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Deus veste Leg

Enviado Sexta-feira, 19 de junho de 2009 às 15:55:56 | Nenhum comentário »
 
 
            Minutos atrás, caminhando na esquina das ruas Alfredo Chaves com os 18 do Forte, no meio da fria turba desconexa e apressada, entre fachos de luz macia dourada das manhãs outonais, vi Deus.
            Eu sei, Ele está nos detalhes. Porém, neste caso, Sua manifestação fez-se no doce caminhar da exótica morena, toda curvas e esferas. Elegante sedução. Arrebatamento. Esqueçam a romântica imagem: o velhinho de barba branca, poderes e brabezas, sentado num trono de nuvens, castigando pecadores. No macio declive do passeio público, Deus foi pura aura e brilho, plenitude estética feminina, densidade sensorial. Bíblicos seios. Face luminosa, serena (Caravaggio, Carmem Electra?), cútis delicada e grandes olhos cor de amêndoa. Que escanearam a minha alma, como se ela fosse uma folha de caderno rabiscada. Num instante eu não era mais eu, toda individualidade cessou e pude sentir o que é o amor. Parece letra de música sertaneja, mas é verdade. Flanando, leve e altiva a poucos metros, exalava perfumes que nenhum adjetivo poderia sequer arranhar a descrição.
            Os conservadores gritam lá do fundo: não era Deus e sim o Diabo, em forma de mulher, que irá te levar para o quinto dos infernos! Pois se a mulher é o diabo (na Idade Média, livros e mulheres eram condenados pela igreja por “desviar” o homem do caminho de Deus, que asneira) eu sou então uma alma perdida, para sempre condenada a arder no fogo do Inferno. Tenham piedade de mim.
            O galho é que Deus escreve certo por linhas tortas. Materializar-se na musa, adornada com a esplêndida calça leg impressa ao corpo (leg que vem do latim leggum: irmã das formas, escultora da sedução, semente da imaginação masculina) pode ter sido uma mensagem cifrada.
            Talvez Deus esteja farto do pensamento reto e cartesiano de tanta gente por aí, do discurso obtuso e estreito que ouvimos da classe política, da fria indiferença estampada no jeito “moderno” de viver. Da discriminação às minorias. Aposto que Deus está fulo com o desrespeito ao símbolo máximo da feminilidade, a Mãe natureza. Amai-vos uns aos outros, lembram? Mas não esse amor mercadoria, fast love, típico da sociedade urbana pós-industrial. Ouso dizer que Ele está de saco cheio ao ver a prepotência masculina, historicamente arraigada no exercício do poder. Por isso apareceu assim, mulher, suprema forma frágil, curvilínea, magistral. Não a mulher objeto, sim a inequívoca beleza da complexidade feminina. O Cara sabe das coisas.
            Na correria impaciente da rotina capitalista, ver Deus foi um alento. Um sopro de esperança - ainda não estamos sós. Mas ao relatar o que passou comigo, sofro as limitações da linguagem: tudo o que eu disser será pouco. Deus é indescritível. Ele é tudo o que se possa imaginar e o que nem sequer cogitamos. O tudo. O nada. Ele é a linda morena de calça leg que passou brilhando por mim. Volúpia voraz da divindade atemporal ali encarnada. Dei vestus leggum. como brindavam os romanos na cidade eterna. Deus veste leg.
 
 
            PS: A leitora não deve se espantar, mas nós, homens, nutrimos especial admiração por esta peça do vestuário feminino, a calça leg. Pouco importa se os obscuros interesses da moda areneguem ao esquecimento, muitas vezes. A natureza humana é imutável, o resto é ruído passageiro: não permanece. O fenômeno geométrico “capô de fusca”, de arrebatador efeito junto ao instinto masculino, só a leg proporciona. Para maiores esclarecimentos, leitoras, consultem o homem mais próximo. Ou então, tirem as crianças da sala que eu explico.
 
 
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