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A GREVE DOS MÉDICOS: A INTOLERÂNCIA E A FALTA DE DIÁLOGO NÃO É A SOLUÇÃO!

Enviado Segunda-feira, 30 de agosto de 2010 às 15:18:30 | Nenhum comentário »

             Estamos diante de um fato inusitado e de grande repercussão: a iminência de nova greve dos médicos do SUS em Caxias do Sul. Digo inusitado porque não se têm lembrança de quando a categoria médica teria entrado em greve pela última vez no município, que não seja nesta administração. Fato inquestionável é que o movimento demonstrou a insatisfação dos médicos que atendem nas Unidades Básicas de Saúde quanto às questões salariais e outros aspectos, reivindicações legítimas, diga-se.

            O questionamento deve ser quanto à forma intolerante que a administração municipal vem conduzindo esta questão relevante e a falta de diálogo com a classe médica para solução adequada do impasse. Estas estão bem caracterizadas pelo ingresso do Município com ação judicial junto à 2ª Vara Cível Especializada em Fazenda Pública, cuja decisão judicial determinou o retorno dos médicos ao trabalho, sob pena de multa diária ao Sindicato.

            Com a decisão do Tribunal de Justiça gaúcho que reconheceu a legalidade da greve dos médicos, ou o Senhor Prefeito conversa com a categoria e chega a um entendimento ou o impasse permanecerá e desta vez com muito mais força, com prejuízos a população pela intransigência da Administração Sartori. Por outro lado, a decisão de superior instância mostra ao Procurador Geral do Município que o caminho melhor é o diálogo e o entendimento, não a radicalização e o desrespeito a toda uma categoria que presta relevantes serviços à sociedade. Entretanto, ao que parece, a Administração Sartori dá claros sinais de que, mais uma vez, não pretende dialogar com a categoria médica.

            O que temos constatado é que o Senhor Prefeito Municipal – ou está sendo mal orientado politicamente- ou parece ter esquecido suas origens, de homem público de permanente diálogo com seus eleitores, desde o tempo da vereança, passando pela Assembléia Legislativa e Câmara Federal. Não é por nada que ele chegou até aqui, mas, sempre priorizou o diálogo.

            Ao não abrir o diálogo com o Sindicato Médico, ingressando com ação judicial para simplesmente terminar com a greve dos médicos, o senhor Prefeito Municipal esqueceu parte relevante de seu passado, deu um tiro no próprio pé – orientado pela soberba do Procurador Geral do Município – e assim, aprofunda a crise no setor e em nada contribui para a solução adequada do impasse.

            É imprescindível que o Senhor Prefeito Municipal retome suas origens, de homem público tolerante e de diálogo franco e permanente, e assuma efetivamente a questão, reabrindo o diálogo com o Sindicato Médico, e negociando uma proposta que atenda o interesse das partes, para resguardar o interesse maior de nossa população mais carente e que anseia por atendimento nos postos de saúde.

            Aliás, o Senhor Prefeito sequer se manifestou pessoalmente a respeito da greve dos médicos, postura que tem adotado sempre que assuntos relevantes e de impacto colocam em xeque o governo municipal, (o movimento dos servidores municipais é outro exemplo disso). Assim, está mais do que na hora do Senhor Prefeito sair do pedestal em que se encontra encastelado para dar uma satisfação à população mais carente, a qual clama por melhor atendimento também na área da saúde. Que a humildade, a tolerância e o diálogo permanente sejam retomados a bem do interesse público.

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FLORES II

Enviado Segunda-feira, 16 de agosto de 2010 às 09:56:20 | Nenhum comentário »
O texto abaixo consta como sendo o discurso que José Saramago, há pouco falecido, teria proferido ao receber o prêmio Nobel de Literatura. Na edição passada publicamos a primeira parte e hoje estamos concluindo a publicação.
            Recebi o texto de um bom amigo e colega de profissão, repassando o mesmo a todos vocês, com muito prazer, em duas edições.
            Muitos de vocês, meus amigos, viveram experiência semelhante em suas vidas, quer seja na infância ou na adolescência e, certamente, entenderão a profundidade do texto, de tempos que não voltam mais, mas, que jamais poderemos esquecer. O texto é publicado como no original. Ai vai:
 “Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerônimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia sempre andei descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa.
            Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente de uma grande tigela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ele sempre me tranqüilizava: “Não faças caso, em sonhos não já firmeza”.
            Pensava então que minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras.
            Foi só muitos anos depois, quando o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra coisa não poderia significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer”. Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada.
            Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprios filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerônimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver”.
A propósito, pequenas notas para retomar a cotidiano:
 
1.      Para reflexão: a respeito desse tema, trago exemplo ocorrido na escola de minha neta, cujo nome da instituição se omite por razões óbvias, mas, se trata de escola particular. Na data comemorativa à Tiradentes (21/04) e ao Descobrimento do Brasil (22/04), nenhuma professora e nem mesmo a escola fez qualquer menção às datas comemorativas.
 
2.      Para reflexão II: Além disso, chamou-me a atenção o fato de que no caderno de atividades da escola conste apenas a letra do Hino Nacional, esquecendo, talvez, o Hino Riograndense e o Hino de Caxias do Sul.
 
3.      Sobre as questões da BR 116, inadmissível que se justifique não realização de qualquer melhoria – seja de sinalização, semáforos e/ou passarelas, sob o argumento de que se trata de rodovia federal! Um absurdo! Os administradores públicos têm que fazer o que precisa ser feito à bem da sociedade! Ou vamos ter de tolerar mais uma vez o jogo de empurra-empurra?!

PRÁ NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FLORES I

Enviado Segunda-feira, 09 de agosto de 2010 às 09:47:10 | Nenhum comentário »

           O texto abaixo consta como sendo o discurso que José Saramago, há pouco falecido, teria proferido ao receber o prêmio Nobel de Literatura.

            Recebi o texto de um bom amigo e colega de profissão, repassando o mesmo a todos vocês, com muito prazer, em duas edições.

            Muitos de vocês, meus amigos, viveram experiência semelhante em suas vidas, quer seja na infância ou na adolescência e, certamente, entenderão a profundidade do texto, de tempos que não voltam mais, mas, que jamais poderemos esquecer. O texto é publicado como no original. Ai vai:

“O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. As quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam dessa escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo.

            Chamavam-se Jerônimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom caráter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável.

            Ajudei muitas vezes este meu avô Jerônimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que acionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algumas vezes, em noites quentes de verão, depois da ceia, meu avô me disse: “José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira”. Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de  sempre, era, para todas as pessoas da casa, a figueira.

            Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e, a saber, o que significava... No meio da paz noturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia.

            Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo em que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: E depois?”. Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas.

 

(continua na próxima edição)

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