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AS DIVISAS DE CAXIAS

Enviado Segunda-feira, 27 de junho de 2011 às 14:57:59 | Nenhum comentário »

Para quem me conhece há mais tempo, sabe que sempre procurei participar na vida comunitária caxiense nas áreas da Literatura, Economia e Historia Regional. Alguns combates na área judiciária na época do CESEC e do CONDECON (embrião do PROCON) forneceram algumas experiências de cunho ético, legal e científico. Isto desde o final da década de 1970.

            E apesar de não ter mandato ou cargo político “cutuquei” órgãos públicos para cumprirem sua missão junto à população. Em 2000, por exemplo, enviei ofícios ao Prefeito Municipal, à Universidade de Caxias e à Câmara de Vereadores solicitando atenção para a necessidade de equacionar problemas relacionados às divisas municipais, principalmente com o vizinho São Francisco de Paula. Seu Distrito, o Juá, teve limites com quatro distritos caxienses: Criúva, Vila Oliva, Vila Seca e Fazenda Souza. 

            Não houve repercussão e a sugestão não teve andamento. Tinha como objetivo evitar conflitos que poderiam surgir notadamente porque a História dos “não italianos” era desprestigiada. E todo o povoamento dos campos de cima da serra por 250 anos foram feitos também com grandes conflitos e os arquivos judiciais de Vacaria, São Francisco de Paula e Santo Antônio guardam litígios diversos. Questões familiares por heranças dividiam sesmarias e posteriormente fazendas. Mas sempre se respeitava as divisas antigas dessas terras quando se tratava da delimitação de municípios. E antigamente as leis eram feitas baseadas na tradição, geografia, história e em mapas bem feitos, apesar de não existir informática e digitalização.

Agora, assistimos, infelizmente, uma discussão em torno dessas fronteiras onde a preferência é passar um trator em cima das leis e da história. Está na hora de quem recebeu votos da população pensar no assunto. E para ilustrar, copio a Lei nº 2532, de 15/12/1954, assinada pelo Governador Ernesto Dornelles, quando da passagem de Vila Oliva para Caxias, assunto já abordado por mim em pelo menos quatro livros: “... Faço saber, em cumprimento ao disposto nos artigos 37, inciso II, e 88, inciso I, da Constituição do Estado, que a Assembléia Legislativa decretou e eu sanciono e promulgo a lei seguinte: Art. 1º - É desanexado do Município de São Francisco de Paula e incorporado ao Município de Caxias do Sul o distrito de Vila Oliva, com as seguintes divisas: ao Norte, com as divisas do Município de Caxias do Sul, iniciando-se na confluência do Arroio São Nicolau com o Piai, subindo pelo leito deste até suas nascentes, donde segue por uma divisa seca de aproximadamente 800 metros, em direção ao quadrante deste, onde encontra as nascentes do Arroio Cavalhada; a Leste, com o próprio município de São Francisco de Paula, começando nas nascentes do Arroio Cavalhada, seguindo o curso deste até sua desembocadura no Arroio do Juá e descendo o curso deste até sua desembocadura no Rio Santa Cruz ou Caí; ao Sul, com as divisas do Município de Canela e Taquara, pelo Rio Santa Cruz ou Caí, descendo seu leito; ao Oeste com as divisas do Município de Caxias do Sul, iniciando-se pela desembocadura do Arroio das Marrecas, no Rio Santa Cruz ou Caí, subindo o leito daquele até suas nascentes, seguindo ainda por uma divisa seca de aproximadamente 600 metros, até encontrar as nascentes do Arroio São Nicolau, continuando pelo leito deste até sua confluência com o Rio Piai. Art. 2ª – Revogadas as disposições em contrário, esta Lei entrará em vigor a 1º de janeiro de 1955”.

            Para se evitar problemas futuros, como acontece com a real localização do Presídio do Apanhador e que poderá afetar o conhecimento da região de Vila Oliva, seria de bom alvitre instalar uma comissão especial para estudar a questão das divisas municipais, pois muita gente tem dúvidas sobre elas e, principalmente, para quem devem pagar impostos. Também é bom lembrar que naquele distante ano de 1954 já se mapeava essa fronteira como de interesse ambiental e cultural... por Lei.

