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Vem chegando o inverno. E com ele suas delícias e problemas: Vamos ficar somente com as delícias: um bom vinho à frente da lareira; um passeio em Gramado; um café colonial; chocolate quente. A lista é interminável.
Que dizer do calor do carro que ficou ao sol, do cheirinho da comida caseira, do abraço caloroso, da cama pela manhã. Mas talvez nada seja mais emblemático do que a casa simples, perdida na roça ou no campo, com a fumaçinha lentamente expelida pela chaminé. Uma certeza: Nesse lugar reina absoluto o fogão à lenha. E com ele algumas possibilidades: água para o chimarrão ou café, um pinhão na chapa ou uma polenta, pessoas ao seu redor.
Num passado recente o fogão representava o divã do psicanalista. A família, vizinhos, amigos reuniam-se para celebrar a amizade descontraída e sem interesse. Falava-se de tudo e de todos porque era o que se tinha para dizer. Não havia os dardos da inveja. Stress não exista no vocabulário. O dia de amanhã demorava muito mais do que vinte e quatro horas. Havia tempo para dar um tempo para simplesmente estar juntos. Conversar sobre tudo, rir de si mesmo. Sentíamos que não estávamos sós.
Essa catarse social descontraída substituía os antidepressivos. Sem essa de redutor de apetite! Comer bem é o que interessa para engordar o bem estar interior.
O calor do fogão representa o coração do amor familiar e fraternal há muito esquecido sem que percebamos. As histórias ao seu redor contadas por nossos pais representavam um aconchego e um deslumbre que nenhum cinema consegue substituir ou reproduzir.
Família, carinho, pertencer, segurança. Poucos poderiam imaginar estarem por trás de uma simples chama tantas referências diferentes e insubstituíveis. Produtos que não são encontrados em gôndolas de Supermercados, mas teimam em fugir de nossas mãos, fazendo-nos sentir um vazio doído.
Coloque lenha na fogueira da amizade sincera. Confundam-se palavras, olhares e abraços da chegada como da saída. Passemos a entender o poder dessas singelezas.
Nosso lar, da qual deriva a palavra lareira, nos remete a essa mistura familiar e fraternal de reunião e união, cada vez mais difíceis e não menos necessárias.
Da mesma forma que quando pequeno mexia com o ferro na lenha incandescente do fogão, meus infantis pensamentos mexiam com meu imaginário, perdendo-se na dança de suas chamas. A paz deste momento teima em ser resgatada apesar da mudança do tempo e interesses pessoais.
Sair de nossa clausura é imperativo. Para não olharmos as paredes sem vida, que emanam o eco de pensamentos irreais. Pois sós, o caminho é mais árduo e até inesperado.
Acenda o seu próprio fogo. Seu calor é gratuito e tão importante. Deixe-o fluir para quem tanto precisa dele. Podem ser palavras, um ombro amigo, um abraço, um sorriso. Não importa a forma, mas aqueça seu de redor. Senão for a sua praia apele para o bom e velho fogão a lenha. Ele falará por você; aquecerá por você; encantará por você! A companhia você escolhe. Bom inverno.
