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Colunista
Mansueto Serafini
Mansueto Serafini
Ex-prefeito de Caxias do Sul

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Acesso Restrito

O MEU ENTERRO

Enviado Sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008 às 17:01:42 | Nenhum comentário »
Acadêmico de Direito, eu estava preocupadíssimo. Pudera... a prova seria na terça-feira. Eu folheava apressadamente o livro de “Introdução a Ciência do Direito”, matéria do primeiro ano que tinha como professor o severo e competente Dr. Ary Zatti Oliva. De repente senti um frio no estômago. Faltou-me ar. Perdi o equilíbrio.
Ouviu-se um “estrondo”. Era eu que desmaiava, sofrendo o primeiro “ataque” de minha vida, até então sadia e feliz.
A família toda dirigiu-se ao local da queda. Não conseguindo me reanimar, chamaram o médico. Ele veio rapidamente. Examinou-me cuidadosamente. Pacientemente. Demoradamente. Olhou para os presentes e diagnosticou:
-          Está morto!
Devo dizer, sem falsa modéstia, que houve choro. Até desespero. Pudera, apesar dos pesares, o pessoal lá de casa gosta de mim.
Pouco depois chegava o “caixão”, como popularmente se chama a urna funerária. Era marrom, com alças douradas. Muito bonito diga-se. Meus parentes tiveram bom gosto na escolha. Chegavam também as primeiras coroas, de defunto mesmo. Não confundir com o sentido figurado da palavra “coroa”, embora, a bem da verdade, devo confessar que algumas delas já estavam ao redor do “caixão”.
Até aí, dirá o leitor, nada de novo. Um velório igual a mil e um outros velórios.
Acontece que eu estava vivo. E, o que é pior, ouvindo tudo o que diziam. Tinha sofrido, na certa, um desses “ataques”, (não lembro o nome científico), que deixa a gente como se já estivesse no outro mundo. Mas eu continuava nesse, embora imóvel.
As horas foram passando e eu, apesar de vivo, continuava duro como uma pedra. A noite passou e a manhã, diziam, veio linda, com um céu azul e sem nuvens. E, com ela, chegou a hora do enterro. A minha preocupação aumentou. Fazia um esforço medonho para dar algum sinal que me identificasse como ainda integrante da comunidade dos vivos. Mas nada conseguia. Não movia sequer um dedo.
Começou a denominada “despedida”. O choro da “Nona Mariota”, como se chama minha avó, com quem moro desde pequenino, aumentou. Senti que estava partindo, carregado pelos amigos, para a cidade branca dos que já se foram definitivamente.
Os comentários eram de que havia bastante gente nos meus funerais. Muitos amigos tenho eu, pensei. Cheguei a ficar comovido.
O cortejo chegou ao cemitério. O padre, que era meu bom amigo Sidney Zanetini, fez, um primoroso latim, a encomendação final.
Depois foram me pondo dentro da cova. Então sim a coisa ficou séria. Começou a faltar-me o ar, a luz, a vida...
Aí o velho despertador soou...
                        xxx                 xxx                  xxx                  xxx
 
 
 
Crônica publicada na edição de 7 de julho de 1962 no semanário “Caxias Magazine”
 
OBSERVAÇÕES:
-          O Professor Ary Zatti Oliva era o titular da cadeira de “Introdução a Ciência do Direito” e também diretor da faculdade, que funcionava em um prédio da Rua Sinimbú, o mesmo que hoje abriga a Igreja Universal do Reino de Deus.
-           O Padre Sidney Zanetini era o vigário da Paróquia do Bairro Cruzeiro, o companheiro de muitos bate-papos na extinta e saudosa Bomboniére Cairo, que ficava na Av. Júlio de Castilhos, ao lado do Clube Juvenil.

A vizinha

Enviado Sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008 às 18:31:06 | Nenhum comentário »
 

Noivado de quase quatro anos. Ele, funcionário público. Ela, professora. Ambos moradores da mesma rua. Filhos de famílias tradicionais do bairro.

Um dia, o rapaz conheceu outra mulher. Insinuante. Sexual. De uma beleza selvagem. E por ela se apaixonou. Era uma vendedora de produtos de beleza.

O casamento com a professora, marcado para o fim do ano, foi adiado. Ainda não estou em condições financeiras de assumir o compromisso, alegava. No ano seguinte também. Enquanto isto, ele tornou-se amante da vendedora. Tiveram um filho. A noiva não sabia. Os pais dela também não. Os vizinhos sim.

O moço começou a ter problemas. Os pais da noiva irritados pelos constantes adiamentos. A dúvida a atormentar-lhe. De quem gostava afinal? Da noiva ou da amante?

Uma noite depois de fumar dois maços de cigarros, chegou finalmente a uma conclusão. Amava a noiva. Iria dar toda a atenção, é claro, ao filho, já com pouco mais de dois anos. Terminaria o relacionamento com a amante. Contaria à sua futura esposa. Ela meiga, como era, saberia perdoa-lo. Casaria no fim do ano.

