Enviado Sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010 às 19:01:48 |
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A uva é o símbolo da cidade de Caxias do Sul como a maçã é para Nova York, a folha de plátano para o Canadá e o galo para Flores da Cunha. O período da Festa da Uva é um momento agregador da cidade e da região além de ser uma demonstração do que se faz e o que se pode fazer numa terra de topografia difícil encarrapitada na Serra Gaúcha. O momento já não cabe dentro dos limites da cidade e do município. A comemoração é um evento estadual com repercussões em nível nacional e com incursões no mundo televisivo de outros continentes.
O ato da abertura foi do tamanho do evento. O discurso do presidente da Festa da Uva, foi de agradecimento à população e todos os envolvidos na construção da festa. Tudo o que se fez no parque é graças as respostas de uma sociedade de labor e aos apoiadores do evento. Aproveitou o momento para dar um recado à sociedade - a família é o pilar e o sustentáculo da sociedade, conclamando os casais a namorarem eternamente.
O prefeito nas poucas laudas do seu pronunciamento demonstrou ser um homem de fé. Homem que acredita nos seus colaboradores, nos seus munícipes e na população vencedora. Deu a dimensão perfeita do ato de abertura da celebração do trabalho e do sucesso de um povo que não abre mão de apresentar ao país o próprio sucesso. “Hoje Caxias é plural, multicultural, multiétnica - uma cidade exigente. Não somos melhores que ninguém. Somos diferentes, um jeito próprio de ser brasileiro”.
O vice-prefeito exibia o orgulho sadio de ver inaugurado o novo espaço da tradição e da cultura da cidade. Faça chuva o faça sol, a música e o laço circularão no ar como minuano zunindo nos pampas.
O Governo do Estado estava presente com seu secretariado de primeira hora para dizer que não se fazia presente só para cumprir uma liturgia social. Mas sim, prestigiar e celebrar junto os feitos do povo da Serra. Era a demonstração que o chefe do poder estadual está atento aos movimentos de uma população vencedora.
E o povo marcou presença ocupando o seu espaço. O desfile mostrou que quem sabe, faz e mostra. É a população celebrando com toda a voz, como faziam os imigrantes ao anunciar aos quatro ventos o próprio sucesso com as suas cantorias, desde que não substituam a canção Mérica, Mérica, por um jingle de refrigerante.
Enviado Sexta-feira, 05 de fevereiro de 2010 às 11:15:50 |
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O andarilho Marco Bortolai, o personagem mais popular de Nova Trento, percebia que a vida encurtava os passos nas longas caminhadas. O corpo apresentava as marcas profundas do tempo. Aos 79 anos, não chegou ao lugar que tanto queria: encontrar-se consigo mesmo. Caminhando sozinho foi mais rápido. Se tivesse caminhado junto aos outros talvez tivesse ido mais longe.
Para as crianças ficou a imagem do Velho do Saco. Para os adultos o homem que passou meia vida profetizando e costurando caminhos pelo interior cheio de conterrâneos vicentinos. Não conseguiu chegar ao destino e celebrar o encontro com Marco Pivoto - a sua verdadeira identidade. Passou a vida numa permanente procura de si mesmo. Encontrou só o Marco que se esvaia aos poucos como o centro de uma história humana comovente.
Lá pelos idos de 1955, Bortolai não suportou o peso dos 79 anos. As pernas fraquejaram. Caía nos braços das nuvens que o rodeava na manhã de serração fechada, perto do bosque onde morava, não longe do cemitério que ele próprio ajudou a construir bem perto da estrada, no canto da propriedade, bem no dorso da colina, apagava-se a vela que ele mesmo acendeu durante a noite riscando o último fósforo da caixinha que trouxe de Buenos Aires com a inscrição: ”El fuego que no se apaga em la memória del pueblo” – (Evita Peron). Fecharam-se os olhos do andarilho de Nova Trento deixando um rastilho de lembranças na população do interior e da cidade.
Este foi Marco Bortolai, um vicentino orgulhoso da sua origem, embora seu país de origem o deixasse no porto de Gênova junto aos seus para que ele buscasse o próprio destino e uma outra pátria onde pudesse depositar suas esperanças. Venceu no mundo imigrante, como andarilho ou como profeta, não importa, venceu dentro da sua própria condição humana numa sociedade que tentou entendê-lo.
