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Paulo Amaro Ferreira
Paulo Amaro Ferreira
Acadêmico de História e Coordenador do DCE UCS

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Acesso Restrito

Sobre Medicina, Greves e Governos

Enviado Segunda-feira, 25 de abril de 2011 às 14:34:56 | 1 comentário »

Durante minha estadia em Cuba, além de estudar história na Universidade de Oriente, em Santiago de Cuba, também tive a oportunidade de acompanhar, enquanto estava em Havana, os estudantes de medicina em suas mais diversas atividades, tanto teóricas como práticas. E posso afirmar que foi uma das experiências mais impactantes que já tive. Acompanhava-os na Universidade e nos hospitais. Realizava com eles visitas a domicílios, que sempre eram mais longas do que esperávamos, pois tão grande era o carinho com o qual éramos recebidos que acabávamos conversando sobre os mais diversos assuntos. E quando se inteiravam que éramos estudantes brasileiros, aí já ofereciam café e tudo quanto possam imaginar. Enfim, fiquei realmente impressionado com o sistema de saúde daquele país e com o enfoque que é dado pela medicina, extremamente humanizadora, sem qualquer viés que objetive o lucro. Realmente fiquei tentado a trocar a carreira de historiador pela de médico e, se não fosse minha aversão às agulhas, talvez o tivesse feito. Poderia relatar também aos leitores, minhas experiências em Cuba enquanto paciente (estive internado no hospital em duas oportunidades), mas aí o texto tornar-se-ia extenso demais. Bom, talvez na próxima oportunidade eu conte. Mas por enquanto, fica aqui meu grande abraço aos meus amigos formados em medicina em Cuba e que hoje estão cumprindo missão médica nas selvas da Venezuela: a Marcus, Daniel e Ana Rosa, meus sinceros agradecimentos pelos ensinamentos que me passaram e continuam me passando.

Quando voltei ao Brasil, comecei a analisar um pouco mais o nosso sistema de saúde (não tão profundamente quanto gostaria). Antes de qualquer coisa, quero deixar bem claro que sou um grande defensor do SUS que, apesar de todos os problemas que devem ser resolvidos, possui uma ótima concepção de medicina, a começar pela afirmação de que ela deve ser totalmente pública. Sabemos que a carreira de médico no Brasil, e em muitos outros países, é a mais elitizada de todas. Ou seja, nosso problema começa já na Universidade, pois geralmente quem consegue ingressar nos cursos de medicina são estudantes das classes mais abastadas da nossa sociedade. Bueno, apesar de toda a regra ter suas exceções, daí já podemos deduzir as concepções de medicina que são predominantes em nosso país. Aliás, talvez muitos ainda não saibam, mas os estudantes brasileiros formados em medicina em Cuba, são proibidos de trabalhar no Brasil. Por quê? Posso arriscar que seja por uma reserva de mercado (isso mesmo, medicina também é mercadoria no Brasil), ou seja, quanto menos médicos, mas caro se torna nossa saúde. E isso não é só culpa do governo, pois existe uma grande pressão dos conselhos médicos no país para barrar a vinda desses médicos recém formados em Cuba e que possuem outra visão da medicina.

Considerações feitas, quero por último falar sobre a greve dos médicos em nossa cidade. Mais uma vez a população de Caxias sofre com este descaso. Mas a culpa é dos médicos somente? Claro que não. A grande mídia de nossa cidade tenta desesperadamente tirar a parcela de culpa do nosso governo municipal e colocá-la nos médicos. Estes estariam sendo irresponsáveis e não estariam pensando na população. Mas que hipocrisia. Bom, as eleições municipais de 2012 estão chegando e é claro que a prefeitura não quer ser alvo de críticas desde já. Mas o fato é que a prefeitura é omissa e irresponsável na condução deste caso. Quantas vezes o nosso prefeito foi conversar com os médicos? E será que não poderia ter sido estabelecida, antecipadamente, uma mesa de negociações e diálogo com a categoria, para ouvi-la e para tentar encaminhar este caso de forma que a população não fosse atingida. É claro que o prefeito não deve estar muito preocupado, por que não precisa utilizar o postão 24 horas. Os planos de saúde, que ganham dinheiro com a falta de saúde das pessoas, estão espalhados por todo o canto e demonstram ser um bom negócio para quem quer investir neste ramo. Enquanto isso o que faz a grande mídia? Critica fortemente os médicos e o sistema público de saúde. Para quê? Para enfraquecer a categoria e eximir de toda a culpa a prefeitura, e além disso, para fazer com que a opinião pública diga que se tenha que privatizar a saúde também. Que absurdo! Não agüento mais ligar a televisão de meio dia e ver os comentários dos jornalistas marionetes do grande capital. Saúde pública e de qualidade é que precisamos para uma vida mais digna.

