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Como é de costume nos feriados, meu pai foi para Caçapava do Sul visitar os parentes, e como fazia muito tempo que eu não ia, resolvi acompanhar. Fui o caminho inteiro me sentindo mal, quando pegamos na estrada de chão para a casa de minha avó, parecia que eu havia entrado em um campo de guerra, tudo bem que havia chovido um dia antes, mas havia mais buracos que um queijo suíço. Uma coisa é certa, o prefeito não deve passar muito por ali, deveria passar mais vezes, pois infelizmente as coisas são assim, se eles não veem o problema com os próprios olhos, não há um problema.
No sábado, almocei na casa de uma tia e desci para a casa da minha avó, quando cheguei lá encontrei meu pai deitado e rolando de dores no lado direito do abdômen, tomou algo pra dor, mas não adiantou nada, então fomos levá-lo para consultar um médico na cidade. No caminho com o sacolejo por causa da estrada, que mais parecia estarmos em uma Montanha Russa, a dor dele só piorava. Como ele não possui um plano de saúde, se acha muito sadio e que não precisa dessas coisas, fomos direto ao pronto socorro do Hospital de Caçapava.
Aí é que a coisa ficou feia. Para começar, a recepção era constituída apenas de uma pequena mesinha, uma cadeira, dois bancos para espera e um senhor para preencher uma ficha. Como não tinha muito movimento naquele momento, passamos logo para receber os primeiros atendimentos pelo enfermeiro. Quando entramos, lembrei-me de mais um cenário de guerra. Lembra daquele filme Peal Harbor? É, parecia o Pronto Socorro do filme só que sem todos aqueles soldados sangrando, só a parte da bagunça mesmo.
No corredor de entrada já se via diversas bacias e vasilhas pelo chão para aparar as goteiras que caíam, resultado de muita chuva. Só que tinha um detalhe, o Hospital tinha dois andares, então, ao que pareciam, as goteiras vinham do piso de cima, estranho, não? Mas tudo bem, após ser atendido pelo enfermeiro, passaram meu pai para uma sala onde havia umas quatro camas e mais bacias, para medicação na veia. Foi medicado e tomou soro por mais ou menos 2h e nada de nenhum médico aparecer.
Meu pai sentia sede, então pedi para uma enfermeira me conseguir um copo de água, ela me mostrou onde ficava a pia e disse que eu mesma podia buscar, quando chego próximo à pia vejo dentro dela em meio aos copos uma “bacia” com instrumentos de curativos aparentemente usados, uma total falta de higiene. Depois de algum tempo o médico apareceu, apalpou o paciente um pouco e disse que não era a apendicite como tínhamos desconfiado. Precisou vir alguém de um laboratório particular para coletar o sangue para o exame, depois de uma meia hora veio o resultado, apendicite, ele teria que “ir para faca”, como falam meus tios.
O pior era estar em um lugar onde tinha apenas um Hospital, com um único médico, uns três ou quatro enfermeiros, nenhum anestesista, em pleno feriadão de páscoa. Que ótimo momento pra esse problema aparecer. A falta de estrutura hospitalar naquela cidade é impressionante, nós voltamos para Caxias naquela mesma noite enquanto meu pai ainda estava sob efeito do medicamento. Mas quem é de lá, quando tem algum problema grave não tem nem como saber direito o que é, pois os recursos são mínimos. Para uma cirurgia, então, a pessoa tem que ser encaminhada para Cachoeira do Sul, que é a cidade mais próxima com recursos, mas segundo o próprio médico que nos atendeu, é uma burocracia enorme.
Será que não existem especialistas disponíveis para trabalhar nessas cidades do interior, porque com certeza Caçapava não é a única com graves problemas na saúde. Em nossa cidade enfrentamos muitos desafios ainda, principalmente no SUS, como as esperas tanto no pronto atendimento como para consultar com especialistas e fazer exames, e quando ocorrem essas greves. Mas, na maioria das vezes, quando precisamos de um atendimento de urgência como no caso de uma cirurgia, não precisamos viajar quilômetros para encontrar algum lugar que tenha as mínimas condições para nos atender. Depois deste feriadão, percebi que estamos com o queijo e a faca na mão, só falta encontrar alguém que saiba cortá-lo. Se é que me entendem.