 

 

 

 

           

 

 

A PONTE DO RAPOSO

Enviado Segunda-feira, 20 de junho de 2011 às 11:35:19 | Nenhum comentário »

Um marco histórico da região que é pouco conhecido é a Ponte do Raposo, na divisa de Caxias com Gramado. Ela fica sob um passo histórico de tropeiros que vinham da região de Santo Antônio da Patrulha e Taquara, passando pela região das hortênsias e posteriormente onde fica hoje o Distrito de Vila Oliva. Parte deles seguia viagem até outra ponte, a do Kroeff, na Criúva.

            Aquela região de campos dividia o ambiente com as grotas do Rio Santa Cruz e Caí onde foi habitada pelos índios Caaguas e Ibianguaras muito antes dos primeiros povoadores birivas ou alemães e italianos, na sequência.

            Em 1912, o Major José Nicoletti Filho, na época Sub Intendente do 5º Distrito da Linha Nova Italiana lançou a idéia de construção de uma ponte no lugar denominado Rapozo. Aquele trecho fora construído a casco de mulas e que com o tempo foi alargado para a passagem de carretas e depois de 1930 pelos caminhões carregados de toras de araucárias que fizeram a riqueza do setor madeireiro.

            Essa ponte foi feita toda em aço Krupp, vindo totalmente desmontada da Alemanha chegando a Gramado pela via férrea e depois pelas carroças. Deve ter sido um trabalho digno de novela, pois o aparato e peso eram imensos. De acordo com a Historiadora e amiga Marília Daros (www.arquivohugodaros.org.br) a obra seria construída sobre dois encontros num vão de 40 metros, largura entre os montantes de 5,50m e com um peso aproximado de 80.000 kg! Poderia receber caminhões de carga até 16 toneladas de peso e mais uma carga uniformemente distribuída de 450 kg por m². Foi um dos primeiros pedágios da região. Com uma concessão de 30 anos os valores das passagens variavam: 3$ por carreta de 4 rodas carregadas e 1$5 vazia; 2$, por carreta de duas rodas; 1$5, automóvel; caminhão 2$; cavalo 300; gado 200 e pedestre 100. A inauguração oficial foi somente em 25 de setembro de 1936, com um custo total de 40:000$000 e ficou gravada com o nome do Major José Nicoletti. Acabando os pinheirais a economia do local foi diminuindo e a ponte praticamente ignorada com seus caminhos tortuosos a beira dos peraus.

            Esse repique histórico vai de encontro a outras idéias que a partir de 2002 giraram pelas administrações da região de Gramado e Canela. O novo projeto seria a construção de uma hidroelétrica no local ou bem próxima a ponte. Muitas discussões foram feitas e inclusive criando-se um Comitê especial para estudo e acompanhamento de uma obra almejada por aquela população. Sempre houve discordância para a construção de obras do gênero naquela local. Um dos motivos é que a área estudada para abrigar barragens é uma das mais preservadas em termos florestais, de toda a bacia do Caí. A Bacia está enquadrada no conceito de “restrição do uso” para novos barramentos. E outra novela está passando no canal das discussões eternas, sem prazo para terminar...

            Por ali deve passar uma estrada para ligar a região das hortênsias até o almejado aeroporto. De Vila Oliva até a Ponte do Raposo são aproximadamente 15 km. De Gramado, do Mato Queimado, até a ponte, mais 10 km. Também ali assistiremos um dano ambiental bem grande, pois atingirá algumas reservas de mata atlântica além da descaracterização de um traçado colonial que hoje seria mais turístico do que comercial. O custo de uma nova ponte e toda engenharia para praticamente reconstruir uma estrada deve ser bem avaliado. Incluindo desapropriações a beira da estrada que atingirão residências e plantações de inúmeras famílias. A velha ponte do Raposo, desconsiderada pelos nossos órgãos que cuidam do patrimônio histórico também está fadada a desaparecer sem nenhuma pena ou culpa na consciência?

