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Todo fotógrafo tem um pouco de caçador

Enviado Sexta-feira, 23 de janeiro de 2009 às 17:06:00 | Nenhum comentário »

Limpou a lente e a máquina como quem acaricia um filho. Às vezes até parece mesmo uma filha. Dá-lhe atenção cuidadosa quase todos os dias, afaga, acaricia; volta e meia até entabula uma conversa. Não se trata de devaneio ou alucinação, ele sabe da separabilidade entre ambos, embora não desejasse o fato: precisa que a máquina seja uma extensão de seus olhos, se quiser umas fotos boas. Não apenas isto; é necessário também que consiga lembrar concretamente de cada detalhe que viram juntos, naquelas saídas tão saborosas. E a memória do homem, neste ponto, ainda é inconfiável e limitada, humana que é.

Dia desses comprou uma bolsa elegante e estofada só para ela. A mulher olha ao longe o momento dos dois, sente uma brisa tépida de ciúme que logo passa. “Ele está tão bem-humorado agora, o olhar tem algo de quando éramos namorados....”

Então ele pega as chaves do carro, a nova bolsa e, com sua companheira bem protegida, sai a passeio. Pela cidade. Quer sentir o furor da vida no final de tarde, capturar algo desta atmosfera singular. Depois, passa por um ou outro bairro, detêm-se num velho muro de tijolos. Mira uma guria linda esperando distraída o ônibus, clic, clic, clic. Agora ruma para as cenas rurais, colônias douradas de saudosas lembranças...Paisagens bucólicas que o fazem mais leve.

 No restrito universo bidimensional do visor de sua máquina, o fotógrafo é como um Deus: solitário, é apenas ele quem decide o que irá aparecer ou não em sua obra. Gira a lente para medir enquadramentos, caminha um pouco para o lado e se abaixa, suprime, inclui, corta, acentua, dá vida ao que deseja. Ou mesmo despreza o que lhe não agrada. Um ferreiro na forja, em pleno ato sensitivo de trabalho.

Ou um mentiroso, um falsário. Talvez um ladrão, quando rouba uma cena. Ele sabe que a fotografia é também arte, e como toda a arte ela não passa de um embuste, uma mentira, uma fraude. Um crime. São as regras do jogo. No instante do clic derradeiro o que seria já era, um segundo para sempre irrecuperável, impublicável na amplitude de sua dimensão. Os bits luminosos enjaulados no silício eternizaram apenas uma pequena parte daquele átimo cognitivo. Pedaço de vida para sempre escoado pelo ralo do tempo.

 Aos amigos do clube onde se reúnem para celebrar a paixão comum ele diz de seu sonho: capturar a fotografia perfeita, a imagem suprema messiânica, o ícone imagético que fizesse as pessoas exclamarem “nossa, que fotografia mais legal!” e a ela dispensassem largos sorrisos; uma figura que causasse sensações de bem-estar, ondas de ânimo percorrendo o corpo de quem a segurasse na mão. Não por vaidade ou desejo de ser reconhecido, ele não é daqueles que dispensam muitos olhares ao próprio ego. Quer simplesmente fazer algo de bom e positivo, algo que atenue um pouco tudo o que nos é enfadonho ou dolorido, aqui na prisão do corpo, do tempo e do espaço. Seria uma fotografia que pudesse fazer a menina tristonha, machucada pelas armadilhas do amor, sorrir efusivamente, gargalhar até; uma fotografia que pusesse de pé o doente esquecido e solitário do hospital e o fizesse acreditar que ainda existe vida e que vale a pena viver mais um pouco, nem que seja só pra um dia ver ao vivo o lugar retratado naquela fotografia.

E ao sorrir suave por ter acertado bem em cheio o coração de tantas pessoas, ele então reclinaria um pouco a cabeça satisfeito e recordaria a frase de seu avô, fotógrafo old timer; uma frase que ele nunca esqueceu pois a ouviu criança, pronunciada por um homem que também atingiu corações mirando sua velha máquina na direção de tantas presas: “Todo fotógrafo tem um pouco de caçador”.

 

 

Bundas: considerações a respeito

Enviado Segunda-feira, 19 de janeiro de 2009 às 09:20:24 | Nenhum comentário »
Verão, céu azul, solzinho maneiro, calor. É o hemisfério sul da mãe Gaya curtindo suas merecidas férias! Praias repletas do bicho homem, algazarras nas piscinas, passeios desanuviados nos parques. E bundas. Inúmeras: redondas, caídas, altivas, pequenas, grandes, ousadas, enérgicas, tímidas, bundas, bundas, bundas. Por toda a parte. Na alegria pagodeira da mídia, no Carnaval alegre das mulheres semi-nuas, na vizinha bonita que toma um provocativo banho de sol. Se nos Estados Unidos a paixão é o seio, aqui temos a bunda. Tipo exportação. Eu não sei de onde veio essa paixão que brasileiro tem pela bunda, mas desconfio que a coisa tem raízes na história. Dizem que Cabral, extasiado pela paisagem curvilínea da costa verde e amarela (seria o monte Pascoal um arquétipo das primevas bundas ?), exclamou ao ver as bundinhas desnudas das índias:
            - Mas que pá, ora pois!
            Antes de prosseguir é necessário uma ressalva etimológica. Como alguém já escreveu antes, homem não tem bunda, tem traseiro. Não é justo que a bunda da Juliana Paes, por exemplo, receba o mesmo nome do que isso nós, homens, temos embaixo das costas. Seria um desatino linguistico ( sem trema fica estranho), para dizer o mínimo.
            A imagem de uma bunda pode despertar diferentes reações nas pessoas. Tenho um amigo que, ao ver uma linda bunda, sempre fica irritado, depressivo. “Mas como é que pode, tá loco, essa mulher é muito espetacular, isso não é possível!”. A bunda funciona para ele como um choque de realidade, uma espécie de instrumento nefasto que o empurra à uma incômoda posição inferior, frente ao sexo oposto. “Quando estou numa praia ou na piscina de um clube onde há muitas mulheres”, ele dizia, “me sinto feito uma criança numa sala cheia de brinquedos. Mas que não posso tocar. Isso é terrível!”, ele prosseguia, segurando meu braço e comprimindo os lábios nervosamente. É compreensível. As bundas perfeitas e inatingíveis têm mesmo esse poder metafísico.
            Há casos de mulheres em que a bunda, de tão bela e atraente, se sobressai do resto corpo. Ela cria como que uma identidade própria, tamanha a força de sua aura mítica. É comum numa roda de homens a frase “olha lá aquela bunda que vai indo!” (ou vem vindo, dependendo se a bunda em questão já for de conhecimento prévio do grupo). Em casos assim a mulher, que suou litros nos aparelhos da academia e recusou rangos maravilhosos para conseguir o tão desejado shape, fica um pouco revoltada. De súbito, vê-se reduzida assim, a uma reles bunda. Despersonificação, mulher-objeto. São as regras do mercado. Não se trata aqui de um reducionismo machista, leitoras, é que o homem vê Deus nos detalhes. E se apaixona por eles. Outra tese diz que a bunda não passa de uma criativa estratégia de design elaborada pela natureza, para prosseguir o eterno acasalamento entre os sexos e garantir a espécie. Por essas e por outras é que vou parar aqui mesmo de escrever e dar uma volta. A conversa ficou muito profunda e posso ser acusado de herege. Preciso é de um passeio. Talvez uma ou outra bunda, no calor desse verão, me dê ideias para o próximo texto.
            E o leitor, prefere ficar aí? Me olhando com essa cara de bunda?
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