Anos atrás publiquei uma poesia que abrigava a seguinte frase: “abaixo a ditadura do destino, antes que aumente o preço da felicidade...”. Significava que era necessário o quanto antes derrubar o governo militar, pois à medida que o tempo passava mais difícil ficaria restaurar a democracia. E isto implicava um novo ordenamento jurídico, econômico e social.
E a simbologia utilizada é apropriada: estamos diante de uma calamidade na área da saúde. É uma ditadura que impõe métodos de gestão viciados pela burocracia e estruturas deficientes em termos de atendimento à população. Quanto mais adiarmos as soluções possíveis, menos chances de conseguirmos no médio e longo prazo um sistema sustentável que proporcione índices de boa qualidade.
A falta de transparência e de profundidade nas discussões sobre o tema afeta a análise de toda a matriz econômica. Poucas pessoas têm noção do custo de funcionamento.
Faltam hospitais em muitas cidades brasileiras. Quanto custa uma obra dessas? Hoje, um hospital com 100 leitos, montado e em condições de funcionar não custa por menos de 45 milhões de dólares. O valor de custo para montar e equipar um leito de UTI (sem a área física construída) fica entre U$25.000,00 (materiais nacionais) a U$45.000 (materiais importados). Se no Rio Grande existe a necessidade de construir, já, mais 50 hospitais, o total seria U$2.250.000,00! Ou, se aqui em Caxias do Sul, necessitamos urgentemente mais 20 leitos de UTIs (para criança é mais caro), há necessidade de pelo menos U$700.000,00, em média. Isto se considerando um investimento privado. Se for oficial, teremos que dobrar estas cifras e o leitor sabe o porque...
Muita gente já teve algum amigo ou familiar dependendo deste sistema. E um procedimento muito conhecido nos dias de hoje é a instalação de um marca-passo. Quanto custa isto? Numa operação destas, um paciente ficando onze dias internado, incluindo a peça instalada no corpo, custa para um Hospital cerca de R$23.000,00! Cada elemento ou componente que faz parte desta engenharia-médica tem um preço: reservatório de cardiplegia (R$1.800,00), conjunto de tubos (R$170,00), sistema de drenagem mediastina (R$202,00), cânula venosa (R$285,00), conjunto de circulação (R$694,00), cateter ventricular (R$360,00), dreno de sucção (R$70,00), punch aórtico longo redondo (R$360,00), ligaclip mca automático (R$2.520,00), kit cânula arterial (R$6.800,00). Estou citando preço de custo e varia muito dependendo da região e da empresa que chamamos “Plano de saúde” ou até mesmo do SUS. Ou seja, este exemplo é só para exemplificar o universo amplo que envolve preços que, às vezes, não conhecemos.
Uma prótese no joelho ou no quadril pode variar de 1.800,00 a 40.000,00 mil reais, dependendo do material. Existem medicamentos para combater certos tipos de hepatite que podem custar R$800,00 a dose. As seções de quimioterapia (básica), custa em torno de R$2.700,00 a seção! E os medicamentos contra o câncer pode ter um preço de R$8.000,00 a ampola que deve ser aplicada a cada 20 dias...
Outra comparação que pode ser feita (e não defendo ninguém, é só constatação técnica) é a seguinte: se uma pessoa vai para o hospital e faz uma cirurgia que custa R$22.000,00 e paga para o seu Plano ou Previdência, R$200,00 por mês, quantos meses teriam que contribuir para pagar ou custear este infortúnio? 55 meses! Se a operação for mais complicada e custar R$100.000,00? (claro que a maioria é paga pelo plano).
Existem políticos que numa eleição visitam 300 cidades e em cada uma delas prometem que em seu governo tudo vai mudar e lá serão instalados postos de saúde, unidades sanitárias, hospitais, mais leitos de UTI, melhoramento de programas, mais médicos e funcionários qualificados, etc. Somadas todas as promessas, em 4 anos, teriam que disponibilizar um montante que só existirá em dez anos! E muitos candidatos não sabem o preço de um melhoral, muito menos de um tazocin ou sevorane.
Caxias do Sul é uma cidade bem brasileira. Reúne as características principais de brasilidade. Sua matriz étnica corresponde ao retrato encontrado de Sul a Norte: uma miscigenação baseada no indígena, no branco e no negro.
