos nas telenovelas. É apenas uma questão de saber como conduzir as tramas.

 Enquanto veteranas como Regina Braga e Nicette Bruno dão ar de plumas em participações especialíssimas, o jovem Rodrigo Lopéz, tal qual um paetê, reluz ao lado de uma Elizangela cada vez melhor. E se as décadas de profissão dão a Mauro Mendonça a dimensão exata de seu personagem, surge uma talentosa Guilhermina Guinle para acertar em cheio na construção de sua atormentada vilã. É exatamente a qualidade na mescla de tecidos tão díspares que faz de Ti Ti Ti um grande e inesquecível sucesso. Ainda assim, na mítica popular, Victor Valentim e Jacques Leclair permanecerão, para sempre, nos domínios de Luís Gustavo e Reginaldo Faria, tão brilhantes quanto insuperáveis nos idos anos de 1980.

 Há equívocos em Ti Ti Ti? Há sim. Apesar de poucos, eles existem. O mais cruel deles é o erro de tom na interpretação de Alexandre Borges em seus personagens Jacques Leclair e André Spina. Enquanto André, o ator é perfeito, na medida ideal. Mas quando assume a face de Jacques, Alexandre Borges desequilibra e sobe um tom na interpretação, deixando o costureiro com cara de caricatura mal feita: nem é assertivo, nem tanto faz rir. E pastelão por pastelão, Cláudia Raia é prova inconteste de que é possível ser grandiloquente e teatral sem colocar em risco a comicidade televisiva. A atriz, mais bonita do que nunca, brilha absoluta ao dar vida à sua Jaqueline Maldonado.

No entanto, até as nuances mais desequilibradas de Jacques Leclair acabam fazendo parte do espetáculo. Ti Ti Ti é um folhetim que não tem nenhum compromisso com a realidade, com as pesquisas de opinião ou com o politicamente correto. É apenas uma novela. E, por isso, um retumbante sucesso. Uma lição que deve ser absorvida pela Rede Globo, que tem derrapado feio na escolha das tramas nos últimos cinco anos e vem dando demasiada atenção às pesquisas com uma minoria consultiva ultraconservadora. Na plateia, o público telespectador ainda é o soberano da crítica final. E no cerrar das cortinas, Ti Ti Ti merece todos os aplausos. De pé

           

Pinguços e Mensaleiros

Enviado Quinta-feira, 10 de março de 2011 às 10:34:06 | Nenhum comentário »

Quando eu digo que o Brasil tem hoje o pior quadro legislativo de sua história, ainda há quem duvide. Se a Câmara dos Deputados e o Senado Federal fartaram-se na era Lula com a viciante cachaça da corrupção, agora, na era Dilma, parecem estar vivendo sob o signo alcoólico do bêbado com chapéu-cocô. Cocô mesmo! Típico de Vossas Excrescências. E nós seguimos, lenientes, aplaudindo as bizarrices desse picadeiro fétido.

Tão logo a presidenta Dilma Rousseff errou a mão na preparação de uma omelete para Ana Maria Braga e anunciou um aumento de 19% a 45% para o Bolsa Família, o líder do governo na Câmara, Cândido Vacarezza, veio a público defender sua atual chefe e o histórico de seu ex-patrão. Numa bela chance de ficar quieto, o deputado justificou o aumento do principal programa social do governo e, numa alusão às críticas oposicionistas de que os beneficiários estariam comprando pinga com os recursos, afirmou: “mesmo que cada uma das famílias compre um litro de cachaça, são 12 milhões de garrafas de cachaça por mês e isso ajuda a economia do país”. Portanto, em nome do desenvolvimento do Brasil, sejamos pinguços!

Já que estamos falando das atualidades tão bêbadas quanto esdrúxulas do Poder Legislativo brasileiro, o que dizer sobre a composição da Comissão Especial da Reforma Política? Instituída pela Câmara na última terça-feira, dia 1º de março, terá a missão de discutir e elaborar um arcabouço sobre temas como a fidelidade partidária, a adoção do voto distrital ou a manutenção da votação proporcional, a criação ou não da lista partidária e, principalmente, o famigerado financiamento público de campanhas eleitorais.

Como o Brasil é o país da piada pronta e da falta de vergonha na cara legitimada, para compor os 41 titulares da comissão foram escolhidos nomes como o deputado paulista Paulo Maluf e os réus do escândalo do mensalão Valdemar Costa Neto (eleito na aba do milhão de votos que São Paulo deu ao palhaço Tiririca) e o mineiro Eduardo Azeredo. Também estão nomeados para a comissão a deputada candanga Jaqueline Roriz (filha do ex-senador e ex-governador Joaquim Roriz, que teve a candidatura cassada com base na Lei da Ficha Limpa) e o sergipano Almeida Lima (célebre pela defesa intransigente do senador Renan Calheiros durante o processo de cassação no Senado Federal).

