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basillar

Duarte e sua dúvida

Enviado Sexta-feira, 24 de abril de 2009 às 18:31:19 | Nenhum comentário »

Duarte na sala de espera do consultório médico. É sua primeira vez. Hesitante, puxa um exemplar de Caras do revisteiro. Fulana prepara festa de casamento com fulano. Beltrano não-sei-das-quantas, participante do BBB 26, mostra sua casa no condomínio XYZ para os leitores. Saco, pensa Duarte, coçando a cabeça. Aquilo é outro mundo para ele, trabalhador da indústria metal mecânica da cidade. Uma cara simples. Criado a polenta e camargo, só tinha visto médico nos filmes. E quando a filha nasceu. Lazer predileto: churrasquinho, cerveja e futebol com os amigos. Mas o nobre esporte bretão, só na torcida: o diâmetro da barriga não aconselha a prática.

          Vendo uma mosca pousar num busto de Freud, no canto da sala, Duarte lembra o motivo que o levou até ali: esse negócio de médico pra cabeça é coisa de quem está ficando louco. Será que eu estou ficando louco?

          A esposa foi quem o convenceu: desse jeito não dá mais, Duarte. Toda noite se remexendo na cama, depois acorda e faz barulho na casa inteira, chuta a cadeira da cozinha, derrama água no chão. A Carolina tem aula amanhã cedo, assim não dá homem do céu!

          Senhor Duarte, por favor? A bela secretária o chama. Loira (teria o quê, vinte anos?) pernas longilíneas, scarpin e terninho preto. Esbelta, mas com aumento de massa nos lugares certos. Uma aula de geometria em carne, osso e sedução. Enlouqueceria Pitágoras, se estivesse vivo. Cabelo amarrado num rabo de cavalo. Duarte viu um filme com uma mulher assim, dias atrás. Entra no consultório. Senta-se na poltrona. Apresentações de praxe. O médico, sujeito grisalho e sorridente, conta umas piadinhas ensaiadas, quebra o gelo com muito feeling. E o Duarte, já mais relaxado, pensando no que faria a sós com a bela secretária, conta sua história:

          - O que acontece doutor, é que de uns tempos pra cá minhas noites são agitadas. Tenho sonhado sempre  a mesma coisa: estou eu, bem tranquilo, assistindo a um jogo do Caxias na sala lá de casa, repleta de amigos. Tudo na santa paz: cervejinha gelada na mesa, a patroa de bom humor abastecendo a sala de quitutes, o Caxias dando um chocolate nos verdinhos que só vendo! O senhor é papo? Ah, desculpe, não sabia...Mas eu ia dizendo do sonho: uma coisa linda, sensação de alegria e bem estar. Sabe quando tudo está no seu lugar? Porém, sempre quando eu vou encher o copo do Digão, meu parceiro lá da firma, surge na sala a minha sogra, montada num rinoceronte selvagem, os dois bufando agressivamente, imundos, soltando xingamentos pra tudo quanto é lado. Meus amigos fogem desesperados diante da cena horrível, o rinoceronte truculento quebrando tudo, o grito estridente da minha sogra perfurando os tímpanos. Estranho né? Pra dizer o mínimo! Sabe que eu nunca tinha sonhado algo parecido antes? Se eu me dou bem com a minha sogra na vida real? Sim, quando ela vai viajar, sim. Mas o que me traz aqui é uma dúvida de esmagar o coração, doutor. Como todo bom brasileiro, eu gosto sempre de fazer uma fezinha. Vi também na TV que os sonhos oferecem preciosos sinais para nossa vida terrena...

          Por isso a pergunta, doutor: o senhor acha que eu devo apostar em  jararaca ou rinoceronte no jogo do bicho? Hein?

 

 

Nunca escreva (ou faça qualquer outra coisa) de mau humor

Enviado Quinta-feira, 09 de abril de 2009 às 17:07:45 | Nenhum comentário »

 

Aponte-me um homem que, estando de mau humor,

tenha a coragem de ocultá-lo, de sofrer sozinho,

sem perturbar a alegria dos que o cercam?

Johann Wolfgang Von Goethe

 

 

            Eu hoje acordei de mau humor. Sim, é mau humor mesmo. Não sei se o problema é de ordem astrológica; talvez eu possa culpar Mercúrio em conjunção com Vênus na quarta casa ou a explosão de alguma estrela de nêutrons na galáxia de Andrômeda. Nunca se sabe, o Universo parece ser um cara estranho. Como não acredito em horóscopo, ocorreu-me a razoável ideia de que, ao escrever um texto, a descontração do ato trouxesse junto a melhora. Desculpa leitor, mas a catarse deve ser feita. Lá vamos nós. O caminho se faz caminhando, as melancias se ajeitam no balançar da carroça, acho que era isso que minha nona dizia.

            Tudo porque o mau humor é quase uma doença. Alguns médicos até o consideram como tal: batizaram a rabugice de Distimia, quer nome mais mau humorado que isso? Quando a gente fica assim, distímico, sai de perto. Qualquer coisa um nanômetro fora do lugar (daquilo que imaginamos ser o lugar correto das coisas) irrita. Até o mais cordato dos humanos, quando acometido pela anomalia, se mete a distribuir patadas verbais (em alguns casos físicas também) por qualquer insignificância. Vai dizer que não acontece contigo também leitor ?

            Nas festas ou reuniões de amigos, por exemplo. Sempre quando o anfitrião anuncia que o prato de sobremesa é Pavê, um idiota engraçadinho-maneirista-de-piadas-sem-graça repete a clássica:

            - Mas é só pa vê? Não é pa comê?

            Em dias de mau humor isso me deixa MUITO irritado.

            E numa conversa informal ou de trabalho. Volta e meia ouve-se alguém afirmando :

            - Sim, não, eu vou conseguir fazer o combinado a tempo. Nem te estressa !

            Sim, não... É SIM OU NÃO ? Devemos considerar a ordem das informações ou o cara é indeciso ? Talvez esquizofrenia. Ou psicose ?

            Ondas mau humorísticas amplificam-se quando estamos fazendo algo valioso no computador (a tese da pós, um projeto decisivo, um logo relatório para o chefe, um mail para o amor da sua vida, etc) e surge, vindo do nada, um retângulo de tamanho variável na tela com a seguinte frase : ERRO DE SINTAXE BINARIA DERIVADA WINXCDT249385. Apenas essa frase. Impaciente, estática, bloqueadora de ações corretivas. A Esfinge eletrônica te testando. Decifra-me ou...O trabalho de um semestre ali, por detrás da informação obscura. Aí, clica-se em qualquer lugar e...bau ! Se o sujeito não é muito controlado marcha com uma grana em hardware e  curativos nesses momentos.

            Outra cena horrível : acorda-se num belo dia ensolarado, tudo fluindo na santa paz. Sabe aquela sensação de que tudo está no seu lugar? Então o primeiro cidadão que por nós cruza o caminho está irrevogavelmente mau humorado e, ao articular duas ou três frases, nos deixa também mau humorados. Que cara solidário ! Saca o turning point ? A partir daí tudo piora no seu dia. Todas as sinaleiras ficam vermelhas, todos os insetos chocam-se contra o teu olho. Você chega exausto em casa, liga a TV para entreter-se e, incrível: todos os canais exibem shows de padres cantores!

É, o mau humor é punk ...Como é que é? O leitor não concorda com uma vírgula do texto? Ficou mau humorado ? Sério? Então porque continua olhando aí? Vai encarar? HÃ!?

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