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Uma arte de agulhas sanguinárias

Enviado Segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011 às 10:30:19 | Nenhum comentário »

Passei uma década pensando nos prós e nos contras, elegendo gravuras dignas de uma íntima convivência. Não posso negar que a ideia sempre me atraiu. Admirava o grafismo alheio, pensando nos signos, cores e formas que usaria quando chegasse minha vez. Mas foi a Bruna, já iniciada nessa arte singular, quem deu o empurrãozinho final.”Duvido tu fazer!” E depois: “Imagina, sensível como tu é meu amor! “ Opa. Calma lá, baby. Lembre-se do fato de que sou colorado, nasci no PIO X e daquela velha lição da natureza: não se mexe assim com os instintos impunemente.

            Então fui.

            Fiz uma tatuagem. Grande, colorida, no lado esquerdo das costas. Um dragão que se transforma numa carpa que se transforma num dragão, que se transformam no símbolo chinês do ying/yang. Ou seria o inverso? Tanto faz. A dualidade de toda existência cravada com aço, tinta e sangue no meu lombo. Quem diz que não dói é porque ainda não fez.

             Considerava o orgasmo uma espécie de acrópole do prazer físico e espiritual, logo acima do espirro e de colocar meias de lã no inverno, antes de dormir. Depois que fiz uma tatuagem descobri um êxtase carnal que, se não ganha do orgasmo, empata sofrendo gol duvidoso no finzinho. É quando silencia o tenebroso zumbido elétrico (dez vezes pior que aquele do dentista), cessa por completo o balé das agulhas sanguinárias sobre a carne e ouve-se a frase redentora, quase música para teus ouvidos hipnotizados : “Acabou, velho.”

            Ah, acabou...ACABOU! Estava mais do que na hora. Cada molécula de ar é percebida pela região estampada. Você poderia trabalhar no serviço  meteorológico após uma tatuagem, pois consegue dimensionar a velocidade do vento e a temperatura de forma absurdamente precisa, com duas casas depois da vírgula. E há sangue. Como nas torturas. Como nos crimes. Como nas guerras. Uma pequena guerra epidérmica invasiva, na escala dos corpúsculos, tecidos e células. Depois, ao chegar no conforto da sua casa, uma nova rotina o espera. Pomada B-pantol, fita adesiva e filme plástico serão agora seus novos companheiros. (Se você é como eu, do tipo caucasiano semi-Tony Ramos - meio peludo- uma boa maneira de depilar o pescoço é fazer uma tatuagem nas costas. A fita que prende o filme plástico, necessário nos primeiros dias, fará o serviço de PODA direitinho.)

            Obviamente compensa. Seu corpo agora está customizado. Ninguém é igual a ninguém, mas você resolveu deixar isso bem claro. O pior já passou, você pondera, feliz da vida. Agora é mostrar aos amigos, se olhar a cada 10 minutos no espelho, jogar bola sem camisa, se exibir para a mulherada na praia, pedir para alguém tirar uma foto e colocar no orkut. Assim que o sangue secar, é claro.

            Fico pensando no futuro da tatuagem. Se elas surgiram decorando a pele de piratas, prisioneiros e delinquentes, hoje tudo se transformou. A tatuagem ficou pop. E do jeito que a evolução anda, ou melhor, voa, não será difícil imaginar novas possibilidades. No futuro, os pais poderão escolher tatuagens para os filhos ainda em gestação. As informações gráficas serão geneticamente induzidas por um médico especialista (formado em design gráfico epitelial pela Úspi), surgindo na idade programada pelo casal .“Essa mandala eu acho que a nossa filha vai gostar aos 18 anos, que tu achas meu amor?”. Ou um pai mais fanático, no consultório: “Doutor, o escudo do meu time quero logo no nascimento, não abro mão. E bem grande!” E aquele mais orgulhoso, com os amigos empresários, num churrasco: “Resolvi vender o espaço do tórax para as Americanas, eles estão pagando bem...”

            Para os leitores que eram como eu tempo atrás, sem nenhuma IMAGEM no corpo, tenho pouca coisa a dizer. Encarar o desafio de ser tatuado requer algumas características pessoais e intransferíveis: força, desprendimento, coragem, audácia, ausência de preconceitos. Ser praticamente um galo-cinza. Em outras palavras, tatuagem é uma coisa para MACHOS.

