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Colunista
Plinio Mioranza
Plinio Mioranza
Empresário
plínio@mp.com.br

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Acesso Restrito

El Tabachim

Enviado Sexta-feira, 28 de novembro de 2008 às 15:22:22 | Nenhum comentário »

El Tabachim, homem do interior, tirava o seu sustento da terra e do pequeno moinho movimentado pela roda d´água encravada na cascatinha do Rio 80. Vivia do que plantava e colhia o que semeava. Era o que sabia fazer. O ciclo agrícola se confundia com o ciclo da própria vida. Era mestre da foice, da enxada, da foicinha de cortar trigo e linho. Levava os filhos no tento. Um olhar era suficiente para manter a disciplina.

El Tabachim era um homem de estatura pequena, portava no bolso direito uma rincha - um canivete de bolso em formato de foice - e no da esquerda uma tabaqueta. A tabacheta era uma caixinha de rapé, feita de chifre de boi, não maior que uma ostra. Pelo uso freqüente de rapé, o colono da localidade de Coiudo, levou o apelido de Tabachim.

Todos os dias, antes do dia clarear, o cheiro de café exalava do bule esmaltado sobre o tripé do larim. Aos primeiros raios do sol a turma já estava na roça. Às 8 horas da manhã chegava “el bocha” com uma cesta de café reforçado à base de leite, vinho, pão, fortaia e polenta. El Tabachim já ia avisando:

- Se alguém tiver algo a comentar, esta é a hora. Depois é só o tilintar das ferramentas na roça de milho.

As clareiras abertas na floresta infestadas de cobras, ratos e mosquitos eram vencidos pelo fogo. O fogo foi um elemento importante na eliminação de insetos agressivos, répteis peçonhentos e outros transmissores de doenças próprias da natureza até então intocada.

O nativo das florestas, o bugre, era o primitivo presente em diversos lugares do interior. Com a presença dele o colono tinha duas alternativas: vencê-lo ou conviver com ele. Esta última alternativa não teve sucesso pelo comportamento arredio e agressivo do primeiro e o medo do desconhecido do segundo.

Tabachim era corajoso, não tinha medo de bugre que atormentava a vida dos colonos da região, principalmente os colonos que ocuparam as colônias nos confins do Travessão Sertorina. Na localidade contavam histórias do arco da velha sobre as ações dos bugres contra as famílias dos novos ocupantes das terras. Os bugres habitavam as grotas, lugares de difícil acesso. A mata e as grotas eram armas de defesa dos primitivos. Quando atacavam os habitantes recém chegados, metiam medo em todo o mundo.

Giovanni De Carli ocupou uma das  últimas colônias do Travessão Sertorina. Com os ataques dos bugres perdeu dois filhos homens numa investida dos índios. Dos três filhos homens, a mãe conseguiu salvar o menor Antonio, escondendo-o debaixo da saia. Eles só atacavam os homens. Consideravam covardia atacar mulheres, crianças e deficientes físicos. Foi por isso que Giovanni  De Carli  teve poupado um rapaz portador de deficiência física, acolhido pela família porque  estava só na descida do navio no porto de Santos. Como não tinha ninguém por ele, o seu Giovanni compadeceu-se com o inusitado abando do rapaz pela família. Juntou-o aos filhos e levou como seu. A solidariedade estava entro deles.

Esta virtude o imigrante trouxe para o novo mundo.  Está aí à vista de todos. Esta é a Serra Gaúcha. A colônia italiana é única. Tem “modus vivendi” próprio. El Tabachim também aprendeu a inovar para sobreviver e conviver na terra do novo Continente. O homem solidário transformou a região numa terra de gênios do labor. Assim a velha tabacheta cedeu lugar ao novo, sem deixar de registrar a sua própria história.

Marco Bortolai – Andarilho ou Profeta? (XV)