 

A Falência da Família e do Matrimônio Cristão

Enviado Segunda-feira, 07 de fevereiro de 2011 às 10:52:50 | Nenhum comentário »

 

 

Marx escreve, em 1843, que “a crítica da religião é o pressuposto de toda a crítica”. Segundo ele, prosseguindo sua análise, “a religião é o suspiro do ser oprimido, o íntimo de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma. É o ópio do povo”. Pois bem, acredito que a critica religiosa tenha sido já completada nos dias de hoje. Há muito pouco a acrescentar sobre o que os filósofos já discorreram sobre o tema. Não foram poucos os que teorizaram a respeito da religião. De Marx a Weber, de Nietzsche a Schopenhauer, das mais diversas correntes filosóficas, de alguma forma ou de outra, com maior ou menor intensidade, a crítica foi feita.

Escrevo este texto, para tratar sobre dois temas estreitamente interligados entre si: a família (monogâmica patriarcal) e o matrimônio. Quando falamos em família, já pré-estabelecemos um modelo que nos foi inculcado desde a tenra infância: um pai (o provedor), a mãe e os filhos. Este é o modelo de família que concebemos como o “normal”. Seguindo este raciocínio, temos já então um modelo de união conjugal: o matrimônio monogâmico católico (e hoje em dia incluímos aqui as mais diversas igrejas cristãs). Eis então dois elementos seriamente ameaçados pela sociedade contemporânea.

O modelo monogâmico patriarcal de família serviu perfeitamente à consolidação e perpetuação do sistema social vigente, ou seja, o capitalismo. Não vou aprofundar-me neste ponto específico aqui neste espaço, mas deixo uma boa dica de leitura para os interessados: “A Psicologia de Massas do Fascismo” de Wilhelm Reich. Porém, a falência deste modelo de família não significa a derrocada deste modelo de produção. Mas, como nos diz um axioma do direito, "contra fatos não há argumentos". Nos deparamos hoje com algo que nem os mais entusiastas do catolicismo conseguem esconder: há uma forte crise no modelo de família e de matrimônio cristãos. Nossos pais são talvez, a última geração de marido e mulher que vivem um único matrimônio. Ainda assim, muitos de nós já somos filhos de pais separados. E isso tende a aumentar. Não por que um belo dia os homens e mulheres acordaram e decidiram que não queriam mais casarem-se, terem filhos, e viverem juntos até o fim de suas vidas, mas por que a dinâmica social já não é mais a mesma do que a de 50 anos atrás.

Entretanto, não podemos deduzir, a partir da verificação da ruína da família e do matrimônio cristãos, que o modelo de sociedade que  vivemos está ruindo. Pelo menos não em seus traços fundamentais. O que estamos observando é uma alteração em alguns pontos da superestrutura do capitalismo, mais especificamente do ponto de vista ideológico religioso. Mas em seu âmago, o capitalismo continua atuando da mesma forma, com seus mesmos mecanismos de exploração, que foram apenas adequados aos novos tempos. Se fôssemos realizar uma análise hegeliana, ou ainda weberiana deste fenômeno, poderíamos facilmente chegar à conclusão de que o capitalismo estava ameaçado ou que ele estava se modificando em suas estruturas. Mas do ponto de vista do materialismo histórico, isso representa apenas uma leve alteração em alguns padrões culturais, insuficiente, até por que não têm este propósito, de alterar o sistema por completo. 

Nesta mistura de teorias a respeito da religião, vou permitir-me encerrar com o sarcasmo nietzscheano: os noivos juram amor eterno, o padre os abriga a tal ato, após vem o divórcio e a negativa da igreja a um próximo matrimônio. Santa hipocrisia social. E o pior de tudo isso, é que todos os envolvidos sabiam de tal desfecho!

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