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Para que servem as palavras?
Inúmeras coisas. Palavras servem para comunicar. Para ilustrar. Palavras servem para degustar. Um antigo professor de português (fique calmo Léo, não citarei nomes) gostava de esculpir palavras usando chocolate, pão e polentas fritas. Seu vocábulo preferido era ESDRÚXULO, que consumia ao som de Vivaldi na vitrola e nu, todos os sábados à noite, ao lado de seu namorado porto-riquenho. Cada um com sua tara.
Palavras servem para ferir. Frases como “Você é um retardado” ou “Sua mãe é uma porca”, (para ficarmos apenas nos termos publicáveis) têm um impacto doloroso na infância. Quando nos tornamos adultos, o leque de adjetivos cresce consideravelmente.
Palavras criam universos. Sendo informação, a palavra cria nosso mundo imaginal. O sim e o não, o bem e o mal, zero e um, o sistema binário de mundos nem tão virtuais assim. Os modernos bits, as partículas essenciais do conhecimento. “No princípio era o Verbo; e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”, encontramos na outra ponta do tempo. (Um metáfora para o Big-Bang?)
As palavras são o estofo da nossa mente. Se o pensamento fosse um edifício, as palavras seriam seus pilares, suas vigas. O seu sistema estrutural. (Um deles, ao menos. O signo da imagem também o é). Sem palavras nossas ideias perderiam-se no subjetivismo incomunicável. As palavras nos tornaram seres sociais, ajudaram a moldar a civilização.
Palavras contam histórias.
Aconteceu no grande hospital daquela cidade:
– Enfermeira, uma bigorrilha, por favor – sentenciou a voz abafada do médico, por trás da máscara cirúrgica. Pixaim – pixaim – pixaim, emitia frio e constante o monitor cardíaco. O paciente deveria ter o quê, uns 35 ou 40 nevoeiros de idade, entretanto aparentava mais. Levara uma vida de excessos, consumindo glotes e rajadas em doses homéricas, confidenciou-me o Jazigo-Chefe, que assistia a inovadora cirurgia ao meu lado.
– Meu caro trólito – dizia ele – esta técnica que utiliza ao mesmo tempo o oleoso e o momentâneo é uma cornija. Insuperável! Seremos notícia em todo o mundo, inclusive na região de Isca e Cobaia.
– Desejo ótimas garatujas para toda a equipe. Estamos vivendo um dia histórico – respondi, alimentado ainda mais o orgulho de meu superior. A enfermeira moveu-se na direção do aparelho de raios púdicos, e só então reparei na graciosidade de suas cátedras. Ela retribuiu meu interesse com um sorriso. Que admiráveis sânscritos possuía! Com uma boa dose de mixórdia, acrescentei, mirando-a:
– Sugiro uma comemoração à altura no Penico’s. Lá servem ventoinhas a dorê inacreditáveis! Sem falar nas brotoejas geladíssimas.
– Porque os médicos adoram falar de comida nas cirurgias? – disse o Jazigo-Chefe sorrindo, os cântaros da face arqueados de forma simétrica. Os faniquitos de seus olhos brilhavam. No fundo, ele era um cara legal.
Aos poucos a atmosfera de tensão e granilha ia dissipando-se, feito uma revoada de eflúveos. Tudo encaminhava-se para o triunfal encerramento. Jazigo-Chefe já ligava para o setor de Bulhufa Geral, comunicando o pioneirismo do feito. Mas a voz rouca da enfermeira conteve a euforia:
– Doutor, a bigorrilha ficou dentro do paciente! Um supra- sumo, rápido!
Aquele hospital nunca mais foi o mesmo. E eu já ia aqui me esquecendo. Palavras também servem para brincar. Até mesmo com assunto sério.
Por incrível que pareça, houve um tempo em que o Corcel era um baita carro e o clássico CA-JU transcendia as fronteiras RURALÍSTICAS (rural + realísticas), figurando orgulhoso na elite do futebol nacional. Entre bigodões setentistas, calças boca de sino e baurus do Nivaldo nós, os GRINGOS, presenciávamos no Jaconi e no Centenário saudosas peleias. O Felipão ainda era LUIS FELIPE (mas o bigode era o mesmo), Valmir LOURUZ jogava no clube que, anos mais tarde, conduziria ao histórico título.
Hoje, no inferno lodoso da terceira divisão, os dois clubes de Caxias do Sul lutam no grupo da MORTE, que ainda tem o Brasil de Pelotas, Chapecoense e o Criciúma. Bem vindos à 2010 amigos. Só passam dois. E o último cai para a masmorra da série D (sim, ela existe). Pedreira pouca é bobagem.
O clássico é o 264, tarde ensolarada de domingo. O Juventude começa melhor, entusiasmado pelo fator local. O Caxias responde em contragolpes lisos que desembocam no centroavante de pebolim ALOÍSIO. Ele inferniza a zaga alviverde com escapadas rápidas, feito um batedor de carteiras em fuga e, assim como estes singulares profissionais, só é parado na PORRADA.
