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E o povo marcou presença ocupando o seu espaço. O desfile mostrou que quem sabe, faz e mostra. É a população celebrando com toda a voz, como faziam os imigrantes ao anunciar aos quatro ventos o próprio sucesso com as suas cantorias, desde que não substituam a canção Mérica, Mérica, por um jingle de refrigerante.
Nova Trento perdia o seu mais popular e folclórico personagem. A cidade também perdia a alegria de ouvir as sentenças de um andarilho que fez história. Ele morreu como viveu. Percebeu que a morte tinha chegado com toda a sua crueza- o silêncio dos amigos e o frio da terra funda que o acolheu. O velho do saco partiu. Partiu para nunca mais caminhar. Só ficou o profeta
Os gaúchos dos Campos de Cima da Serra foram os primeiros a manter contatos com os imigrantes após a fixação nas terras da XVI Légua, até então feita pelos funcionários do governo imperial encarregados dos assentamentos em Nova Veneza. Eles apareceram no nascimento da vila, trazidos pelo traçado da estrada geral que levava à sede do município, São Sebastião do Caí, conduzindo as tropas de cargueiros carregando produtos serranos. A parada naquela clareira, marcada por algumas pequenas casas, era obrigatória para o descanso das montarias, da tropa e o repouso dos tropeiros. Os viajantes retiravam a cuia de chimarrão da broaca de couro cru e com um pequeno fogo aqueciam a água na chaleira preta de ferro e faziam o chimarrão. O imigrante, maravilhado com o ritual, passou a admirar o inusitado aparato. Os novos colonos viam os gaúchos como pessoas de andar marcado pelo tilintar das esporas, afáveis, linguajar cadenciado e carregado de musicalidade. Eram possuidores de um porte avantajado, vasta cabeleira, chapéu grande, botas e bombacha balão, pendente no pescoço uma pequena cruz missioneira, a marca de origem, distintos dos que vinham do sul. Sentados em troncos de árvores abatidas, sorviam o líquido amargo e fumegante com calma e paciência de abade. O cerimonial da preparação do chimarrão era único. Com a calma de quem tem tempo, explicava aos imigrantes que o chimarrão era um companheiro nas longas viagens, nos campos e matas. A cuia circulava de mão em mão na roda dos colegas de viagem. Era o símbolo da amizade. O gaúcho se revelava o mais próximo dos nativos missioneiros contando os feitos dos missionários Jesuítas. De olho no produto, os novatos habitantes da terra comentavam a novidade dos gaúchos. As matas da região eram pródigas em plantas do gênero. Não tardou em aparecer incentivadores na colheita das folhas de erva mate e na construção dos barbaquá, também conhecidos por carígio. O Barbaquá era um prédio simples e singular de fácil construção. O risco de incêndio era alto. No centro do prédio existia uma cúpula construída com sarrafos fazendo uma grade em formato arredondado. Debaixo dela uma abertura donde vinha o calor da fornalha conduzido por um túnel de dez metros cavado na terra. O túnel era feito de forma a conduzir o calor e eliminar qualquer fagulha vinda da fornalha. A centelha não podia chegar ao secador. Caso chegasse, o carígio seria tomado pelo fogo em poucos minutos. Assim se dava o processo de secagem das folhas da erva mate. Em anexo a construção existia a moenda e o pilão dentado preso no centro de um depósito circular onde eram jogadas as folhas secas. O pilão cônico era tracionado por uma mula pelo lado de fora do depósito circular. O movimento do muar girando o triturador era contínuo. A besta circulava horas e horas nesse processo mecânico. Assim as folhas eram picadas pelo girar do pilão dentado de formato cônico, até atingir uma granulação adequada ao consumo. As carroças no vai e vem mais pareciam fantasmas verdes vagando nas estradas carregadas de arrobas de folhas quebradiças. Este era o mundo imigrante da cucagna que aos poucos começava aparecer na sua dura forma – fazer fortuna na terra nova com o seu próprio trabalho. A cucagna tinha nome: Fà-te-la. (Faça-a você mesmo)
