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Anos atrás concorri num concurso literário com um texto intitulado “O Pai do Badanha”. Não consegui classificação e nenhum prêmio. Era uma produção ingênua de adolescente criticando uma suposta “elite” que deveria existir em muitos lugares do Planeta.
A família Badanha faz parte das lendas e mitos dos campos de cima da serra. Como a mula-sem-cabeça, o sanguanel ou o bicho-papão. Qualquer criança parava de chorar ou fazer “bagunça” quando ameaçado pelos adultos para ficarem quietos se não o pai ou a mãe do badanha apareceria...
Pois não é que nessa produção um pesquisador descobriu o reduto da figura fantasmagórica e o entrevistou. E aí, o jornalista chegou à conclusão de que o Badanha não era de todo mau, ele somente aparecia em caso de necessidade para corrigir comportamentos de crianças e... também de adultos... Uma das perguntas feitas: - “Seu Badanha, a elite caxiense é predadora, dominadora, excludente e que só pensa em dinheiro. Qual sua opinião a respeito?”. Resposta: - “A opinião é relativa. No entanto, entendo que essa elite comprometida com o Poder só começará a ter salvação quando elegerem uma negra para Rainha da Festa da Uva”.
Esta lembrança veio à baila porque recentemente aconteceu um fato lamentável com uma jovem negra que sofreu um ato racista por um idoso bem branco. A imprensa local repercutiu com alarde o fato. Para quem acompanha os deslizes de uma sociedade não muito interativa com a brasilidade cantada em prosa e verso não foi surpresa. Para muitos a miscigenação no Brasil é uma brincadeira acadêmica de alguns intelectuais e que a utopia de que “todos nós somos irmãos” e da mesma espécime é um delírio.
Temos um histórico tenebroso, principalmente em campos de futebol e na seleção para os melhores empregos e salários. E não é privilégio de Caxias do Sul. É um mapa de preconceitos e discriminações bem amplo onde não escapa sexo, idade, nível de renda ou religião. Assim, na época, minha simbólica intenção mesmo era “chutar” o traseiro dos racistas, xenófobos e até mesmo os provincianos de plantão. Ou bater o sino (Bell) da consciência dos que trabalham pela igualdade e fraternidade...
E numa lista enorme de erros e equívocos gosto de citar aquilo que está presente em minha pesquisa sobre a Genealogia de nossa gente. É raro encontrar estudantes ou professores dispostos - e com apoio e tempo disponível - a produzir trabalhos de valor científico ou simples levantamentos que ajudem a valorizar os excluídos do sistema imposto. Aqui ainda não foi feito um levantamento das famílias “não italianas” que chegaram à mesma época dos imigrantes. Pouco se sabe dos negros, mulatos, pardos, mestiços e pelo-duros que contribuíram para a construção da cidade e do município. Prefeitos, Vereadores, Artistas, Agricultores, Operários, Militares, Tropeiros, Professores e tantas outras profissões abraçadas e dignas, preenchidas por pessoas “não brancas” (por favor, passem essas palavras para o feminino).
Lembro das cidades fundadas por negros, descendentes de escravos, como Santo Antônio da Patrulha, dos quilombos que deixaram vestígios culturais em toda a região serrana e até Fazendas onde eram proprietários. A escravidão é o tema predileto de muitos. Eu gosto de falar do Badanha que aponta outros caminhos e outras ações surpreendentes como a História de criaturas que só esperam mais Justiça e consideração. A Festa da Uva vai além da comemoração para homenagear apenas imigrantes. Ela é o símbolo do trabalho no qual muitas pessoas participam do processo. Não é exclusividade de brancos ou de imigrantes. Além do mais, Joaquim Pedro Lisboa, um dos idealizadores do evento era bem brasileiro, com ascendência açoriana. Espera-se que a profecia do Badanha se concretize, sem tirar o mérito dos italianos e seus descendentes, brasileiros por opção.
Quando era criança conhecia a figura do “guarda-noturno”, uniformizado e com um apito de prontidão. Era um esquema simplório de segurança pública privada e que às vezes funcionava, principalmente na zona central. Posteriormente, apareceu a figura do “vigilante” que andava em moto e também com um apito. Pagava-se uma mensalidade para ele passar duas ou três vezes pela rua altas horas da noite. Imaginava-se que com isto os ladrões não tomariam coragem para visitar as moradas dos cidadãos que pagavam impostos. E a polícia civil e militar sempre existiu para garantir segurança...