 

CAXIAS ANIVERSARIANTE

Enviado Segunda-feira, 06 de junho de 2011 às 11:28:00 | Nenhum comentário »

Ela começou como Campo dos Bugres, nome dado pelo seu descobridor Antônio Machado de Souza, Tropeiro montenegrino, neto de açorianos e com sangue do Cacique Tibiriçá.

            Com o tempo seu nome foi mudando ao prazer dos que engendravam uma idéia de cidade progressista. Os primeiros moradores em sua grande maioria vieram de uma Itália que ainda não era o País que hoje conhecemos na geografia política dos mapas e das conexões modernas de interação com o resto do Planeta. Os primeiros Intendentes (Prefeitos da época) ou eram mestiços ou eram negros. Com sua autoridade pensaram nas primeiras necessidades dos moradores que incluía cerca de 20% de “não italianos” (contando-se o final do século XIX). Era um caldo cultural que iniciava um processo cosmopolita e bem brasileiro, cheio de contradições e, ao mesmo tempo, com esperança no futuro.

            Os pesadelos sempre surgem quando menos se espera. Já pensaram os queridos leitores se os imigrantes fossem proibidos de falar seu idioma, cantar suas façanhas e cultuar suas tradições de além-mar? O processo civilizatório conta uma História debulhada em fases de felicidade e outras de tristeza. Muitos povos da antiguidade foram arrasados por exércitos invasores que além de aniquilar pessoas inocentes procuravam dilacerar qualquer resquício de sua cultura. Era o império dos poderosos imperadores e tiranos. A imposição de uma nova ordem determinava a extinção do idioma, das crenças e até mesmo de inocentes danças e cantares. Durante a segunda grande guerra, Hitler procurou acabar com o povo judeu e atacando despreparados poloneses tentou aniquilar todo conhecimento e vestígios de liberdade, e por sua vontade, mudar drasticamente o modo de vida daquela gente, não esquecendo da revolução russa. E aqui italianos e alemães tinham medo e podiam ser perseguidos. Os Talibãs, mais recentemente, em nome da fé e da religião, destruíram templos antigos - patrimônio da humanidade- no Afeganistão.

            Com o tempo aqui chegaram caravanas de vários lugares e muitos não têm nada a ver com o passado e nem sabem da equação maravilhosa que combinou culturas e idéias. A nossa História também é cheia de detalhes não muito atraentes como o tempo da escravidão e o aniquilamento de nações inteiras de povos indígenas. Muitas peças do quebra-cabeça da existência humana foram destruídas, enterradas, intencionalmente, criminosamente, ou não.

            Lembro disto, porque juntamente com muitos professores que conheci, pensávamos numa Caxias desenvolvida, cheia de edifícios, fábricas em profusão e também ligada à preservação do meio ambiente e do patrimônio cultural. No entanto, em nosso inventário imaterial muita coisa não está relacionada. Perdemos muitos prédios centenários, o mercado imobiliário arrasou nossas araucárias e fontes de água e finalmente mal planejamos urbanisticamente o contorno do centro da cidade. Ignoramos por muitos anos o interior, parte do Município. As múltiplas relações familiares unindo etnias de várias origens geográficas não foram destacadas e o padrão homogêneo de uma poderosa elite ditou normas até mesmo no nível educacional.

            Agora, estamos prestes a aniquilar os últimos resquícios dos bugres na construção do novo aeroporto. Ou seja, aqui na cidade de pedra, jogamos toneladas de cimento e paralelepípedos em suas tocas, casas subterrâneas, cemitérios e outros vestígios culturais. Rumo ao progresso a qualquer custo, retomamos o projeto de acabar tudo de vez, como acontecerá com o acervo arqueológico que mal sobrevive na região dos distritos serranos. Nunca houve preocupação em preservação, divulgação e valorização de algo que é um patrimônio da história do Brasil e da Humanidade inteira. Os próximos aniversários de Caxias do Sul trarão a lembrança de um mau trato com a História e nossa Mãe Natureza.

 

 

           

           

           

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