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O Natal me faz pensar muito (e ficar triste)

Enviado Sexta-feira, 18 de dezembro de 2009 às 15:22:32 | Nenhum comentário »
“Penso, logo existo”. Eis o famoso axioma de Descartes, que poderia ser atualizado para “Penso, logo fico triste”. Dirão: “ mas que cara negativo, em pleno Natal vem escrever sobre tristeza e tal...” É justamente nisso que reside a dureza da coisa: quem pensa muito, logo se aborrece e fica triste. Ainda mais no Brasil e nesta época, cheia de listas piores/melhores, retrospectivas e especiais insípidos na TV.
Lembro que um dia fui um guri normal, e acreditava em Papai Noel. Aí os primeiros lampejos do pensamento levantaram dilemas do tipo: mas se Papai Noel é um só, como ele pode estar em vários lugares ao mesmo tempo (víamos dezenas pela cidade nos meses de dezembro) e porque ele anda atrás de uma camionete velha com música alta jogando balas se ele tem um trenó muito massa e renas voadoras? Pensamento prematuro, frustrações infantis.
Depois, logo após ter saído da catequese e da crisma, descobri nas aulas de história as sacanagens de alguns papas, as vendas de lugares no céu e outras coisinhas frustrantes. Eu ainda não sabia, mas aquilo inaugurou uma nova fase no meu intelecto.
Intervalo temporal e acordo hoje, já trintão, pensando: no que se transformou o homem dito moderno? Um indivíduo cheio de frustrações materiais no meio da multidão das metrópoles desumanas e estéreis? Ou massa de manobra das grandes corporações mercantilistas, um algarismo virtual no mundo consumista globalizado pseudo-feliz da novela das oito? Vamos então nos espremer feito andróides em assépticos shoppings enfeitados... Economistas demonizam a crise como o se ela fosse uma anomalia, um desajuste no plano perfeito e cartesiano que traçaram. Pois as regras do jogo são assim, não existe crescimento ilimitado num ambiente finito. Uma hora a coisa cai, yin/yang, lembram das gangorras? A linha da vida não é uma reta sempre ascendente, está mais para uma senóide, uma espiral estonteante.
Dizem que hoje somos livres. Só se for para escolher a cor da embalagem, como canta o Humberto. Foi o pensamento econômico à la Adam Smith, a doutrina laissez-faire, antes idolatrada, que fez a gente desembarcar pertinho do caos, ecológico e econômico. Na maior cara-de pau esses caras pedem agora ajuda ao estado. Mas não era ele uma máquina ultrapassada que deveria dar lugar à “liberdade de mercado” ? Estes senhores me fazem rir, parecem mulheres arrependidas querendo de volta os maridos que renegaram.
            Vou para a TV procurar um filme, e a publicidade faz cair o véu: as grandes empresas atuais têm mais grana do que muitos países, então distorcem leis para obter vantagens, violentam regionalismos e a natureza, colonizam culturalmente. Há uma preocupação ecológica superficial travestida de profunda sendo propagandeada por aí. Ser ecológico hoje virou chique, é uma estratégia de marketing na busca de lucros maiores. Não se ataca claramente o cerne da questão: nosso modelo econômico e produtivo é linear, extrativista. Precisamos adotar o padrão cíclico da natureza, onde o resíduo de uma espécie é alimento para a outra. Senão, blau, já era.
            Os grandes pensadores atuais, em sua maioria, se tornaram chatos e volúveis. Onde está o Nietzsche de hoje, cadê a rebeldia da juventude que discutia política, ia à rua protestar? A coletividade precisa de seres assim. Onde estão os grandes ídolos na arte e na música? Morrisons, Warhols, Tons Zés...A mídia brasileira valoriza rebolados e pagodes, frivolidades estéreis de celebridades voláteis. A cena musical está sertanilizada. A qualquer um é concedido fama, não pelo que sabe e sim por estar ali, ser a bola da vez do Ibope. Para completar, doses de violência e exclusão social sempre crescentes ao nosso redor.
Não, não, esperem, chega. Gosto de finais felizes. Ainda há esperança e vida: o mesmo pensamento que entristece, por ser dual como tudo o é, também pode nos salvar da tormenta. Positive vibrations. Por isso vou encerrando o texto aqui e desse modo; cortante, incisivo, abrupto, otimista mesmo que entediado, sem pensar muito que é pra não ficar mais triste: Feliz Natal!
 