Com o tempo, as pessoas começaram a erguer muros (estou falando quem morava em casas e não em apartamentos) e logo-logo cacos de vidro colocado sobre eles. Não bastou. Vieram as cercas elétricas, os cachorrões e até mesmo armadilhas contra visitantes indesejáveis. As trancas também sempre existiram, mas com o tempo foram ganhando reforços na casa toda, com aço de boa qualidade. Uns deixavam uma luz acesa num cômodo qualquer, quando saiam de casa e avisavam os vizinhos nas viagens de mais de um dia. Também se contratava um guri ou um velho conhecido para pousar na casa durante o período de férias. A lista é grande e isto aqui não é relatório e sim uma pequena revisão histórica das alternativas de proteção.
A tranquilidade, o sono reconfortante sem grandes alaridos ou sustos (barulhos estranhos no porão ou na “área”) e o desejo de uma vida sossegada já é coisa do passado. A vida em cidades como Caxias do Sul, para muitos, é um estresse aonde o pavor a criminalidade vem crescendo numa progressão geométrica. Artifícios modernos e com alta tecnologia estão sendo usados para proteção da própria vida e do patrimônio. Para ter um mínimo de segurança (100% não existe) deve-se gastar numa estrutura que abala qualquer orçamento doméstico. Dependendo do bolso (ou renda familiar) algum dinheiro é gasto. Tudo começa com as cercas e grades com boa bitola, fortes e inquebráveis. Se as grades “são finas” o preço é baixo e, em compensação, fácil de serem arrebentadas. Então, a pessoa escolhe um bom serralheiro e vamos lá gastar 3 ou 4 mil reais, incluindo o portão eletrônico. Não é suficiente.
Para se ter uma idéia deste item - que não consta na metodologia de apuração do índice de custo-de-vida existente nos Institutos oficiais de pesquisa de preços – uma cerca elétrica de 20m com 4 fios e haste de ferro, incluindo mão de obra, custa de 800 a 1200 reais. Quem é obrigado a instalar algo mais sofisticado tem que recorrer a empresas de Monitoramento de Alarmes 24 Horas e deve analisar orçamentos que incluem: a) central MTA980, com preços que variam de 400 a 550 reais; b) bateria 12v, de 60 a 80 reais; c) placa de laço, de 120 a 140,00; d) sirenes, de 20 a 30,00 cada; terminal de programação, de 100 a 150,00; e) sensor infravermelho, no mínimo 7, custando cada um de 60 a 75 reais; f) 200 metros de cabo, de 1,15 a 2,00 ao metro. Esta relação é apenas para ilustrar. Geralmente, o custo de um sistema desta natureza tecnológica gera um gasto de R$1.800,00 a R$2.200,00, no mínimo! Ainda existe a possibilidade de a empresa contratante disponibilizar mais três rondas mensais que terão um custo unitário de 30 pila... Lógico que existe mais a mensalidade: de 80 a R$200,00.
Não falei de custos de iluminação com fotocélula ou câmeras dos mais diversos tipos, tudo girando entre 800 e 7.000 reais, dependendo do freguês. E o “top” de linha é a implantação de chips com GPS, em veículos, cofres, cães e até aparelhos eletro-eletrônicos. Sem falar no implante de chips sob a pele para que, em caso de sequestro, a pessoa seja localizada rapidamente. Esse último sistema custa entre 10 a 80 mil reais, também dependendo da situação. Aliás, o leitor deverá se preocupar se a mulher já não adota o esquema no automóvel, na lapela do casaco, no celular, tudo para ver onde você está, independentemente se a privacidade ainda é algo que garanta seu sossego...