Enviado Sexta-feira, 21 de novembro de 2008 às 15:58:38 | Nenhum comentário »
Marco Bortolai, homem intrigante, firme nas posições e sem meios termos. Era um eterno viandante. Ele, a terra e o sol, o resto tudo era platéia. Aos domingos na rua em frente à igreja da cidade ameaçava discursar:
- “Mai star soto lê cótole dei preti !”  
O conjunto de sinos franceses do alto do campanário erguido em basalto, burilado pelas mãos de Nani Fermo, repicavam chamando os fiéis para a missa dominical das dez horas. Todos olhavam o velho Andarilho como quem dizia:- “Lê um poro gramo”. Em contraponto ele já saia dizendo:
- O sonho é percebido só depois que se acorda.
Caminhava pelas ruas riscando o chão empoeirado com o bastão de camboim. E a população domingueira só observando o comportamento do velho Andarilho.
Embora fosse um crítico duro das autoridades, mantinha uma linha de respeito com elas. O vigário, o prefeito, o doutor e o delegado eram as personalidades de ponta do município. Marco Bortolai nunca passou por uma consulta médica. Nas emergências socorria-se de remédios caseiros. Conhecia o Dr. Antonio Gonzáles por ser possuidor de automóvel Ford V8, bronco, sempre transitando em alta velocidade. O médico estava sempre em atendimento de urgência. A velocidade estava no sangue. Pelo ronco do motor do V8 todos sabiam que o doutor estava em trânsito. Antonio Gonzáles pessoa de poucas palavras, olhar penetrante, econômico no sorriso e fino observador. O Andarilho não se aproximava dele por medo de ser chamado para exame. Só ouvia falar de doença nos outros. Estava vacinado contra tudo. Se alguém perguntava sobre a saúde ninguém ficava sem resposta:
- A melhor medicina é a natureza.
Mascava erva doce colhida na beira das estradas. Comia a raiz de radicci do mato e outras ervas de perfume e sabores fortes. Para ele tudo era remédio. E repetia aos gritos:
- A floresta é a grande farmácia do bugre! Ele só morre na velhice, depois que o esquecimento entrar nele!
Certo dia andando pela estrada, não conseguia acelerar as passadas porque a idade estava presente na caminhada. O peso da idade já se manifestava com vigor.  A noite chegou e não teve alternativa, pousou dentro de um capitel que estava acostado num barranco à beira da estrada. O espaço era pequeno, mas, suficiente para não ficar no sereno. Olhou para a estatueta de São Miguel Arcanjo e estabeleceu-se um curto diálogo entre os dois:
- Este lugar dá para nós.
Pôs a mão sobre o ombro do Anjo e inclinou a cabeça para frente em sinal de proteção. Sentou, encostou a cabeça sobre os joelhos em posição fetal e se cobriu de sono até ao amanhecer sob as asas do Anjo do capitel.
No dia seguinte, acordou já de sol alto. Viu-se envolto numa nuvem de gafanhotos que aterravam na plantação de trigo ao lado. Um exército de saltitantes esfomeados, em poucas horas, do trigo sobrou só o canudo.  
O Andarilho de bastão em punho tentava espantar a praga egípcia. Não se deu bem como espantalho.
- Praga é praga! E andava pela estrada exclamando:
-Gafanhoto é como os políticos, multiplicam-se a cada revoada.
Entrou na cidade de Nova Trento gritando: - Morte a lê cavalete!
Plínio Mioranza(plínio@mp.com.br).
 
 
  
 
 

Obama

Enviado Segunda-feira, 17 de novembro de 2008 às 11:30:33 | Nenhum comentário »
 
A eleição do novo presidente dos Estados Unidos da América do Norte, o candidato Barck Obama, obteve uma espetacular vitória eleitoral. Sobre o fato podemos tecer alguns comentários.
Como estudante de língua inglesa, “my little teacher”, Eliane de Castilhos orientou os alunos que para falar o inglês é importante ir acostumando o ouvido. Ouvir música na versão de letra em língua inglesa ou conectar canal de TV CNN americana, são bons exercícios. Escolhi a campanha eleitoral americana para o treinamento. Vou relatar o que pude entender da campanha eleitoral do vencedor que eu acompanhei pela televisão. Não vou fugir à regra milenar - a história sempre é contada e escrita pelos vencedores. Aqui vão alguns tópicos da campanha do vitorioso nas urnas.
Há de se considerar que a trajetória do candidato iniciou com a vitória nas primárias do partido, competindo com um outro candidato, nada menos que Hilary Clinton, primeira dama, detentora de uma cadeira no senado pelo partido Democrata e de uma visibilidade extraordinária, o que valorizou ainda mais a vitória do candidato.
A segunda vitória foi sobre um candidato não menos importante como o republicano McCain, com uma história de herói de guerra, e também uma vitória sobre um partido de forte cunho tradicional e de boa estrutura partidária.  
O novel candidato inovou na arrecadação de fundos para a campanha. Lançou mão de um instrumento que ele mesmo usava desde a juventude para se comunicar no seu raio de ação - a internet. Construiu uma rede de comunicação com o seu eleitorado onde conseguiu canalizar um volume de pequenas quantias em tamanho suficiente para bancar a campanha.
Enquanto as grandes fortunas se debatiam na crise, a população derramava via eletrônica suas pequenas quantias no cofre de Obama.
Convenceu a população eleitora de que nos Estados Unidos tudo é possível.
Sem tocar no assunto racismo, quis alijar de vez o estigma da cor que o americano aos poucos está vencendo. Nesta área ele foi contundente – o silencio foi mais forte que as palavras deixando o seu oponente sem munição.
E, ao mesmo tempo mandava uma mensagem aos que se sentiam discriminados - não importa a cor, vá à luta para vencer!
Percebeu que a população estava disposta a fazer a aposta no partido encabeçado por ele, e, principalmente nele.
Colocou a pedra angular da política americana do mandato que iniciará em 2009 - a diplomacia estará acima das armas. Só em última instância a força será instrumento de defesa dos interesses dos Estados Unidos da América no mundo.
Tem a consciência de que a população apostou tudo no partido e principalmente nele. E as respostas deverão ser lentas e graduais para que a confiança não desmorone diante de uma crise financeira que teve o nascedouro no próprio país. Terá que descobrir o tamanho do problema para atacar o foco do mesmo. Este será o primeiro passo. E nenhum movimento fará para frente sem arrumar a casa.
A América Latina não deve esperar muito dos nossos irmãos do Norte porque terão que colocar a locomotiva em velocidade suficiente para tirar o país da crise. Mas o recado continua o mesmo - Não espere pela caridade dos outros, vá à luta para vencer e celebrar a vitória.
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Marco Bortolai – Andarilho ou Profeta? (XIV)