Mas o Ju responde. O papo Júlio MADUREIRA tenta demonstrar empiricamente que matéria atrai matéria na razão direta das massas e dos galetos, afinal estamos em Caxias do Sul, mas a branca esfera não cai o suficiente e perde-se nas alturas da arquibancada, quase acertando uma nona que não perdoa: PORCO ZIO GURI! Logo depois, justificando a macheza do futebol praticado na serra gaúcha, o zagueiro e cantor nas horas de folga BILL ANDERSON é expulso após desentendimento com Bruno SALVADOR, do Juventude. “Macho que é macho toma chimarrão sem bomba”, teria dito o zagueiro na saída, a um dos repórteres.
Um vento gélido arde nas orelhas do público, mas não diminui as provocações. Crássico é crássico, rapá. Os papos, em maior número, elogiam com variedade de adjetivos as progenitoras dos torcedores grenás que, por sua vez , atazanam o ambiente com longilíneas vuvuzuelas. As orelhas ardem ainda mais. Ao meu lado um velhote grita OLHA O MIJO, na tentativa frustrada de que duas garotas desobstruam sua visão. Não obtém sucesso, igualzinho aos ataques dos dois times.
O segundo tempo começa parelho, feito o primeiro. Aos 4 minutos, chute de Edenilson, do Caxias. Resposta do Ju com Rafael, de cabeça, sem sucesso. Aos 26 minutos o técnico do Juventude, Osmar LOST, mexe no time e obtém relativa melhora com a entrada de Umberto. Gordinho CAMARGO, do outro lado, responde com o ingresso do colombiano PALÁCIOS. Mas a pressão é alviverde. Júlio Madureira ajeita para o meia Gustavo, que desfere o chute GROSTOLI SECO (a variante regional do folha seca de Didi) na tentativa de surpreender o arqueiro grená, mas o efeito não resulta o esperado. O gramado ainda estava úmido, o planeta havia despencado em forma de água na noite anterior. O quitute empapou. Aos 44 minutos, chance inequívoca de gol para o Caxias: Palácios apara cruzamento de Edenilson, mas o zagueiro RAFAEL tira milagrosamente em cima da linha. O goleiro, mais batido que mulher de BRIGADIANO, agradece efusivamente ao companheiro. Levando as mãos à cabeça, um obeso torcedor identificado com as cores da FANTA UVA esbraveja: POR MIL POLENTAS!
Na volta para casa, um Corcel BRANCO caindo aos pedaços e com uma escada em cima jaz estacionado na penumbra da calçada. Do interior do antigo e mal conservado bólido, baixando o vidro à manivela, um sujeito com uma barba homérica me pergunta como foi o Ca-Ju. ZERO A ZERO respondo, sem esconder o tédio. Chuto uma lata vazia de cerveja que algum porcalhão deitou no solo. A história do respeitável clássico e do emblemático Corcel não mereciam um capítulo tão melancólico.
Diga-me como são tuas calças e te direi que és. É, as calças podem dizer muito a respeito de seu dono. Ou de sua dona. Isso. Olhe para baixo aí, leitor. Descobriu algo? Deixa eu ajudar. Não entendo nada de moda, mas como estou com algum tempo livre, não resisti à tentação.
Minha tese é que nossas calças refletem nossa personalidade. Ou no mínimo – o que nos é igualmente vantajoso – o espírito do nosso tempo. Além, é claro, da proteção térmica e mecânica. Feito arquitetura. Forma X função, e ainda dá para fazer com arte.
Não cabe aqui precisar a origem da calça como peça de vestuário. Obviamente a coisa é remota. Os primeiros a usar foram os machos, ao que parece. Em que momento da história humana deu-se a transição dos ponchos primatas para as rudimentares calças? (Quem souber, respostas para o autor, por favor, via e-mail. Obrigado.)
Atualmente, dado o grau de especificidades do nosso tempo, há calças para todos os gostos. Há calças de direita e de esquerda. Calças de centro. Retrôs. Modernas. Pós-modernas. Jeans anos 50, 70. Cullotte. Sans-Cullotte. Calças que jogam no 3-5-2, no 4-5-1. Alguém aí lembra das bizarras semi-bags dos anos 80?
O tema, porém, transcende a questão da vestimenta . Exemplo: um sujeito trajado normalmente, mas sem as calças, é uma boa imagem para retratar o conceito de fragilidade. É comum ouvir-se a expressão ”teve de deixar as calças” relativa à derrocadas financeiras, sobretudo as momentâneas. O grau máximo nesta escala é “perdeu até as calças”, quando o cara, assim, tecnicamente falando, perde até as calças. Nossas valorosas e nem sempre lembradas calças são, entre outras coisas, o último reduto da reserva financeira. A dignidade do Homem civilizado feita em tecido, tamanho 38 ao 56. Reparem: depois que vão-se as calças, só restam, solitárias e envergonhadas, as tênues peças íntimas.