Desde o governo FHC, passando pelo LIS, a Economia brasileira, em termos quantitativos tem apresentado uma estatística positiva. O controle da inflação num determinado momento, os superávits primários, balanço de pagamentos sem grandes sustos, uma reserva monumental e a valorização do Real incluíram o País num cenário favorável a nível internacional. ]Tanto é verdade que em termos de PIB pulamos da oitava para a sétima economia do planeta. Com alguns avanços na área social, principalmente diminuindo o percentual de pessoas abaixo da linha pobreza (!?). Conseguimos pleitear uma cadeira na “seção” de segurança da ONU. E já estamos conseguindo ajudar o Haiti e emprestar dinheiro, ou perdoar dívidas a mais de uma dezena de países.
No entanto, historicamente, sabemos que todos os governos gostam de dourar a pílula. Ou seja, a propaganda, o marketing e a lábia dos políticos conseguem convencer muita gente que tudo está andando de acordo com o previsto e o futuro é promissor.
As obras e os projetos são destaque, nem que seja a inauguração de uma estrada não concluída ou a abertura de um poço de petróleo que ainda nem foi parar nas refinarias... O lado ruim não é mostrado. Aliás, se alguém souber de que algum governo destaque as falácias de uma estrutura de transporte, por exemplo, me avise. Até mesmo os níveis de ensino no Brasil são mostrados, oficialmente, como se tudo estivesse caminhando para sermos uma potência tecnológica e científica. A hipocrisia é a alma do negócio das elites poderosas. Dizem sorrindo que “pulamos” da 69ª posição no ranking mundial em ensino/educação para 62ª! As Universidades foram surgindo sem controle de qualidade e um exército de alunos é diplomado sem saber quase nada do que estava programado em sua grade curricular. São jogados num mercado de trabalho e numa roleta lotérica que premiam poucos. Nossa cultura que promove a má gerência na área e ao sentido de que não precisamos estudar nem pesquisar é uma barreira quase intransponível.
Quem usa um pouco do cérebro, desintoxicando todas as variáveis que incluem a propaganda dos governos e os números da chamada “Economia de Gabinete”, muitos indicadores apontam para outro plano.
Vejam as últimas matérias (boas) apresentadas pela RBS ou pelo JN sobre o transporte público das médias e grandes cidades. Simplesmente é o caos total. Milhões de pessoas que trabalham 7h40min por dia, gastam em média 120min (ida-e-volta) com ônibus, trem ou metrô. Tudo exprimido, desconforto e linhas com horário descontrolado e não confiável. Estradas onde circula a produção agrícola, sem manutenção e toda esburacada. O sistema de saúde, então, nem se fala. Todos os dias a TV apresenta (e tem grande audiência nos canais alternativos) os corredores de postos de saúde e hospitais superlotados, num sistema de tortura psicológica e desumana.
Outro IBOPE turbinado são as seções diárias da violência urbana, com crimes de todos os feitios: estupros, furtos, roubos, caixas eletrônicos explodidos, carros-forte atingidos por mísseis, brigas em escolas, “pegas” nas madrugadas, gangues com arrastões em condomínios ou praias, disputas pelos pontos de tráfico de drogas, crianças se prostituindo, clonagens de cartões, roubo de carros que vão parar no Paraguai e policiais corruptos. Enfim, tudo isto respinga numa estrutura e numa ordem jurídica digna de livros de ficção e não de uma realidade crua e cruel. Não vou me estender nesta lista, mas o leitor já deve ter feito a sua, inúmeras vezes...
Afinal, até mesmo nós caxienses não nos damos conta de que Caxias segue a História das grandes cidades. Tudo que aconteceu de ruim nas metrópoles de vários Estados está acontecendo aqui. É seguir o mau exemplo sem nenhum remorso. É o provincianismo de entender que aqui é diferente e exclusivo. E para terminar um dado que envolve milhões: as empresas de segurança privada que crescem a cada dia. Aqui, são mais de 80. E apenas 10% delas são legais! É ou não é uma outra visão da Economia? Ou todos acreditam que tudo vai indo bem, a mil maravilhas? A Economia não envolve apenas os indicadores oficiais ou manipulados pelo sistema financeiro. É muito mais. Lembremos da ciência contábil: ativo e passivo; lucros e perdas, débito e crédito...
A interpretação ou conceitos do que seria um “laudo técnico” depende muito do nível de conhecimento e graduação de quem elabora estudos sobre um determinado tema. Um laudo pericial, por exemplo, que indique graus de insalubridade, exige profissional com experiência e diploma correspondente a área específica do levantamento com metodologia atualizada. Um laudo pode complementar um ou mais laudos, pois até mesmo na área judicial existem contrapontos e discussões caudatárias e contraditórias para definições mais exatas.