A amante compreendeu e confessou que já não o amava mais. Que há tempo já queria dizer-lhe isso, mas não tinha coragem. Tinha encontrado um antigo namorado, que lhe propôs viverem juntos e que assumiria o filho. Problema resolvido.

Tomou o primeiro ônibus. Dirigiu-se rapidamente à casa da sua eleita. Chega à porta. Muitas coroas. Algumas velas. Flores. Uma urna funerária. Muitas amigas ao redor.

Parou. Seria o futuro sogro, que sofria do coração? A sogra, que era diabética? A tia velha e solteirona?

Aproximou-se mais e viu, perplexo, sua noiva sendo velada.

Uma vizinha, sempre as vizinhas, havia contado suas ligações com a vendedora de produtos de beleza.

Ela, desesperada, se refugiara no suicídio...

 (Crônica publicada no ‘Caxias Magazine’ – edição de 10 de fevereiro de 1962)

 

 

 

 

A filha do cego

Enviado Sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008 às 14:47:50 | Nenhum comentário »
Foi há quase dois anos. Alguns leitores, por certo, devem estar recordados daquele cego que tocava acordeom e, em troca, pedia uns trocados para as pessoas que circulavam pela Av. Júlio. Ele fazia ponto defronte à Bombonnière Madrid. Pois ele tem uma filha. Moça bonita. De uma beleza sem os artifícios e sem as marcas de quem passou por um instituto de beleza.
Vi a jovem numa quente tarde de verão. Tomei o ônibus na esquina do Clube Juvenil, rumando para São Pelegrino para assistir a um filme no Cine Real. No banco de trás estava o cego da Madrid e, junto dele, uma bela menina, de seus 16 anos, quanto muito 17, toda maltrapilha. Vestido rasgado, pernas sujas e sapatos furados. Mas, debaixo destes trapos, oculta nesta sujeira, havia uma extraordinária beleza. Ela era meiga. Sua voz suave. Seus cabelos pretos como a noite. Seu corpo perfeito.
Minha imaginação logo começou a trabalhar.
Imaginei a filha do cego dentro da nossa chamada alta sociedade. A vi debutante no Clube Juvenil, com um vestido azul como os seus olhos. Ela tinha um sorriso nos lábios. Estava feliz. Olhava a vida com alegria, com amor. Dançou sua primeira valsa com uma felicidade que comovia. Como é bonito e faz bem a agente imaginar coisas boas.
Depois voltei à realidade. Lembrei que seria muito mais provável essa jovem ser iludida por um moço da nossa sociedade. E depois, abandonada pelo “playboy”, transformar-se numa mulher de rua. Em alguém que vende o amor como se vende cachaça, sapatos e sorvete. Desci do ônibus. Meu pensamento continuava com a filha do cego. Sua imagem ficou comigo o resto do dia.
Desde então nunca mais a vi.
 
(Crônica publicada no “Caxias Magazine” – edição de 5 de novembro de 1960.)
 
Observações:
1)      A Bombonnière Madrid era um excelente bar, ponto de encontro de muitos caxienses, que ficava na Av. Júlio, ao lado da Livraria Rossi.
2)      Instituto de beleza é como eram chamadas as atuais casas de beleza onde são feitos cortes de cabelo, maquiagem, etc.
3)      O Cine Real era um grande cinema, localizado na Av. Júlio, entre as ruas Cel. Flores e Feijó Júnior – ao lado da Praça João Pessoa, no bairro de São Pelegrino.

Um Cabelo

Enviado Sexta-feira, 08 de fevereiro de 2008 às 16:32:25 | Nenhum comentário »

Nota da Redação: A partir desta edição e até o fim de fevereiro, vamos preencher este espaço, atribuído ao ex-prefeito Mansueto de Castro Serafini Filho, com crônicas por ele escritas na década de 1960 e publicadas no semanário “Caxias Magazine”, editado em Caxias de 1958 a 1970.

            Era a época do cronista Mansueto, um jovem de 20 e poucos anos, que escrevia sobre assuntos leves. Pouco depois, o cronista foi seduzido pela política. Foi vereador, vice-prefeito, duas vezes prefeito, diretor-presidente da Trensurb, de Porto Alegre e diretor do Banco do Estado do Rio Grande do Sul. E, com isso, a política terminou com o seu período de cronista. Essa mudança recebeu uma referência da historiadora Loraine Slomp, em artigo publicado em 1983. Ela escreveu “acredito que o Mansueto foi um intelectual que se perdeu (ou se achou) na política”.

            A Gazeta foi buscar nos arquivos do “Caxias Magazine”, algumas crônicas do Mansueto, que passamos a publicar neste espaço.

            Em março, Mansueto voltará com seus artigos costumeiros, a não ser que os leitores passem a solicitar a volta do cronista.
            O rapaz ia, pela primeira vez, almoçar na casa da namorada. A família dela aprovava a escolha. Era um moço direito, trabalhador e de boa família.

