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Os cientistas sociais estão divididos na análise do fenômeno relacionado à “Revolução Farroupilha”. Esta é a constatação mais clara a partir do que se ouve, vê ou lê nos veículos de comunicação. Além do mais, existe uma distância muito grande entre as interpretações (verdades?) do povo com as dos acadêmicos. Principalmente porque muitas famílias de hoje, descendem daquelas que viveram intensamente o horror das batalhas e das disputas contra os que desejavam manter a monarquia.
O certo é que, independentemente das idéias ou conceitos manipulados, o ‘20 de Setembro’ foi incorporado de vez ao Patrimônio histórico-cultural dos gaúchos. E o movimento tradicionalista que adotou com mais ênfase este episódio ocorrido há 175 anos, recebe todo um aparato de prós e contras às comemorações efusivas. Se existe um debate é porque um grupo está tentando abrir (conquistar?) mais espaço no campo social ou, o outro, está preocupado com a ascensão de movimentos populares, principalmente da periferia das cidades aliada ao povo do meio rural. Não é mais possível esconder em baixo do tapete tanta gente envolvida nesta história.
De tantas visões, a que mais chama atenção é “adivinhar” o que teria acontecido se os revoltosos tivessem vencido. Buscar respostas para alinhavar o que vai acontecer no futuro é uma mágica que raras pessoas no mundo devem conhecer. Agora, reverter os fatos acontecidos em possibilidades teóricas é jogar a vida no calabouço do destino. A imaginação ainda é a única máquina do tempo disponível, e se respeita as individualidades. E esta concessão é dada, principalmente, aos que têm dotes artísticos e aos médiuns. Na área científica, ficam apenas hipóteses sem confirmações e de difícil influência na análise do processo social. Ou seja, a ficção é a matéria-prima das incertezas e também da indústria midiática que tenta influenciar opiniões, apenas.
Existem vozes declarando que o Rio Grande poderia “virar” um Uruguai ou um Paraguai já que não existiria uma estrutura econômica suficiente para garantir a soberania no caso de separatismo. Aproveitando esta “corrente analítica” poderia eu dizer, modestamente, de que outras possibilidades poderiam ser pontuadas. Por ex: caso houvesse vitória e o império admitido concessões, poderíamos conceber a primeira república latino-americana, 54 anos antes da Proclamação de Deodoro da Fonseca. E o processo abolicionista correria mais rápido e, consequentemente, todas as conquistas das mulheres (como o direito em votar) e a legislação trabalhista e previdenciária poderiam ocorrer muito antes (30 anos?) do que o governo de Getúlio Vargas, pois a sociedade estaria amadurecendo novidades no campo político.
As assacadilhas que tentam desmerecer ao movimento são numerosas e uma delas é aquela que pejorativamente inclui as chamadas “elites”. Elas foram, para alguns, as responsáveis pela insurreição. É um modo de desmerecer todo um conjunto. O País, de Norte a Sul, vivia numa época de revoltas e críticas ao regime (sistema?). Não era privilégio dos gaúchos o debate em torno de ideais republicanos e abolicionistas. Quem estuda a História da Imprensa no Brasil verá que muitos ventos libertários invadiam os espaços geográficos da jovem nação independente.
O saudoso Historiador Othelo Rosa, durante o 4º Congresso de História e Geografia, realizado em Porto Alegre em 1945, disse que antes de 1835 existia no Estado o “Sentinela da Liberdade”. Diz ele: “apelidavam, aqui, os revolucionários farroupilhas? Pois no Rio de Janeiro, entre 1831 e 1832, havia dois jornais com esses nomes: “O Jurujuba dos farroupilhas” e “A matraca dos farroupilhas...”. Esta denominação é emblemática para quem sabe pouco sobre nossa História. Como é que existiam, anos antes, no centro do poder (Corte) jornais que já utilizavam o termo “farroupilha”? No mesmo período, na antiga Capital Federal, existia o “Tribuno” que propagava a extinção da monarquia e eleições populares. Os movimentos contra a escravidão já estavam crescendo e se escrevia muito a respeito. Não era, portanto, uma ilusão das “elites” ou uma promessa vaga o ideal de Bento Gonçalves e seus companheiros.