No caso do tão badalado “laudo técnico” para definir a localização do novo aeroporto regional surge algumas dúvidas estarrecedoras! Aparentemente, “ninguém” ousa contestar dito documento porque existe todo um aparato de pressão política e econômica para favorecer Caxias do Sul.
Em primeiro lugar, o acesso ao “laudo” é proibido e, portanto, um levantamento sem transparência. O que se sabe é que ele indica algumas análises sobre a localização geográfica e composição climática da região mais favorável para pousos e decolagens de aeronaves de grande porte. Ao que parece o que anda por aí não pode ser considerado Laudo Técnico definitivo para consolidar uma decisão. - Por quê?
Para a construção de uma grande obra é necessário o cumprimento de rituais legais e éticos. Como a segunda preliminar esbarra numa estrutura política corrompida, imperialista, burocrática e desligada dos fatores de harmonia democrática e social, a primeira é detonada por outra estrutura inoperante, casuística e que privilegia os grupos de melhor posição na esfera do Poder. E os estudos de custo-benefício (sócio-econômico?) nem cogitados são.
Algumas variáveis que são necessárias e indispensáveis para aceitar a lisura de um “Laudo Técnico” surgiram há pouco tempo e vêm transtornando os falsos empreendedores: os impactos ambientais e culturais! Nesta esteira de discussões e reflexões surge o papel dos que estão adaptados as novas linhas de pensamento moderno, concepções sobre o conhecimento científico. Parece que, neste ponto, os que defendem a construção em Vila Oliva, principalmente, ainda vivem na década de 1940/1950 quando o projeto de progresso a qualquer custo era uma milonga onde poucos sabiam dançar. Era o ciclo da depredação em favor da industrialização e do crescimento das cidades sem planejamento.
É inacreditável. Cheguei à conclusão de que o pessoal que lidera a briga dos bastidores pelo melhor local é formado por um grupo que nunca freqüentou universidades de razoável nível. Lembro da minha época, ainda na década de 1980/1990 que a maioria dos colegas das áreas de Economia, Administração de Empresas e Engenharia levavam no bolso (hoje no notebook) anotações sobre o crescimento sustentável sem grandes agressões ao meio ambiente. A noção de impactos culturais veio com o início do milênio onde o respeito a determinadas características regionais devem ser observadas. A histórica batalha ideológica (e de sobrevivência) entre o meio rural e os burgos citadinos (urbanos) são minimizados por projeções de longo prazo. A influência de grandes obras (hidroelétricas, represas, mega-indústrias, aeroportos, portos, lixões e usinas nucleares) no meio ambiente e nos nichos culturais representados também em pequenos lugarejos, poderá conter efeitos negativos que no futuro não serão consertados.
Por esta razão, é estranhável que os mentores de tais empreendimentos não ouçam e nem querem saber do discurso e das preocupações dos técnicos de alto nível que defendem projetos qualificados e de participação dos diversos setores da sociedade. Quais as razões para que o chamado “laudo técnico” não contemple os impactos negativos e quais as soluções para minimizá-los caso a obra seja realmente autorizada a funcionar?
Outros lances (aqui não expostos) surgem com o novo governo da Presidenta Dilma. Em seu projeto consta a privatização dos novos aeroportos e o foco principal ao transporte aéreo disponível para a Copa e Olimpíadas a serem realizadas em nosso País. Assim, as verbas necessárias para programar um mínimo de soluções ao gargalo dos transportes (em todas as áreas) pode modificar a posição dos governadores. Ou seja, o assunto deverá necessariamente passar pelo crivo da nossa mandatária máxima e sua base política aliada sem nenhuma contradição na sua atuação macro (de conjunto).
O mínimo que se espera de uma sociedade dita moderna é conduzir com muito cuidado o planejamento estratégico e logístico na construção de novas fábricas ou aeroportos. Ainda mais quando existem pessoas disponíveis e ativistas para combater os irresponsáveis que desprezam muitas variáveis que deveriam ser premiadas nos “laudos técnicos”.