            Desde cedo começaram os preparativos para o almoço. O cardápio de todos os dias foi substituído por “algo especial”. Galinha assada, bife à milanesa, com rodelinhas de limão, massa, maionese e outros pratos.

            A mesa recebeu decoração especial, “estilo Darwin Gazzana”, com flores e frutas.

            O rapaz chegou. Cumprimentou a sogra, que de tão amável nem parecia sogra.

            Sentou-se no lugar de honra. Um enorme sorriso nos lábios.

            Começaram a servir. Os pratos se sucediam. Enfeitados. Bonitos. Deliciosos.

            O rapaz comia alegremente.

            Que maionese!

            Que bife!

            Que massa!

            Sem dúvida a melhor refeição que já havia saboreado.

            Em dado momento ele vê, no meio da massa, no fundo do prato, um cabelo ostensivamente plantado.

            Ele parou de comer. Olhou para a sogra. Depois para a namorada. Olhou para o prato, para o cabelo...

            Empalideceu.

            Nesta altura o cronista fica sem saber o que fazer com o cabelo e com o rapaz. Não sei se faço o cabelo desaparecer milagrosamente ou o rapaz, depois de alguns segundos de meditação, resolve comer a massa com cabelo e tudo. Afinal de contas, o problema é dele e não meu.

            Em todo caso, deixo o desfecho desta estória para os leitores. Escrevam para a nossa redação, terminando a crônica. Assim fazendo, estarão concorrendo ao sorteio de um finíssimo pente.

            E, para encerrar, uma frase do velho Bush: “Um fio de cabelo na massa nos aborreceria muito, ainda que fosse da mulher amada.”

            (Crônica publicada na edição de 29 de outubro de 1960 do semanário “Caxias Magazine.”

 

            Observação: Darwin Gazzana era um respeitado médico e também excelente decorador caxiense. Foi o responsável pelos projetos dos carros de diversas rainhas da Festa da Uva.

Collares e a Rota do Sol

Enviado Sexta-feira, 01 de fevereiro de 2008 às 15:01:49 | Nenhum comentário »
Sem computador, escrevi o artigo da semana passada em minha velha “Olivetti”. Foi necessário, para sua publicação, digitá-lo. Só que quem o fez, sem querer evidentemente, pulou uma linha da parte em que eu falava da participação dos ex-governadores na abertura da Rota do Sol. E pulou a linha em que eu comentava a atuação do ex-governador Alceu Collares.

De minha parte, por um dever de justiça com o ex-governador, não poderia deixar as coisas assim. Isto porque, logo que Collares assumiu o Governo do Estado no início de 1991, estive, (na época era prefeito de Caxias), com ele numa longa audiência no Palácio Piratini. Na oportunidade solicitei, em nome da comunidade, a continuação das obras da Rota do Sol. Collares prometeu que iria atender a solicitação. E cumpriu a palavra.

Em razão disso volto hoje a falar na Rota do Sol para deixar claro que Alceu Collares foi o responsável pela pavimentação do trecho da Rota que vai de Lajeado Grande a Tainhas. Foram mais de 40 km de asfalto.

Collares foi, juntamente com Pedro Simon, Germano Rigotto e Yeda Crusius, os governadores que mais investiram em nossa Rota do Sol. Fica aqui o registro para corrigir a injustiça, não intencional, da semana passada.

 

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Mudando radicalmente de assunto, começa hoje mais um Carnaval. É verdade que sem o entusiasmo dos carnavais das décadas de 60, 70 e até 80, que lotavam os clubes caxienses. Quem não se lembra das quatro noitadas burlescas do Recreio da Juventude, do Recreio Guarany, do Juvenil e do Recreiro Cruzeiro, do Reno, (que tinha 5 noitadas a partir da sexta-feira), do Gaúcho, do Rodoviário e tantos outros. Caxias tinha um dos melhores carnavais de salão do Estado. Já nosso Carnaval de Rua era modesto, mas tinha uma escola de grande destaque, a “Protegidos da Princesa”, do Clube Gaúcho. Enquanto nosso Carnaval de Salão ficou mais pobre. Muitos clubes nem mais promovem noitadas burlescas, como acontece com o Juventude e Juvenil. Nosso Carnaval de Rua melhorou e muito, nos últimos anos. Mas, neste 2008, ele foi transferido para março, quando a cidade voltará a normalidade. Isto porque, neste inicio de fevereiro, metade dos caxienses estão na praia. A cidade está praticamente vazia. E assim, salvo honrosas exceções, também ficará vazio o nosso carnaval.

Não seria o caso de nossos clubes e escolas de samba transferirem definitivamente para março o nosso Carnaval? Uruguaiana já faz isso e, dizem, com muito sucesso.

Enfim desejo a todos um bom Carnaval, sem excessos, é claro..

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