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Querida irmã, tudo bem?
Preciso lhe confessar o motivo de minhas angústias, como deve ter notado pelo meu tom de voz no último telefonema: chama-se Bruna, e esquecê-la tem se mostrado impossível.
Conheci-a casualmente, estudávamos na mesma universidade. Ela, Engenharia Ambiental. Eu, como você sabe (e pela vontade imposta do pai, lembra?), Medicina. Na primeira vez que a vi, uma onda gélida nasceu em meu peito, e foi quebrar nas rochas do coração. Era o desejo em estado bruto, alta voltagem hormonal no oceano elétrico do cérebro. Trocamos breve olhar e uma curiosa sensação de fascínio e dependência nasceu em mim, naquele instante.
Na companhia de amigas ou outras garotas, a figura de Bruna sempre se destacava. Altiva e serena, elegante e com uma porção exótica, não exibia a superficialidade típica das garotas objeto. Suas virtudes físicas, inúmeras, conviviam harmoniosamente com uma reservada aura intelectual. No intervalo das aulas eu saía ao pátio do campus caminhando a esmo, por lugares onde poderia encontrá-la. Cansei de desviar meu trajeto, só para circular em sua vizinhança. O convívio naquela proximidade espacial trouxe pequenos ois, migalhas da linguagem verbal que eu saboreava como um banquete. Feito um diminuto planeta, passei a orbitar ao redor de Bruna, uma estrela de grande brilho.
Minha fantasia predileta: imaginá-la deliciosamente suada em trajes mínimos, empunhando ferramentas de marcenaria, a construir o deck de nossa casa no Caribe. E via tudo isso como uma pintura, de matizes azul cobalto (céu), verde água (mar), e amarelo ouro (sol de verão, areia). Então eu chegava num jet ski e Bruna, equilibrando imensa tábua sobre a cabeça, sorria convidativa, jogava a peça no chão e corria para meus braços. Sobre as tábuas, entre pregos, martelos e furadeiras, deixávamos o ardor da carne nos consumir.
Ah, pudesse eu ser ao menos o cachorro ou a árvore de Bruna; um bonsai que fosse! Provar a ternura de seu colo, sentir todos os dias o narcótico perfume daquela Deusa...Enredar minhas mãos no seu longo cabelo inacreditável, beijar-lhe o pescocinho esbelto e tenro, sentir seus cílios roçando delicadamente em minha face.
Mas não. No campo do desejo, minha figura é estéril para Bruna. Bebi de sua cruel indiferença, à força, sempre que tentei me aproximar.
Agora passo os dias a imaginar outro delírio, minha irmã. Toda estrela um dia se apaga. Ou explode, por causas diversas, levando consigo os planetas ao redor. Já comprei tudo o que preciso. Já aprendi tudo o que preciso. Brevidade e concisão, é o que almejo agora. Por isso, vou terminando por aqui, já escrevi demais. Um abraço e um beijo...Lembre-se que sempre amarei todos vocês.
O desejo é mãe de todo o sofrimento.