            Duvido tu fazer.

Nós, os carnívoros

Enviado Segunda-feira, 07 de fevereiro de 2011 às 10:18:28 | 3 comentários »

Quem defende o causa vegetariana empurrando o complexo de culpa assassino para cima dos carnívoros sempre se esquece que os vegetais também têm vida. De acordo com a teoria espírita, o reino vegetal é uma das etapas evolutivas que os espíritos percorrem rumo à perfeição. Você que está aí me lendo pode ter sido um tomate ou uma samambaia em alguma existência passada. Tenho uma prima moradora do interior que é a cara de uma abóbora. Eu mesmo sou acometido por sérias desconfianças de que já fui um abacateiro, sobretudo no inverno, quando algumas secreções corporais ficam mais densas e com matizes esverdeadas.

            Então, carnívoros ou vegetarianos, somos todos criminosos, praticantes da sombria arte de matar? De certa forma sim. Pense nas indefesas cebolinhas em conserva, arrancadas do calorzinho gostoso da terra e mergulhadas impiedosamente na acidez cruel do vinagre. Nas milhares de graciosas espigas de milho, ceifadas sem nenhum remorso pela tenebrosa colheitadeira mecânica. Tudo bem, você pode se eximir da culpa dizendo que nunca cometeu pessoalmente nenhum destes atos, mas terá de concordar: o consumidor é quem cria a demanda. Você sabia que para o palmito ser extraído a palmeira tem de morrer? Lembre-se disso ao autorizar o garçom do rodízio a despejar dois pedaços de pizza no seu prato. Uma vez vi uma alface chorar, ao ser decepada lá na horta de casa. Mas isso não me impediu de deflorá-la minutos mais tarde, ao lado de uma saborosa costela bovina.

             O galho, para as outras formas de vida, é que houve um distanciamento natural do homem com relação ao restante da natureza. Somos os únicos seres dotados com o pensamento e a linguagem. Nenhuma outra forma de vida chegou perto disso, com exceção do Scooby-Doo. Das primeiras formas de agricultura e domesticação de animais até a produção mecanizada de bacon foi um pulinho. A natureza, corporificada por sua flora e fauna, é o nosso único manancial provedor, além de habitat. Por isso é chamada de “Mãe Natureza”. Se os animais pudessem raciocinar e se exprimir em palavras, certamente nos convenceriam da insensatez que é tirar-lhes a vida para o nosso deleite gastronômico. Trata-se, porém, de algo mais do que um simples capricho culinário. Falamos aqui de sobrevivência. E como não ouvimos reclamações plausíveis dos bichos, seguimos dando vazão aos nossos impulsos agressivos e dominadores. Freud, aquele velho alemão que gostava de sorver um charuto (e outras cositas mas) decifrou muito bem as forças motrizes desse peculiar animal chamado homem.

            Mas a supremacia no planeta  tem seu preço. A grande questão hoje é a manutenção da vida na Terra. Não estamos convivendo bem uns com os outros. Entretanto, não podemos esquecer nossas diferenças. Quem fala em igualdade entre todos os seres também se esquece que a própria natureza criou formas de vida desiguais. Entre os humanos também. Lembram do fracasso do comunismo? A ideia da abolição da propriedade privada, que era vista como a causa de todos os males sociais, revelou-se um erro grotesco. Olhem para a a natureza. As diferenças foram criadas por ela. Algumas espécies são mais fortes e desenvolvidas, outras mais fracas e dependentes. Presas e predadores, caçadores e caças. Nosso passado de canibais ainda ecoa em algum subsolo de nossos cérebros, soterrado por camadas de civilização e programas de tv.

            Eis o desabafo. A culpa dos pesares do mundo não pode recair apenas sobre nós, os carnívoros. Bem vindos ao clube do crime, amigos vegetarianos. Celebraremos juntos essa grande aventura chamada Vida. Enquanto vocês temperam a salada, espetaremos aquela costela gorda e nenhum remorso se fará presente. Nossa fome é também o nosso elo. E comer é a  forma final de possuir o que queremos. Seja carne, vegetal ou a pessoa amada. Metaforicamente, é claro. (Dedico esse texto à memória do primeiro homem que deitou um boi por sobre a brasa e inventou o churrasco. Cara, nós te amamos.)

 

 

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