O Estado Maior do Pio X

Enviado Sexta-feira, 04 de dezembro de 2009 às 18:05:49 | Nenhum comentário »

Nós, leais e valorosos habitantes do bairro Pio X, fragmento espaço temporal componente do bacana município de Caxias do Sul, Rio Grande do Sul, declaramos a partir de hoje nossa completa independência social, econômica, política, gastronômica e patética para com o restante do mundo. Sim, eu disse do mundo.

            Sabem o que é? A coisa enfeiou. Então aqui também se mata, depreda, rouba, polui, desrespeita. Com a maior naturalidade. Já não podemos mais curtir nossa promenade até o boteco da esquina, nem dar uma banda para descolar uns cacetinhos na padaria. Ouvir sem medo o padre Ênio em nosso templo e paquerar as gurias na saída do colégio, sem chance. Onde é que já se viu?

             De maneira democrática, já escolhemos nosso novo nome: Estado Maior do Pio X - EMPX. Votação feita por e-mail, torpedo, papel de pão lambuzado de Mu-Mu, telegrama, guri de recado. O Alemão, webdesigner vizinho e visionário, já trabalha no brasão oficial, inspirado nas cores do colégio Maguari em fusão com a silhueta de uma fábrica. Diz ele que vai ficar tri bom.

            Outra coisa: já temos um líder. O consenso surgiu durante uma tripada ali no Nivaldo, acompanhada de generosas garrafas de vinho tinto: vai ser o Miro. Como assim, vocês não conhecem o Miro? (o Estado Maior do Santa Catarina, co-irmão, alega que o Miro nasceu em seus domínios, mas temos documentos a nosso favor que usaremos em momento oportuno. Não insistam.)

O entorno da Igreja do Pio X e suas adjacências será o nosso Vaticano. Aos elegantes traços da edificação original será anexada uma reluzente sacada, de mármore Carrara e vidro temperado, onde Padre Ênio saudará os fiéis em datas específicas e de grande significado para a comunidade. Como hoje, por exemplo.

Temos respaldo para o ato revoltoso. Nosso passado industrial legitima o movimento separatista. Ajudamos a construir a riqueza da cidade, pô. Se pegar às armas (funda, zarabatana, bombinha, máquina de sulfato) for preciso, nossos velhos pavilhões industriais serão transformados em bunkers equartéis. É chegada a hora!

Não pedimos muito: queremos a volta dos portões baixinhos nas casas, as conversas fraternais sob a sombra das árvores no verão, os carrinhos de lomba zunindo nos morros de basalto, os joelhos condecorados de esparadrapo e mertiolate. Não abrimos mão do futebol de rua com goleiras de tijolos, guerras de bexiguinha na saída da escola, jogos de taco com substituições enganosas de bolas por laranjas quando começava a escurecer (licença pra dois entrega os taco!)

Estamos ávidos para estourar bombinha embaixo das latas de Neston, ver as gurias correndo junto e descobrir que o Papai Noel é o vizinho disfarçado. Precisamos espiar de novo os casais pela janela de tijolo furado do Motel Florenza, brincar de se esconder até tarde da noite, comprar sorvete no Borelli. Sim, há saudade no ar. Nostálgicos? Talvez, mas quando o melhor ficou lá atrás, como há de ser diferente? Desejamos a utopia do sonho redesenhado.

É que nós, lendários vagabundos e figuras mitológicas do Pio X, não gostamos de conversas monetárias de posse, exercícios de poder ou futilidades capitalistas pós modernas. Não queremos saber quanto fulano lucrou ou de mesquinharias similares. Caminhonetes importadas e mulheres de silicone não habitam nossos sonhos. “Disneilândias não vão nos levar ao céu”, como disse Nei Lisboa (nosso Ministro da Cultura) em seu sereno discurso de posse.

            Fundar uma ilha urbana e declarar independência: eis nossa ingênua quimera. Porque nós, românticos habitantes do Estado Maior do Pio X, só queremos outra chance de viver em paz. E em harmonia com todos. Como vocês também desejam, tenho plena certeza, amigos habitantes do resto do mundo.

Veja mais  Min: 15 - Max: 24
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