Para completar a inglória comissão que pautará a Reforma Política do nosso país, foi destacado o petista cearense José Nobre Guimarães, que além de ter enfrentado um processo de cassação quando era deputado estadual e figurar na lista promíscua dos “recursos não contabilizados” de Marcos Valério, ainda tem no currículo um irmão chamado José Genoíno (ex-presidente do PT e réu no STF no processo em que é acusado de corrupção ativa e formação de quadrilha). Para refrescar a memória, o deputado José Nobre Guimarães é aquele cujo assessor foi preso em 2005 com quase meio milhão de Reais em uma mala e US$ 100 mil na cueca.

E vice-presidente da República, Michel Temer, que justificou a composição enodoada da comissão com a pérola: “não é preciso convocar doutor para falar sobre Reforma Política”. São por essas e outras que um deputado como Tiririca vai parar na Comissão de Educação e Cultura da Câmara ou que notórios ladrões e mensaleiros vão cuidar da tão necessária reforma política brasileira. Temer entra na lista dos que perderam uma boa oportunidade de ficarem calados. Em breve, chegará o dia em que o povo brasileiro, esse sim envergonhado e humilhado, sairá às ruas em protesto, tal qual acontece no norte da África e no Oriente Médio.

O eterno coronel do Senado

Enviado Segunda-feira, 31 de janeiro de 2011 às 10:04:51 | Nenhum comentário »

 

O senador José Sarney não é apenas imortal da Academia Brasileira de Letras – título duvidoso, aliás – mas parece estar querendo sua eternidade no Congresso Nacional. No próximo dia 1º de fevereiro de 2011 será inaugurada a nova legislatura do Senado Federal, recheado de alguns novos nomes e dos velhos figurões de sempre. Como novidade política no país do carnaval e da impunidade é algo “tiririqueano”, o eterno coronel anuncia sua candidatura à reeleição à Presidência da Casa. Como sempre digo, é tautológico.

 José Sarney é meio mitológico. Tem certos poderes sobrenaturais. Eu mesmo já experimentei essa “força estranha”. Em outubro de 2010 fui contratado para pelo Conselho Regional de Administração do Estado do Maranhão – CRA/MA – para ministrar uma palestra sobre política brasileira e administração pública para estudantes universitários, professores e profissionais maranhenses. Na ocasião, tive a oportunidade de conhecer a capital, São Luís, e me chocar com o poder feudal. No caminho entre o aeroporto e o hotel onde fiquei hospedado, o motorista, como um guia turístico, foi me apresentando os locais: “aqui é a Avenida José Sarney; essa é a Praça José Sarney; essa aqui é a Ponte José Sarney; e esse aqui é o campus universitário José Sarney... mas aquela ali é Maternidade Marli Sarney e logo depois a Avenida Governadora Roseana Sarney!” Não é só chocante. É absurdo.

 Foi ficando cada vez mais claro que era uma ousadia daquele órgão ter me contratado para fazer uma palestra sobre política. Há anos sou crítico público não apenas dos Sarney, mas desse anacrônico coronelismo que ainda insiste dominar alguns feudos brasileiros. Para minha absoluta surpresa o auditório estava superlotado. Preparado para receber cerca de 850 pessoas, havia mais de 1.300 maranhenses naquele espaço, aguardando para ouvir o que eu tinha a lhes dizer. Aliás, rendo aos jovens do Maranhão um dos momentos mais incríveis da minha vida profissional e a prova inconteste de que nem tudo está perdido.

 Antes de entrar nos assuntos políticos e de administração atuais, faço um rápido retrospecto da vida política brasileira pós-redemocratização. No exato momento que falei as duas palavrinhas mágicas “José Sarney”, todas as luzes do hotel se apagaram. Em meio a uma salva monumental de palmas, vi toda sala de convenções virar um breu. Alguns minutos depois a luz foi reestabelecida e, novamente sob aplausos e gargalhadas, anunciei que, “por questões de segurança, passaria a me referir ao bigodudo apenas como ‘JS’”. A luz novamente se apagou! Convencionamos não falar mais sobre a figura.

 É quase certo – digo quase – que o senador José Sarney nada tem a ver com o corte de energia do fabuloso Rio Poty Hotel, mas não deixa de ser bastante ilustrativo dos “puderes” lendários que o patriarca inspira. No avião, durante a volta ao Rio de Janeiro no dia seguinte, fiquei martelando aquele fato na minha cabeça. E minha conclusão não poderia ser outra: é exatamente essa mágica mitológica, esse psicológico pseudopoder, que mantem a aura intimidadora, meio centauro, meio serpentário, do senador imortal.

 Tenho quase certeza que José Sarney será reeleito presidente do Senado Federal. Seja por deferência, seja pelo cagaço que inspira em seus pares. E, pelo visto, não há Aécio Neves ou Pedro Simon que dê jeito nisso. O homem é um coronel e os demais senadores gostam de comportar como suas “rolinhas”. Além do mais, nenhum deles quer arriscar ter suas luzes apagadas.

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