Nova Trento perdia o seu mais popular e folclórico personagem. A cidade também perdia a alegria de ouvir as sentenças de um andarilho que fez história. Ele morreu como viveu. Percebeu que a morte tinha chegado com toda a sua crueza- o silêncio dos amigos e o frio da terra funda que o acolheu. O velho do saco partiu. Partiu para nunca mais caminhar. Só ficou o profeta
Enviado Terça-feira, 02 de fevereiro de 2010 às 10:02:15 |
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Os gaúchos dos Campos de Cima da Serra foram os primeiros a manter contatos com os imigrantes após a fixação nas terras da XVI Légua, até então feita pelos funcionários do governo imperial encarregados dos assentamentos em Nova Veneza. Eles apareceram no nascimento da vila, trazidos pelo traçado da estrada geral que levava à sede do município, São Sebastião do Caí, conduzindo as tropas de cargueiros carregando produtos serranos. A parada naquela clareira, marcada por algumas pequenas casas, era obrigatória para o descanso das montarias, da tropa e o repouso dos tropeiros. Os viajantes retiravam a cuia de chimarrão da broaca de couro cru e com um pequeno fogo aqueciam a água na chaleira preta de ferro e faziam o chimarrão. O imigrante, maravilhado com o ritual, passou a admirar o inusitado aparato. Os novos colonos viam os gaúchos como pessoas de andar marcado pelo tilintar das esporas, afáveis, linguajar cadenciado e carregado de musicalidade. Eram possuidores de um porte avantajado, vasta cabeleira, chapéu grande, botas e bombacha balão, pendente no pescoço uma pequena cruz missioneira, a marca de origem, distintos dos que vinham do sul. Sentados em troncos de árvores abatidas, sorviam o líquido amargo e fumegante com calma e paciência de abade. O cerimonial da preparação do chimarrão era único. Com a calma de quem tem tempo, explicava aos imigrantes que o chimarrão era um companheiro nas longas viagens, nos campos e matas. A cuia circulava de mão em mão na roda dos colegas de viagem. Era o símbolo da amizade. O gaúcho se revelava o mais próximo dos nativos missioneiros contando os feitos dos missionários Jesuítas. De olho no produto, os novatos habitantes da terra comentavam a novidade dos gaúchos. As matas da região eram pródigas em plantas do gênero. Não tardou em aparecer incentivadores na colheita das folhas de erva mate e na construção dos barbaquá, também conhecidos por carígio. O Barbaquá era um prédio simples e singular de fácil construção. O risco de incêndio era alto. No centro do prédio existia uma cúpula construída com sarrafos fazendo uma grade em formato arredondado. Debaixo dela uma abertura donde vinha o calor da fornalha conduzido por um túnel de dez metros cavado na terra. O túnel era feito de forma a conduzir o calor e eliminar qualquer fagulha vinda da fornalha. A centelha não podia chegar ao secador. Caso chegasse, o carígio seria tomado pelo fogo em poucos minutos. Assim se dava o processo de secagem das folhas da erva mate. Em anexo a construção existia a moenda e o pilão dentado preso no centro de um depósito circular onde eram jogadas as folhas secas. O pilão cônico era tracionado por uma mula pelo lado de fora do depósito circular. O movimento do muar girando o triturador era contínuo. A besta circulava horas e horas nesse processo mecânico. Assim as folhas eram picadas pelo girar do pilão dentado de formato cônico, até atingir uma granulação adequada ao consumo. As carroças no vai e vem mais pareciam fantasmas verdes vagando nas estradas carregadas de arrobas de folhas quebradiças. Este era o mundo imigrante da cucagna que aos poucos começava aparecer na sua dura forma – fazer fortuna na terra nova com o seu próprio trabalho. A cucagna tinha nome: Fà-te-la. (Faça-a você mesmo)
Enviado Sexta-feira, 15 de janeiro de 2010 às 11:38:44 |
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O filó era um momento de encontro entre famílias. Uma tradição das famílias de origem italiana. Esses encontros se realizavam durante a semana e sempre à noite. Era nessas reuniões que relatavam acontecimentos dos primórdios da colonização e outras histórias trazidas do além mar. Os contadores de histórias e lendas eram atores. Hoje, são meros assistentes e ouvintes. O Filó não resistiu à chegada da televisão e os meios de comunicação modernos. Sucumbiu sob o peso da velocidade da comunicação e da imagem. Fatos curiosos acontecidos naqueles tempos eram contados com freqüência. Línguas de fogo saindo dos túmulos na escuridão da noite, as diabruras do sanguanel e outros casos de fazer rir eram contados nos encontros noturnos. As crianças ouvindo as histórias ficavam de olhos arregalados e de cabelo em pé. Muitas dessas estórias foram trazidas até hoje e muitos afirmam que é fruto de pura imaginação. Alguns fatos aconteceram em casas de famílias onde eram realizados os velórios. No interior, ainda nos dias de hoje, o velório vira a noite numa permanente vigília ao lado do falecido. Com a eclosão da segunda guerra mundial criou-se no