Enviado Segunda-feira, 03 de novembro de 2008 às 14:28:10 | Nenhum comentário »
Marco Bortolai, o andarilho mais conhecido de Nova Trento,nas suas andanças percorria todo interior do município. Passava pelas casas das famílias com uma freqüência impressionante. Os olhares das crianças perseguiam o homem de saco às costas caminhando pela estrada toda pontilhada de penachos brancos das macegas.
Andando pela Vila da Linha 80, observava os salões enfeitados com fitas coloridas. A localidade era famosa na década de l930. A Vila tinha uma intensa vida comunitária. Estava na vanguarda social da época. Dois salões de baile - o do Uliam, localizado logo após a ponte do Rio 80, e o outro dos Tibola, na Linha Coiudo. Duas capelas - uma de Santo Antonio e outra de Nossa Senhora. Aos sábados, o baile era a marca da localidade. Os dois salões agitavam a noite. A localidade ficou famosa pela afluência dos jovens da época - os bailes fluíam e varavam a noite. Aos sábados o bailado era compromisso de toda a juventude da região. Os melhores cavalos desfilavam pelas estradas em direção a Linha 80 com seus cavaleiros em trajes domingueiros.
Os padres mantinham um controle rígido sobre o movimento juvenil para manter em alto nível os bons costumes. Era voz corrente do clero que a localidade estaria mais para “bordel” do que para salão de bailados sociais. O Andarilho contrapunha esse ponto de vista com firmeza:
- “Dançar é saborear o movimento em comum.”
Mas, não tirava de todo as razões do clero.Era missão dele zelar pela boa conduta e formação da juventude. Alguns fabriqueiros, inspirados por alguns salvadores de almas mais radicais, queimaram as sanfonas dos animadores das festas noturnas. O cheiro de sanfona queima se espalhou como incenso. No sábado seguinte vieram gaiteiros de todos o lados. Até da Criuva acorreram sanfoneiros para que o baile não parasse. E a festa engrossava e rolava a noite inteira.
Foi nesta mesma localidade que num certo dia armou-se um temporal. As nuvens eram negras e os ventos fortes. Uma Águia levada pelo vento, pousou num pinheiro perto da casa do seu Fermínio Sareta. Vendo a ave, o seu Fermínio armou-se com um "espera-um-pouco" e lá foi ele dando tiros. Feriu-a numa das asas. Não podendo voar, veio ao solo. O seu Fermínio pôs o enorme pássaro numa gaiola e não teve dúvida em exibi-lo em Caxias do Sul na praça Dante, cobrando um valor para tanto. Depois de faturar o suficiente, vendeu a águia para o dono de um circo que passava por Caxias do Sul. O seu Uliam passou a informação para o seu Marco Bortolai e este, transmitia o caso para todas famílias por onde passava e gritava:
- Vocês viram “El osel de Sareta”? 
Também tecia comentários sobre as festas de fim de semana na sociedade da Linha 80, onde as beatas e beatos classificavam o local como “El bordel”. A conversa durou pouco com o seu Ulian. Poucas palavras foram suficientes para encaminhar o Andarilho nas bandas dos Cassol em Otávio Rocha.
Lá contemplava a cascata no meio da floresta. Passou horas contemplando a água rolando penhasco abaixo num turbilhão de vapor que borrifava o rosto do profeta. Gritava:- El Bus de Cassol ! Por entre as montanhas o rebote do eco dos gritos se encarregava da resposta. 
O Andarilho enveredou por uma pequena estrada até chegar no Travessão Sete de Setembro. Após uma semana de chuvas fortes,na colônia da viúva Guarês, a montanha se partiu em dois. Uma ruptura impressionante. Ficou visível a fenda de mais de um quilômetro de extensão. A população apelidou a enorme fenda,de “el creppo della Vecchia Guaresa”.
Marco perambulava pela estrada cantarolando uma canção que estava dentro de si que brotava dos lábios carnudos do Profeta - Le tre mareveie de Nova Trento:
 -“El bus de Cassol,
 -el osel de Sareta
 -el crepo de la vecchia Guaresa”.
Caminhava pela estrada em direção a São Liberal de Serra Negra, enquanto as famílias ribeirinhas olhavam o Andarilho cantando versos de fazer rir até as galinhas. No trajeto trocava as porteiras das propriedades dos Bulla com as dos outros vizinhos criando confusão em São Liberal. Estes o chamavam de "dispetoso", pois, semeava a encrenca nas vizinhanças.
Passou pelas terras de sua propriedade e se mandou para casa onde a mulher o aguardava com uma “fortaia” e pão recém saído do forno. Matutava com sigo mesmo: caminhar muito, dormir pouco, sonhar e não esquecer nada, porque esquecer é morrer aos poucos.
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