Além do mais, as múltiplas relações familiares, os laços fraternos da maçonaria com seus juramentos de lealdade, e mais a extensa rede de negócios envolvendo os Tropeiros e os Barões dos Campos Gerais, Tibagy e Antonina com a cidade paulista de Sorocaba teriam influenciado o armistício conduzido por Caxias? Todos estes fatores são pouco estudados ou comentados.
Dias 28 e 29 de Agosto foi realizado em Ana Rech, o “Raízes Tropeiras – Primeiro Pouso”, promoção do CTG Ginetes da Tradição. Na oportunidade foram apresentadas Palestras, Música, Dança, Artesanato, Missa Crioula, Baile de Candiero, Poesia e culminando com um Desfile temático sobre a História dos Transportes. E surpreendentemente, sem gastar muito com “artistas famosos ou globais”!
Além dos “prata da casa”, muitos visitantes de várias cidades do Estado e da cidade paulista de Sorocaba participaram ativamente no evento e destacaram o empenho e organização da peonada do CTG. Aliás, o Ginetes da Tradição tem sido uma das entidades que mais tem produzido eventos especiais com direcionamento aos temas que envolvem o Tradicionalismo.
Como se sabe, o “pouso” de Ana Rech era um lugar de descanso e também ponto comercial para milhares de Tropeiros que passavam por ali durante décadas. Esta ligação com os Tropeiros nos remete a uma visão de brasilidade, pois os imigrantes e seus descendentes, em clara parceria com gente de cima da serra e até mesmo do planalto lageano (SC) são a base de integração de duas correntes culturais importantes para definir identidades individuais e coletivas: o “italiano” e o “nacional”, popularmente chamados de “gringos” e de “pelo-duros”, respectivamente.
Portanto, existe fundamentação antropológica, histórica e genealógica para realização de outros eventos do gênero. Como estamos prestes a comemorar a Semana Municipal do Turismo, nada melhor do que descobrirmos alternativas ou programas que envolvam diversas Secretarias de Governo ao mesmo tempo: Cultura, Educação, Turismo e Agricultura, por exemplo. Incorpar o evento com apoio logístico de diversos segmentos da sociedade caxiense trará, sem dúvida, no médio e longo prazo, resultados positivos.
Já existe a idéia dos Caminhos da Colônia e que deve permanecer no circuito turístico (embora deva ser rediscutido e melhorado). Agora, some-se outra: a Rota Tropeira. Para quem trabalha com uma matriz que valorize as raízes culturais brasileiras verá que Caxias do Sul tem imenso potencial que abrange não só o marketing já conhecido como um dos berços da imigração italiana, mas também elementos que fazem ligações históricas com outros quadrantes geográficos. Isto potencializa a riqueza da região em termos turísticos.
Estados como Paraná e Santa Catarina já têm programas específicos sobre esta Rota Tropeira. Faltam algumas ligações com São Paulo, Goiás, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul para formar um extenso corredor de apropriação de nossa História em favor do Turismo Regional.
Caxias, dividida em Colônia e Campo pode usufruir de um espaço que ainda não foi preenchido. E são poucos os Municípios que possuem esta riqueza. Os nossos Distritos serranos já estão iniciando uma base importante para acordar para este segmento. As pousadas, os monumentos e estradas asfaltadas em construção fazem parte de uma logística para atrair pessoas que estão dispostas a conhecer nosso interior.
Pensar no conjunto do Município e suas riquezas naturais, tradicionalismo, vida campeira e os recantos rurais estão no mapa das oportunidades. A vida urbana tem sido reservada para megaeventos como a Festa da Uva ou no segmento dos Negócios. No entanto, milhares de pessoas, quer no País, como no exterior, estão buscando no interior uma fonte para combater o estresse, intercâmbio cultural e histórico e contato com a mãe natureza.
Às vezes não percebemos que determinadas opções de progresso e desenvolvimento estão ligadas à nossa própria História. E no mundo todo, o moderno, o progresso consciente e sustentável também tem ligações com nosso passado não muito distante. Assim, o Raízes Tropeiras de Ana Rech trás uma boa discussão para todos os caxienses, incluindo é claro, a numerosa família tradicionalista. Parabéns ao CTG Ginetes da Tradição!