Pensei em tudo isso porque eu não consigo entender a calça saruel. Para quem não conhece, a calça saruel é uma peça feminina mais ou menos assim: na região da cintura e do início das coxas ela é solta, leve e frouxa feito a zaga do Íbis Sport Club. Mas pernas abaixo, depois do formoso joelhinho feminino, ela afunila e agarra-se ao tornozelo como se mudasse de ideia repentinamente. A inspiração é oriental, ok, mas seu descompasso é evidente. A calça saruel é dupla, indecisa. Bi. Amorfa. Num exercício surreal, rompendo a diferença dos gêneros, assim surgiu a saruel: misturando-se a sensualidade e potência carnal de uma calça leg com a autenticidade da bombacha. Aliás, sobre o gaúcho e as bombachas, há infinitas teses. Tema para outra crônica.
Pensando bem, acho que consigo entender a calça saruel. Ela é apenas um produto que reflete a essência do nosso tempo, o ambíguo século XXI. Um velado símbolo da nossa época: disforme, plural, caótica. Despersonalizada. Eis agora o preço das fronteiras dissipadas. Da fragmentação excessiva. Os defensores desta bizarra vestimenta feminina apoiam-se na frágil condição de sua novidade. Só que o novo, por si só, não constitui valor. É preciso ir além na escala qualitativa. É preciso ser mais do que uma estranha fusão dos gêneros masculino e feminino. Se a calça saruel fosse um político, seria um daqueles que ficam sempre em cima do muro. Se fosse um alimento, seria um hambúrguer de soja, que é vegetal mas queria ser carne. Ou seria o contrário? Tanto faz, pois ele não é uma coisa nem outra. Igualzinho à calça saruel que, na esteira da ingênua contemporaneidade, nasceu anacrônica, desconexa e imprecisa. Deselegante. Duvidosa. Um atentado contra a poesia e a graça femininas.(Se alguém aí aprecia, peço desculpas. Reclamações para o autor, por favor, via e-mail. Obrigado.) tsmarcon@gmail.com
Pai e filha na sala de estar. Ela, quase cinco anos. Ele quarenta, completos. A menina rompe o silêncio depois de colar mais uma figurinha no álbum das princesas:
– Pai, o qui quer dizer palavra?
– Palavra?
– É, pa-la-vra.
– Hummm, quer dizer tanta coisa minha filha. Me deixa achar as palavras certas pra te explicar...
– Você ainda tem que achar elas pra me dizer o qui é?
– Mais ou menos. Olha só filha, palavra poder ser um...uma...informação! É isso: a palavra é uma informação.
– Pai, o qui é informação?
O pai nunca tinha visto a filha assim, tão curiosa. Se tivesse de assinalar etapas na vida infantil da sua pequena, marcaria aquele instante como o início da FPC: Fase das Perguntas Complexas. Mas não fugiu do aperto. Respirou fundo e sorriu (achou engraçada a situação pois estava justamente fazendo palavras cruzadas) e a chamou para o seu colo:
– Uma coisa de cada vez filha. Sabe, palavra é algo que a gente diz ou escreve para outra pessoa entender o que a gente quer dizer. Para comunicar uma coisa. Um exemplo: a palavra lápis é o conjunto das letras éle, a, pê, i, ésse. E essas letrinhas todas juntas querem dizer isso que eu estou segurando na mão, um lápis, entendeu?
– Acho que sim...
– Que bom, minha princesa. Você está ficando bem espertinha! – elogia o pai, exultante de sua própria inteligência na elaboração da resposta, e também refletida na figura sempre curiosa da filha.
Mas a trégua durou pouco. No território da infância, uma pergunta puxa a outra, que puxa a outra, que...
– Mas pai, a palavra é que nem o lápis? Dá de pegá?
– Como assim filha? – devolveu o pai, com outra pergunta.
– É que a mamãe disse ontem que me dava a palavra dela que a gente ia pro shopping hoje. Só que até agora eu tô procurando onde ela deixou essa palavra pra mim e não achei. E a mamãe ainda não chegou em casa, não posso nem perguntar onde tá. Será que alguém pegou minha palavra, pai?
Inspirado pelo onírico universo infantil o pai responde, com adulta ironia:
– Não te preocupa filha, ninguém pegou não. É que a mamãe te deu uma palavra vazia, entende? E essa palavra, por ser vazia, era muito leve e fraquinha e foi levada pelo vento. Aliás, a mamãe adora fazer isso...
– Tá bom pai – resigna-se a filha. – Mas da próxima vez eu quero um palavra pesada, tá? E cheia. Como um elefante gordo. Quero ver o vento levar minha palavra-elefante-gordo!
Então ele riu e depois ela também. Abraçou-a como se estivessem num reencontro tardio. Desejou, sem querer, que ela nunca crescesse. Quis ser seu cúmplice numa infância infinita, onde todas as palavras seriam sempre leves e mágicas.
