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Plinio Mioranza
Plinio Mioranza
Empresário
plínio@mp.com.br

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Acesso Restrito

O Sonho Americano

Enviado Sexta-feira, 23 de janeiro de 2009 às 17:07:13 | Nenhum comentário »

Pietro e Luigia sonhavam quando os promotores do armador brasileiro Costa Pinto entraram em Belluno. Eram vendedores de sonhos. O armador precisava cumprir o contrato estabelecido com o império brasileiro no devido tempo. A lotação da nave para travessia do Atlântico em direção a América era o que importava. A população da pequena cidade, trabalhava pela sobrevivência deles e dos filhos. Estes se apresentavam em fila indiana a cada onze meses. Exprimidos entre as montanhas alpinas, Pietro e Luigia ouviam os reclamos dos vendedores de sonhos. Os folhetos dos promotores anunciavam a terra da abundância e da fartura. Alimentavam o imaginário do novo casal. Sonhar com um pedaço de terra era a glória. Os parentes resistiam à aventura para o além mar. A debandada em massa crescia a cada dia em direção a Verona, local dos escritórios centrais da empresa promotora. Era o país fragmentando a própria população pelo porto de embarque. Os jovens casais alimentavam a fantasia e construíam no imaginário um mundo novo. Só assim deixariam mais espaço para os que ficavam. A necessidade falava a linguagem da sobrevivência do grupo familiar, mesmo fazendo uso da renúncia do solo onde tudo aconteceu. A decisão era dramática e dura, porém, necessária. As montanhas alpinas pareciam soldados brancos, eternos guardiões das fronteiras itálicas. Permaneciam lá, como testemunhas dos que partiam. Os amigos e parentes se agrupam e iniciam a longa marcha. Os personagens sonhadores sabiam que a terra onde os viu nascer foi palco de batalhas sob um duro império Austroungárico. O domínio durou uma vida. Porém deixavam o cenário belo e maravilhoso em troca de uma aventura em outro hemisfério repleto de incertezas.

O Oceano Atlântico foi o caminho de todos e cemitério de muitos.  Com uma cruz desenhada no lençol branco, Pietro e Luigia sepultam o primeiro sonho. Foi para o fundo do oceano o que tinha de mais caro - um anjo. Era o preço da aventura que começava desabar. Só as almas fortes resistiam. As lágrimas de Luigia e dos irmãos Domênico, Francesco e Antônio se perderam nas águas.  Com essa desventura decidiram esquecer o caminho de volta. O chão firme era a segurança que renascia a cada pisada.

A paisagem bonita, era uma maravilha verde de esperança. Porém, a natureza virgem tinha seus segredos. O intruso era o homem. A reação dela era silenciosa. Os novos ocupantes carregaram a viagem, penaram a chegada e venceram a terra. O sonho estava aí. Era real. O alimento para o fogo estava ali pronto, já era um consolo. Os caules das videiras, trazidas junto aos pertences, penetram o solo. A terra respondeu com a força do novo. As ferramentas cortantes sibilavam nos bosques enquanto os instrumentos do carpinteiro roubavam o silêncio. Tudo era novo: a floresta densa, o cheiro, a umidade, o vento forte, o verde escuro, o sol forte, as nuvens grossas e o horizonte distante. A pequena casa nasceu do braço carpinteiro. Foi nesta pequena casa  que se completou o cíclo familiar.

Luigia, pertencente a um clã abastado, rememorou os questionamentos dos irmãos quando jovem - por que casar com o carpinteiro Pietro? “Lê poareto!”

A resposta de Luigia foi sempre a mesma, direta e singela: “el me piaz”.

Longe da escassez primitiva, Luigia construiu seu sonho em Nova Veneza. Foi com esse sonho da bisnona que eu nasci.

