| Home | Notícias |
Colunas e Blogs
| Sobre a Gazeta | Anuncie | Assine | Fale Conosco |
Newsletter

Cadastre-se na nossa newsletter e receba as notícias em seu e-mail.

Colunista
Plinio Mioranza
Plinio Mioranza
Empresário
plínio@mp.com.br

Outras Colunas
Acesso Restrito

Marco Bortolai – Andarilho ou profeta. (XIX)

Enviado Sexta-feira, 20 de novembro de 2009 às 09:51:09 | Nenhum comentário »

Marco Bortolai, o andarilho mais conhecido da região, homem de saco às costas e um bastão na mão direita era o espantalho da criançada e arma poderosa das mães para manter a disciplina da meninada travessa das famílias do interior.  Quando se ouvia a expressão “lá vem o velho do saco” o mundo infantil arregalava os olhos e se punha em posição de obediência absoluta. O andarilho já carregava as marcas do tempo e se transformava lentamente numa figura grotesca. De vestimentas surradas e sobrepostas dava a impressão de uma alma perdida. Andava pelas estradas de Nova Veneza e pelas colônias do interior de Nova Pádua pelos lados do Travessão Leonel falando sozinho como um vivente sem destino. As rusgas em que se metia eram desconcertantes. Já era conhecido o seu comportamento estranho e difícil. Era um rebelde sem causa. Assim mesmo a população relevava porque em momentos de equilíbrio pleno era cordial. Nas cercanias do Belvedere, num dia de sol pequeno e as nuvens riscando o céu com rabos de galo, se aproximava da casa do nono “del capel della pena rossa”(o avô de chapéu da pena vermelha) um vendedor de velas. Convenceu o homen de cabelos brancos a comprar o produto que estava nos fardos pendurados nas cangalhas das mulas. O vendedor ambulante, também chamado de “el árabo”,  tinha muita estrada. Era de uma habilidade extraordinária em cativar a atenção chegando às raias da hipnose, porém, superficial. Fazia um nó no cérebrodo dos interlocutores. Explicava ao nono que viria uma escuridão durante três dias e três noites. Só as velas bentas que ele estava vendendo ficariam acesas. O nono era de uma extraordinária simplicidade acreditava e comprava o lume de parafina. Com esse apelo fantástico o mascate fazia a festa comercial. Pela estrada andava o andarilho de todos conhecido. Quando o mascate se deparou com Marco Bortolai a oferta veio pronta.  Ao ouvir o vendedor, percebendo a armadilha, o andarilho levantou o bastão e pôs o homem a correr chamando-o impostor e mentiroso. Queria que pedisse desculpas aos colonos e devolvesse o dinheiro.  E gritava:                                                                                                                                                                - Pedir desculpas e reconhecer o erro é um ato de grandeza! Não dói!                                                  O mascate enveredou pela estrada em disparada desaparecendo na primeira curva em direção a Nova Trento. Teve que fazer uma longa caminhada para chegar até Caxias e tentar outros mercados porque a conversa da vela benta estava com a validade vencida. 

O Segredo do Casulo

Enviado Sexta-feira, 06 de novembro de 2009 às 17:46:41 | Nenhum comentário »

O imigrante italiano ao chegar à terra nova contou com a ajuda da companheira de toda a hora para vencer as dificuldades e celebrar as conquistas.  Este mesmo imigrante, com o próprio esforço dominou a natureza, até então intocada e tirou dela o seu próprio sustento contando com o braço forte da mulher. As dificuldades foram vencidas e oportunidades aproveitadas. Se a natureza era pródiga o imigrante não esperava só por ela. A mulher, no seu recolhido silêncio, saiu do casulo e foi à luta.

 Na saída do século, em dezembro de mil oitocentos e noventa e nove, um grupo de mulheres preparava uma longa viagem. Como diria Dostoievski - “mulheres saudáveis, vicejantes, de ombros surpreendentes, busto imenso, braços fortes como de homem e, é claro, por terem força e saúde às vezes gostavam de comer bem o que não tinham a menor vontade de esconder de se alimentar bem.”

 As senhoras da elite porto-alegrense pagavam um sobre preço para obter leite materno. A carência na área era geral. Muitas famílias de boa estrutura econômica contrataram recrutadores para a tarefa de levar à capital as mulheres de imigrantes italianos. A função de amamentar filhos de outros casais era conhecida no meio imigrante por “ndar a baier” e “ndar a bàlia”. A expressão dialetal italiana foi além da amamentação - estava em outra dimensão humana. Porém, não era desprezível a recompensa financeira.

O grupo feminino varava a madrugada em longa caminhada, seguindo a trilha dos tropeiros e mercadores serranos em direção ao sul até a sede do município São Sebastião do Caí onde deixavam as montarias na estalagem do alemão. Embarcavam no vaporeto que deslizava sobre as águas turvas do rio Caí, entrando num mar de água do rio Guaíba em direção à capital.  A igreja bem no alto da colina domina a paisagem. O mar de água do rio Guaíba trazia à lembrança a travessia do Atlântico. As lágrimas anunciavam a saudade dos familiares que ficaram do outro lado do oceano.

O mordomo, postado à frente da carruagem tracionada por dois cavalos, aguardava no porto dos casais. O veículo preto de assentos em veludo púrpura levava as jovens mulheres aos casarões ao lado da praça central onde moravam as famílias da elite da capital. A recepção feminina era de fino trato. Conduzidas aos cômodos da amamentação, as ordenanças levavam as crianças aos braços das amas-de-leite e seguia-se o rito da amamentação. Esse ritual se repetia quatro vezes ao dia durante dois dias. Era o tempo de permanência na capital. Terminada a tarefa e recebida a recompensa em moeda sonante retornavam ao porto. O barco a vapor  deslizava como flecha sobre a lâmina d’água do afluente do Guaíba até o porto de São Sebastião do Caí.

Na casa de pouso do alemão preparavam as montarias para o retorno. Chegavam pessoas de todos os lados. Cada grupo trazia consigo o próprio falar. Era uma babel à beira do rio.  Viajantes, tropeiros e vendedores de todos os falares se aglomeravam no pequeno porto fluvial . As mulheres venezianas, embora tomadas de timidez, olhares de soslaio aconteciam. Os galanteios dos moços loiros e morenos corriam soltos. A explosão da natureza humana marcava presença no vai e vem da multidão em direção ao rio.

De montarias prontas as mulheres venezianas atropelavam o retorno. A volta era só alegria. O tagarelar do grupo ecoava na estrada íngreme da floresta só interrompido pelos gritos dos gaúchos tocando cargueiros enfileirados serra abaixo. O retorno era a celebração feminina e a aventura recompensada.

O trotear dos cavalos sulcava a trilha de retorno no giro de um sol e uma lua.  No topo do morro, comemoravam a volta.  A lua e os lampiões enfileirados se espelhavam nas águas dos prados alagadiços de Nova Veneza.  A natureza exuberante, o ar puro, as águas cristalinas eram lembranças dos vales alpinos e do rio Piave deslizando entre as montanhas brancas onde a vida começou. Enquanto a saudade se esvaía no espaço e no tempo, a natureza, como o casulo, escondia o segredo no próprio silêncio e fazia nascer loiros e morenos.

Veja mais  Min: 15 - Max: 22
» Busca
 
Empregos
 
 
Home | Notícias | Colunas e Blogs | Sobre a Gazeta | Assine | Anuncie | Fale Conosco
Copyright 2010, Gazeta de Caxias. Fone:(54) 3027-1996| Política de Privacidade | Termo de Uso | Mapa do Site