A mestiçagem é um produto de 500 anos de múltiplas relações familiares onde se encontram outras denominações, como os mamelucos, cafusos, pardos e “gente da terra”. Os brancos europeus encontraram-se maravilhosamente com este povo. Portugueses, Açorianos, Espanhóis, Alemães, Franceses, Italianos, Poloneses, entre outros, participam deste processo inexorável de casamentos inter-étnicos. E a nossa cidade, desde o seu início, também revela estes traços. A imigração italiana marca registrada de uma região inteira, deixou um legado de trabalho e progresso inegável. Todavia, em sua construção, houve a participação dos “não italianos” que poderão ser chamados de coadjuvantes ou co-fundadores.
A denominação de “fundadores” varia de região para região. Em alguns lugares, os homenageados são os primeiros proprietários, ou os que ajudaram a construir a primeira capela ou pelourinho. Também se considera a instalação da primeira Câmara de Vereadores ou a data da emancipação política. Tudo depende da cultura local ou do poder instituído por elites que dominam e estabelecem regras e normas que vão se acumulando ou perpetuando com o tempo.
Existe, às vezes, uma idéia imperialista de manter uma História dos conquistadores onde são excluídos alguns personagens que “não interessam” ao marketing ou ao desejo de dominação (ou sobrevivência de ‘status quo’ hegemônico). Como já estamos “crescidinhos” e num regime que tenta ser democrático, começa a ganhar espaços idéias que já estavam se perdendo. O surgimento de várias universidades e um aumento da produção acadêmica, vestígios culturais diferentes daquela relacionada à imigração surpreendem os conservadores. A chamada periferia caxiense é muito grande para se esconder em baixo do tapete. E movimentos sociais, outrora abafados, surgem contribuindo para uma análise mais madura sobre nossa gente.
Numa rápida relação nominal, descobre-se que entre os primeiros administradores, intendentes ou vereadores estão pessoas que pertencem ao grupo dos mestiços e pelo - duros. Entre eles, estão presentes José Domingos de Almeida, Alorino Machado de Lucena, Antônio Xavier da Luz, José Cândido de Campos Júnior (negro e maçom) Alfredo Soares de Abreu, Firmino Paim de Souza, Serafim Terra, José Pena de Moraes, Tancredo Áppio Feijó, Major José Baptista, Major Adauto Cruz, Thomas Beltrão de Queiroz e Eduardo Caravantes.
Antes do ano de 1910, destacam-se outros personagens que participaram ativamente na construção desta cidade, em diversos cargos públicos, alguns deles, merecidamente, com nome de ruas: Ana Lisboa Saldanha, Antonieta Lisboa de Figueiredo Saldanha, José Saturnino dos Passos (tropeiro que ajudou os imigrantes a subirem a serra), Antônio Machado de Souza (descobridor do Campo dos Bugres), Jerônimo Ferreira Porto, Anna Ferreira Porto, Etelvina de Castro (esposa de João Spadari Adami), Clodomiro Paredes, Bento de Lavra Pinto, Honorina Leite, Antônia Maria de Oliveira, Rosa Leopoldina de Almeida, Amélia Nunes de Oliveira, Emília da Silva Bandeira, Prudência de Oliveira Machado, Marieta de Azambuja Cidade, Oliveiros Sambaquy, Antônio José Ribeiro Mendes (português), João Antônio Alves, Coriolano Coelho de Souza, João Guerreiro, José Bernardino dos Santos e Apolinário Alves dos Santos. A maioria deles deixou descendentes que ainda vivem na cidade.
Logicamente que esta lista é muito maior e envolve também operários, tropeiros, carreteiros, militares, empresários, artistas, escritores, sindicalistas, professoras, jornalistas, médicos e tantas outras profissões ou atividades. Todos eles revelando sobrenomes bem portugueses, como não poderia deixar de ser. Entre os primeiros proprietários de lotes urbanos cerca de 20% não eram italianos ou seus descendentes. Portanto, muita gente trabalhou por Caxias e não podemos esquecê-los, sob pena de cometermos uma injustiça histórica que pode alimentar discriminações e preconceitos inadmissíveis em nossa sociedade.