Marco Bortolai – Andarilho ou profeta?(XVI)

Enviado Segunda-feira, 19 de janeiro de 2009 às 09:19:23 | Nenhum comentário »
Marco Bortolai sempre foi reconhecido como o Andarilho de Nova Trento. Ele tinha paixão pela cidade pacata, encravada entre quatro morros. Não gostou da troca do nome do município, porém, admitia que, só erra quem faz. Muitas vezes rabugento e de pouca paciência, destilava um rosário de impropérios sobre quem o contrariava. Não parava de contar o que viu em Buenos Aires, por ocasião da visita que fez ao irmão.  Foram ao hipódromo  e assistiram as corridas. – “ Las Carreras” como diziam os portenhos. Os aficionados pelo esporte eqüestre só falavam no cavalo branco. Todos apostavam no bendito cavalo branco, considerado o favorito do certame. Como o cavalo branco não apareceu no prado para o evento, pintaram de branco um outro cavalo e o colocaram na raia para a competição. As apostas corriam soltas calcadas no perfil vencedor do cavalo branco. Deu azarão! O cavalo branco perdeu. O dinheiro das apostas ficou com o autor da façanha, dono do cavalo preto vencedor.
Quando percebia que o assunto era duvidoso o Andarilho repetia:
- Cuido com o cavalo branco argentino! I argentini i zê furbi! Eles gostam de falar para os outros e não com os outros.
O Andarilho observava o comportamento daquele povo, porém, não compartilhava com o pensamento deles. Por isso nunca mais voltou. Porém, reconhecia neles valores humanos permanentes.
De quando em vez, entrava em algumas rusgas e o delegado Borba o trancafiava na parte interna da prisão e o deixava ali por um ou dois dias, até passar a brabeza.
Certo dia, num diálogo com o delegado afirmava convicto:
-Aqui na prisão está bom, seu delegado. Tenho comida e tenho pouso. Está como eu quero. Não custa nada.
O delegado, trajando um terno branco e óculos escuros, olhava o Andarilho e repetiu:
-Aqui não é moleza não! Quem acostuma passa mal! – Foi aí que a dentadura superior do Delegado voou para o chão. Marco, gentilmente juntou-a com a ponta da bengala e a pôs ao alcance da mão. Prontamente o desastrado a recolocou no lugar onde nunca deveria ter saído.
Marco retrucou:
- O senhor Delegado está bem trajado de terno branco. Está como um rico, porque pobre só usa terno quando vira defunto.
A autoridade policial não respondeu, pois, estava às voltas com a dentadura que não parava no lugar.
O Andarilho baixou a cabeça e se mandou para a rua principal em direção a igreja. Subiu as escadarias e foi apreciar o presépio. Olhou para o “bambim”, e lembrou dos filhos pequenos. As faces colhiam as lágrimas que se espalhavam entre as rugas de um rosto marcado pelo tempo. Admirou a vaca do presépio que se movimentava a cada moeda que caia no cofrinho, agradecendo com o movimento da cabeça em sinal positivo.
O Andarilho era homem de pernas de aço. Não parava. O movimento era o sangue do caminhante. Lá foi ele para o Travessão Rondelli, na casa que o esperava. A noite se encarregou de acolhê-lo para o descanso.
No alvorecer correu o potreiro para laçar a mula preta. Precisava viajar para Nova Trento. Colocou um pelego no dorso do animal e saltou sobre ele no sentido inverso e se mandou para a cidade. Coisa mais esquisita era ver aquela figura cavalgando a montaria de costas. A população já estava acostumada com a figura andando daquele jeito.
Na cidade ia direto ao fabricante de carroças o seu Olímpio Cavagnoli.
O carroceiro tinha como serviço complementar - colocar ferradura
em animais de tração. Bortolai era um velho cliente. O ferrador, um funcionário de estatura mediana, cabelos ondulados, cheio de vontade. Conhecia o cliente. A ferradura era especial para o seu Marco, portanto única - ferro com a borda dianteira levantada para a proteção da parte frontal dos cascos. A ação de ferrar era feita em posição genuflexa, apoiando a perna dianteira do animal dobrada sobre o joelho. E as pernas traseiras, presas entre os joelhos. No término do serviço, a moeda dourada de um patacão caia nas mãos do aprendiz Lourenço Castelan. É nesta hora que Marco relata ao ferrador que a loja do Pedro Soldatelli estava vendendo uma capa “impermiabile”. Na cidade todos falavam do novo produto que não molhava. Foi ali que o Bortolai julgou ser importante comprar a dita novidade porque diziam que até água nos bolsos era possível levar. O rapaz incentivou a compra porque era impermeável a água, mais segura que pipa de vinho.
- Posso levar água nos bolsos e ir até Caxias e quando tiver cede, com um copo no outro bolso, posso matar a cede. É fantástico, repetia!
Assim passou o resto do ano com a indumentária “impermiabile”de marca Ideal.Na imprestabilidade, retirou-a aos gritos: Você faz parte do fósforo riscado!
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