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Pai e filha na sala de estar. Ela, quase cinco anos. Ele quarenta, completos. A menina rompe o silêncio depois de colar mais uma figurinha no álbum das princesas:
– Pai, o qui quer dizer palavra?
– Palavra?
– É, pa-la-vra.
– Hummm, quer dizer tanta coisa minha filha. Me deixa achar as palavras certas pra te explicar...
– Você ainda tem que achar elas pra me dizer o qui é?
– Mais ou menos. Olha só filha, palavra poder ser um...uma...informação! É isso: a palavra é uma informação.
– Pai, o qui é informação?
O pai nunca tinha visto a filha assim, tão curiosa. Se tivesse de assinalar etapas na vida infantil da sua pequena, marcaria aquele instante como o início da FPC: Fase das Perguntas Complexas. Mas não fugiu do aperto. Respirou fundo e sorriu (achou engraçada a situação pois estava justamente fazendo palavras cruzadas) e a chamou para o seu colo:
– Uma coisa de cada vez filha. Sabe, palavra é algo que a gente diz ou escreve para outra pessoa entender o que a gente quer dizer. Para comunicar uma coisa. Um exemplo: a palavra lápis é o conjunto das letras éle, a, pê, i, ésse. E essas letrinhas todas juntas querem dizer isso que eu estou segurando na mão, um lápis, entendeu?
– Acho que sim...
– Que bom, minha princesa. Você está ficando bem espertinha! – elogia o pai, exultante de sua própria inteligência na elaboração da resposta, e também refletida na figura sempre curiosa da filha.
Mas a trégua durou pouco. No território da infância, uma pergunta puxa a outra, que puxa a outra, que...
– Mas pai, a palavra é que nem o lápis? Dá de pegá?
– Como assim filha? – devolveu o pai, com outra pergunta.
– É que a mamãe disse ontem que me dava a palavra dela que a gente ia pro shopping hoje. Só que até agora eu tô procurando onde ela deixou essa palavra pra mim e não achei. E a mamãe ainda não chegou em casa, não posso nem perguntar onde tá. Será que alguém pegou minha palavra, pai?
Inspirado pelo onírico universo infantil o pai responde, com adulta ironia:
– Não te preocupa filha, ninguém pegou não. É que a mamãe te deu uma palavra vazia, entende? E essa palavra, por ser vazia, era muito leve e fraquinha e foi levada pelo vento. Aliás, a mamãe adora fazer isso...
– Tá bom pai – resigna-se a filha. – Mas da próxima vez eu quero um palavra pesada, tá? E cheia. Como um elefante gordo. Quero ver o vento levar minha palavra-elefante-gordo!
Então ele riu e depois ela também. Abraçou-a como se estivessem num reencontro tardio. Desejou, sem querer, que ela nunca crescesse. Quis ser seu cúmplice numa infância infinita, onde todas as palavras seriam sempre leves e mágicas.
