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Tenho uma relação de amor com a cidade que me viu nascer. Volta e meia eu me irrito um pouco, confesso, mas preciso admitir: nós nos amamos! Sim, a coisa vem desde cedo. Até porque ela presenciou minhas primeiras fraldas, alguns tombos de bicicleta e a construção de engenhosos carrinhos de lomba. Sem falar nos tórridos amores de colégio, nas horrendas guerras de bexiguinha e naquela estranha luz piscante que eu e a turma avistamos no céu noturno de verão e concordamos: era mesmo um disco voador.
Daqueles saborosos dias, restou uma cidade que parece ter se transformado
Se eu quisesse teorizar, ou estivesse no divã de uma analista, poderia afirmar: acho que esse é um amor absolutamente real, não platônico e carnal. E é sem dúvida irrevogável, como todos os amores autênticos o são. Acontece que algumas coisinhas singelas e insignificantes, doutora, maculam nossa relação. Feito uma namorada que deixava o vidro de acetona aberto bem em cima da minha coleção do Nei Lisboa.
Exemplo: no centro da cidade acontece uma dessas chatices da nossa relação. Não entendo porque, nos dias chuvosos, as pessoas que usam guarda-chuva circulam sempre debaixo das marquises, obrigando quem não tem o artefato (como eu) a caminhar fora da projeção destes elementos construtivos e, desse modo, ensopar-se como um idiota. Seria uma espécie de Síndrome de Insegurança Coletiva do pessoal? Imaginem quando a chuva for ácida! Temos de ser solidários com o espaço público, sobretudo numa intempérie.
Ainda bem que as coisas boas dão de goleada. O encanto de um passeio por algumas ruas. As bucólicas paisagens campestres, com seus riachinhos, parreirais e nonas sorridentes. O colorido das praças e parques, em um sábado de sol. A beleza da mulher caxiense no colorido das praças e parques, em um sábado de sol. Exércitos de galetos, polentas fritas e maioneses exalando seu perfume aos domingos, a prometer infindáveis delícias mundanas aos viventes. Eu sei que poderia ser melhor, principalmente nas ruas, artérias de animação desse corpo, que estão sempre à mercê dos vorazes automóveis, da errática insegurança, da feiosa poluição visual. Mas isso não é privilégio nosso. Tais bichos campeiam em muitas outras cidades do mundo.
No terreno dos mistérios, o Velho da Casquinha (quem não conhece?) alimenta especulações teológico-filosóficas. Seria ele uma espécie de Messias e as suas casquinhas, o redentor alimento de um nova seita apocalíptica? Alguns acreditam que ele não passa de um andróide criado por uma nefasta corporação americana, cujo objetivo é viciar-nos em seu produto para depois massificá-lo por todo o planeta (algo como a nova Coca-Cola, por exemplo). Aquele sorriso não nos engana.
E a freira do colégio Santa Catarina? Estaria o seu corpo sepultado naquela viga ou volume suspeito, próximo ao piso das salas do subsolo? O apagador que voava sozinho nas aulas de Física seria um manifestação ectoplásmica da famosa freira?
Tenho um amigo que jura ter entrado num bueiro em sua adolescência e saído num túnel estranho, iluminado e com piso e tudo, que ligava a Catedral ao chafariz da Praça Dante. Ele é hoje escritor e passou um tempo numa clínica psiquiátrica, é verdade, mas algo me diz que sua afirmação pode fazer sentido.
Muitas outras perguntas ainda existem. Muitos outros anônimos mistérios: mistérios de amor, de loucura e de medo, mistérios de terror e de fantasmas da antiga Caxias, os velhos mistérios da senhora Vida que proliferam cravados nas entranhas do tecido da cidade sempre acolhedora, porém crescente e voraz.
Agora, o que eu quero mesmo saber é se esses caxienses que andam embaixo das marquises nos dias chuvosos vão mudar de comportamento. Porque, sabe como é, não pretendo por agora (tempos de crise) gastar dinheiro com um guarda-chuva.
