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basillar

A Lua, ainda

Enviado Sexta-feira, 24 de julho de 2009 às 14:14:58 | Nenhum comentário »

 

Sempre quis ser astronauta, quando criança. Pensando bem, faz pouco que abandonei a ideia. Dei-me conta do calendário (rompi a barreira dos 30 e poucos ao invés da barreira da atmosfera, como queria) e desisti por completo do devaneio. Ah, além disso sou brasileiro, caxiense e tenho cerca de seis restaurações dentárias, recorda-me o dr. Edson. Mas da admiração pelo satélite não desisto, sentimento agora estimulado pela data: 40 anos que o primeiro homo sapiens tocou na Lua.

            Meu nono foi-se embora dessas bandas sem acreditar que o homem houvesse chegado lá. Quando os noticiários da época mostravam o feito, a mãe conta que o ouvia dizer, bebericando um vinho em frente à TV, “ma cramento, isso non  é vero”. Ainda hoje, cerca de 5% das pessoas, segundo pesquisa recente publicada na rede, concordam com o nono: tudo não passou de um grandioso embuste.

            Ainda piá, fuçando na estante de casa, descobri uma edição especial da Revista Veja: A Conquista da Lua. Era do meu pai. Fui seduzido pelo livro: capa dura, imagens incríveis, fotos do solo lunar e do módulo refletido na viseira dos astronautas, a paisagem inóspita da Lua como ninguém vira. Textos e gráficos, Galileu e seu telescópio, a criatividade dos primeiros passos em direção ao espaço. Os engenhosos foguetes de von Braun riscando o céu da guerra fria, a Apolo 11 e a missão que entraria para a história. Tudo bem se foram os americanos, que podemos fazer?

            A verdade é que, desde cedo, a Lua sempre fascinou toda a raça humana. Imaginem a comoção dos primatas olhando para o céu nas noites de Lua cheia, o mítico círculo branco iluminando as virgens paisagens, a luz macia para cenários de lutas, caçadas (e depois churrascos, claro), cerimônias, oferendas, cópulas. Sim, noites de amor ao luar, a explosão da libido, delírios da carne. A vida e sua perpetuação, nossa comunhão com o cosmo. Por isso depois surge a Lua dos amantes, a Lua dos poetas; até mesmo a Lua dos pensadores lunáticos e dos artistas, esses caras que vivem “no mundo da Lua”. O refúgio de outro mundo aqui pertinho. A Lua dos alquimistas, dos magos. Ou ainda, a Lua como símbolo máximo de solidão. Quem nunca quis dar um tempo por lá, depois de um amor terminado, um revés qualquer mais sério? Por ter fases, a Lua simboliza também mudança, senso temporal: quando alguém demonstra humor variável é porque o cara é meio de Lua, assim, entende? (sem falar no passinho moonwalk do Michael, que coisa legal aquilo.)

            E agora que nos apossamos do satélite há tempo, não sabemos bem o que vamos encontrar lá fora, no infinito negrume do universo. A conquista do espaço é, para nós, como a época das grandes navegações do séculos XV e XVI foi para os daquela época: fascínio, mistério, necessidade de sobrevivência.

            Os caras querem chegar à Marte daqui a pouco tempo. Falam em 2030. Usarão a Lua de trampolim, dizem os especialistas. Torço para estarmos presentes no espetáculo, acompanhando de alguma geringoncinha on-line outra luminosa epopéia humana. E o nono, de algum lugar lá do céu, na frente da sua Telefunken preto e branco com antena de bombril talvez diga, estupefato: ”ma de novo questa marmelada?

