Gaúcho, quando vai pra Bahia, invariavelmente se deslumbra. Meu amigo Sandro, por exemplo. Ao demorar-se ao lado do elevador Lacerda, contemplando a perspectiva comovente da Baía de Todos os Santos, teceu o seguinte comentário:
- Tchê, que lugar mais bonito. Lembra um pouco Dom Pedrito né? Só botar capim no lugar do mar ali que fica parecido. Coisa bem linda!
É o chamado deslumbramento emocional gauchesco de raiz. O cara aprecia, se derrete até, frente ao objeto de seu encantamento, mas sem muita frescura. E sem deixar de incluir sua terra no louvor. Longe de casa, entre estranhos, nosso gauchismo brota fácil.
Gaúcho, quando vai pra Bahia, não sabe por onde começar o passeio. Quantas praias de água azul turquesa e coqueiros inclinados, tipo capa de revista de turismo, dispostas uma ao lado da outra naquele imenso litoral, como se Deus estivesse num surto poético no dia da Criação? Ou num concurso de design de praias? Uma melhor que outra... Quanta história impregnada na arquitetura secular de suas igrejas barrocas, seus faróis, seus fortes e palácios? Seus pisos de praças feitos com pedra portuguesa e para sempre manchados de sangue, suor e esperança escravos. Do ponto de vista histórico-cultural, a Bahia é o nosso velho mundo. Nossa Europa verde e amarela. Em cada esquina vultos do passado caminham do teu lado, na exuberante natureza ainda o charme do Brasil inaugural.
Sabemos também que a malemolência (que palavra!) do baiano pode não ser um mito. Dizem até que, no Brasil, o maior especialista em internet é o baiano: vive na rede. Mas como não se deixar levar pelo bom humor contagiante, por sua alegria apesar das agruras, pelo sotaque descansado e escorregadio daquele povo, sempre disposto a compreender e ajudar alienígenas perdidos, como nós?
Imaginem então o meu deslumbramento. Primeira vez por lá, casamento do Marcelão, camarada da prefeitura, e da Taís, agora sua esposa baiana. No dia seguinte à ótima festa, alugamos dois carros na expectativa de conhecer praias e lugares mais distantes. Não revelarei aqui o nome das outras pessoas que estavam comigo e com a Bruna neste passeio, pois não quero sofrer represálias nem pagar custos processuais. Além disso, a Maristela fica tri braba com essas coisas.
Só contarei a parte que, depois de esperarmos os carros no hotel com 50 minutos de atraso, errarmos três vezes o caminho até a Praia do Forte e uma chuvarada tropical ter arrefecido os ânimos no caminho, um dos integrantes baixou o vidro da janela e, como os bólidos estavam emparelhados nesta parte do trajeto, comentou com os colegas:
- Que indiada...
Parecia premonição. Horas depois nossos carros seriam guinchados na praia, um colega pisaria num ouriço do mar, eu cortaria a mão num coral e teria febre e visões apocalípticas (tsunamis vermelhos de acarajé e pimenta se erguendo nas praias, Ivete Sangalo a todo volume como música ambiente do planeta, etc).
Inesquecíveis e adoráveis como nunca, estas aventuras nas lindas terras do nordeste brasileiro.
E se tudo não passou mesmo de uma indiada, estávamos apenas cumprindo o papel que nos cabe. Pois gaúcho, quando vai pra Bahia, descobre que o Rio Grande do Sul, a Bahia ou qualquer outro lugar do mundo é apenas um fragmento, uma sesmaria do grande pago chamado Universo, desenhado e dirigido (embora muitos discordem) pelo Índio Velho lá de cima.