meio familiar rural um ambiente de preocupação e temor - o serviço militar obrigatório. Os filhos homens que nasceram à época, não poucos, tiveram a data de nascimento alterada. Com o artifício, ao chegarem à idade do alistamento militar apresentar-se-iam imberbes aos quartéis e assim seriam automàticamente descartados das fileiras do serviço militar. Foi nesta época que faleceu o filho de um agricultor que incorporou as fileiras do exército num dos quarteis da fronteira. Teve morte súbita em treinamento e manobras militares. Trazido de trem até Caxias do Sul e da estação ferroviária até a residência foi transladado num motociclo militar alemão BMW com canoa lateral onde foi acomodado o esquife. Por onde passava era observado pela população. O curioso era ver aquele motociclo levando um caixão de defunto na canoa de passageiro. O velório aconteceu na casa da família do soldado num dos travessões das barrancas do rio das Antas. À noite, a sala da casa de madeira, construída sobre uma cantina murada de pedra, estava repleta de gente rezando pela alma do jovem falecido. Era a noite mais fria do ano. De quando em vez ouviam-se ruídos estranhos. O assoalho foi cedendo e tudo desabou para um canto sobre as pipas de vinho do porão. Gente caindo e o caixão também seguiu em queda. Féretro de um lado e cadáver do outro. O defunto caiu de pé numa dorna (bigùncio). Na queda bateu com o braço direito na orla da dorna e ficou com o braço levantado empunhando o terço como se estivesse fazendo continência. Todos saíram correndo pela porta da cantina. Só ficou o defunto em posição de sentido, fazendo continência com um sorriso gelado mostrando os dentes. Na escuridão, a população atordoada de lamparinas em punho, viu o caixão vazio num dos cantos. Todos procuravam o falecido. Num outro canto da cantina viram o dito cujo de pé dentro da dorna em posição de sentido fazendo continência. Apavorados, muitos saíram correndo, gritando “Le vivo! Le vivo!” E as senhoras piedosas de hissope (instrumento que o padre usa para a bênção com água benta) na mão direita aspergiam com água benta todos os cantos da casa para espantar os fantasmas da noite. Dois gaúchos acostumados a fatos dessa natureza recolheram o dito cujo e o colocaram numa besta e o levaram até o cemitério. Na mesma noite foi enterrado em resumida cerimônia, na presença de alguns familiares sob as rezas latinas cantadas pelo mais letrado dos presentes, o sacristão Domingos, recém chagado do colégio Lassalista de Canoas.
Enviado Sexta-feira, 20 de novembro de 2009 às 09:51:09 |
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Marco Bortolai, o andarilho mais conhecido da região, homem de saco às costas e um bastão na mão direita era o espantalho da criançada e arma poderosa das mães para manter a disciplina da meninada travessa das famílias do interior. Quando se ouvia a expressão “lá vem o velho do saco” o mundo infantil arregalava os olhos e se punha em posição de obediência absoluta. O andarilho já carregava as marcas do tempo e se transformava lentamente numa figura grotesca. De vestimentas surradas e sobrepostas dava a impressão de uma alma perdida. Andava pelas estradas de Nova Veneza e pelas colônias do interior de Nova Pádua pelos lados do Travessão Leonel falando sozinho como um vivente sem destino. As rusgas em que se metia eram desconcertantes. Já era conhecido o seu comportamento estranho e difícil. Era um rebelde sem causa. Assim mesmo a população relevava porque em momentos de equilíbrio pleno era cordial. Nas cercanias do Belvedere, num dia de sol pequeno e as nuvens riscando o céu com rabos de galo, se aproximava da casa do nono “del capel della pena rossa”(o avô de chapéu da pena vermelha) um vendedor de velas. Convenceu o homen de cabelos brancos a comprar o produto que estava nos fardos pendurados nas cangalhas das mulas. O vendedor ambulante, também chamado de “el árabo”, tinha muita estrada. Era de uma habilidade extraordinária em cativar a atenção chegando às raias da hipnose, porém, superficial. Fazia um nó no cérebrodo dos interlocutores. Explicava ao nono que viria uma escuridão durante três dias e três noites. Só as velas bentas que ele estava vendendo ficariam acesas. O nono era de uma extraordinária simplicidade acreditava e comprava o lume de parafina. Com esse apelo fantástico o mascate fazia a festa comercial. Pela estrada andava o andarilho de todos conhecido. Quando o mascate se deparou com Marco Bortolai a oferta veio pronta. Ao ouvir o vendedor, percebendo a armadilha, o andarilho levantou o bastão e pôs o homem a correr chamando-o impostor e mentiroso. Queria que pedisse desculpas aos colonos e devolvesse o dinheiro. E gritava: - Pedir desculpas e reconhecer o erro é um ato de grandeza! Não dói! O mascate enveredou pela estrada em disparada desaparecendo na primeira curva em direção a Nova Trento. Teve que fazer uma longa caminhada para chegar até Caxias e tentar outros mercados porque a conversa da vela benta estava com a validade vencida.