 

 

             

 

 

 

           

 

 

Cresça e (des)apareça

Enviado Sexta-feira, 10 de julho de 2009 às 14:28:19 | Nenhum comentário »
Senhores economistas, líderes empresariais, políticos de todas as esferas e demais autoridades míopes, atenção. Quero deixar aqui uma mensagem estimulante: não falem asneiras. É isso mesmo. Asneiras. Concordo, é um substantivo meio pesado mas, diante do que vejo, não encontrei sinônimo à altura.
            Escrevo em defesa de nossa casa, o planeta. Querem objetivo mais nobre do que a sobrevivência da espécie? Tudo bem, muitos de vocês estão se lixando para os semelhantes, então pensem num mundo sem shoppings , cartões de crédito e camionetes importadas. Horrível, não?
            É o que se desenha num futuro não muito distante - escassez de água, devastação das florestas, clima enlouquecido feito um terrorista da al qaeda... Frases como “temos de crescer 3,5% este ano” ou “nossa meta é o crescimento na ordem de 4% e blábláblá” causam-me arrepios na espinha. E a impressão de que estamos marchando para o túmulo.
            Capra me socorre. Fritjof Capra, conhecem? Físico austríaco, autor de livros como O Tao da Física(1975) e Ponto de Mutação (1982). Sei, ele não vende milhões como Dan Brow ou Paulo Coelho, mas seu texto didático e elucidativo toca no cerne da questão: vivemos dissociados da natureza e das outras formas de vida. Somos o hóspede mal educado, que emporcalha a casa e varre a sujeira para debaixo do tapete. “Não existe crescimento ilimitado em um ambiente finito”, podemos ler em Conexões Ocultas, publicado em 2002 mas atualíssimo em sua visionária crítica sócio-ambiental.
            A revista britânica New Scientist publicou, semanas atrás, uma reportagem que diz o mesmo. “O grande problema na equação do crescimento econômico está no fato de que, enquanto a economia busca um crescimento infinito, os recursos naturais da Terra são limitados”, dizem os ingleses. Sombriamente certíssimos, os inventores do futebol.
            Dá pra pensar na seguinte metáfora: a Terra é uma espaçonave viajando pelo cosmo, com mantimentos limitados. Sem parada de reabastecimento. Hoje somos 6,7 bilhões de pessoas. Em 2050, seremos 9,4. Todos na mesma espaçonave, cada vez mais avariada. E não se trata apenas da questão populacional. Nosso estilo predatório é o problema: consumimos de forma linear, tipo indústria, os recursos naturais. E o que devolvemos à natureza? Lixo e dejetos: subprodutos do sonho capitalista. Se a nave já está batendo o motor assim, imaginem se a economia continuar crescendo.
            Equalizar é a palavra. Uma economia baseada em valores ambientais e humanos, inspirada na natureza, pode ser a salvação. Na grande cadeia ecológica dos seres vivos, o que é resíduo para uma espécie é o alimento para outra. Um círculo, não uma linha, sacou? Anéis de retroalimentação, diria Capra. Poderíamos então imaginar os parques industriais dessa forma: o que sobra na produção de uma empresa é a matéria prima da outra ali do lado, sem custo de transporte e consumo de energia. E por falar em energia, já passou da hora de adotarmos novos combustíveis. O carbono está acabando com a atmosfera. Primeiro, numa fase de transição, os chamados combustíveis de ponte, como o gás natural. Depois, uma nova era de energia renovável: solar e eólica. Estas duas fontes seriam utilizadas para retirar da água o hidrogênio, elemento químico que é o último grito em combustível limpo. Ele alimentaria células energéticas potentes, de forma barata e relativamente segura. Funciona assim: o hidrogênio vindo da água é combinado com o oxigênio e produz eletricidade e novamente água! Genial, não? (para mais detalhes, digitem “economia do hidrogênio” no deus google)
            Enquanto estas idéias ainda ganham corpo, oremos. Para que depois não seja tarde e consigamos recuperar o que já foi degradado. Para que a miopia dos governantes não engesse os movimentos inicias na busca de um mundo melhor. E um brinde ao nosso amigo Capra, antes que tudo se acabe em chamas.
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