Quem desembarca nesse mundo exibindo a torneira no fim da rede hidráulica corporal descobre logo: não basta ser macho, tem que enfatizar. Ainda mais aqui no sul. Questão de sobrevivência da espécie, aprendi, entre um mate e outro que me serviam na mamadeira.
E a infância por estes pagos não é melzinho na chupeta não. Até porque macho que é macho não come mel, mastiga abelha. Inteira. Depois fica brincando de iô-iô com o cuspe amarelado. Macho que é macho tem uma relação sincera com as secreções humanas.
Macho que é macho não vai ao médico, vai ao veterinário. E só quando é coisa grave. Senão, resolve o problema com faca, pomada Minâncora ou Olina. Pó Pelotense ele acha que é coisa de veado.
Macho que é macho toma chimarrão sem bomba e fica acariciando a cuia. De vez em quando lambe-a. Se alguém na roda acha estranho ele pergunta: “o que foi, vai dizer que vocês não gostam de uma boa teta?”
Macho que é macho faz a barba com o esmerilho. Só uma vez por ano, perto do Natal, depois que a família implora e as autoridades de saúde ameaçam prendê-lo. Macho que é macho não usa cueca, gosta de criar o bicho solto. Ele preza a liberdade animal. Macho que é macho não tem barriga de tanquinho, tem é um tanque de guerra dentro das calças.
Macho que é macho não rega plantas, mija em pinheiro e acaba derrubando a árvore. É assim que ele obtém lenha no inverno, estação em que se vê obrigado a usar camiseta. Ao ser convidado para uma festa, macho que é macho só dança para fins de acasalamento. Bebidas prediletas de um macho que é macho: graspa, vodka, tequila, cachaça e querosene. Cerveja só de vez em quando, para curar a azia. Abre a garrafa com o olho ou quebra o bico no canto da mesa. Vinho, para um genuíno macho que é macho, é bebida de fresco. Nunca ofereça chá para um macho que é macho, a não ser que você queira testar a resistência mecânica do seu próprio crânio.
Na hora do orgasmo, um autêntico macho que é macho emite relinchos graves de prazer, dá socos na parede enquanto grita “é Hexaa!!! é Hexaa!!!Coisas que um macho que é macho nunca fará: pedir meia porção de pickles, escolher tonalidades no catálogo de cores do decorador, achar o cabelo da sua amiga legal. Macho que é macho não acha nada legal. No máximo arrota em sinal de aprovação. Tem aquele caso do macho que é macho que, desesperado, procurou um veterinário. “Estou com problemas de disfunção erétil doutor. Tenho dado só quatro sem tirar. É o meu fim!
Mas o macho que é macho não é um troglodita, minha senhora. Ele tem um cérebro. Ele tem opiniões formadas. É um homem de personalidade. Contemporâneo. Plugado não, que plugado é coisa de veado. Sobre o movimento feminino, por exemplo, o macho que é macho afirma que é a favor. Sobretudo o dos quadris. Ele ressalta que a mulher brasileira está conquistando de vez o seu espaço. Prova disso são as cozinhas e áreas de serviço cada vez mais equipadas.
Macho que é macho acha que quem mora de Santa Catarina para cima é tudo veado, até que se prove o contrário. Ou que o cara se mude pro Rio Grande do Sul.
Macho que é macho não perde tempo lendo jornal. Macho que é macho se alimenta de jornal, quando quer comer algo diferente.
Macho que é macho não lê crônica. Nem escreve. Macho que é macho acha que esse negócio de escrever é coisa de veado. E metrossexual, para ele, é apenas um instrumento de medição da sua própria torneira.
Buenos Aires - Recente pesquisa divulgada na rede comprova: de cada 10 argentinos, 9 são megalomaníacos. E o que não é faz terapia, pois jura ser a reencarnação do general San Martin. Por falar em nove, nas fachadas dos antigos edifícios da Avenida 9 de Julio (la mas ancha del mundo, pero no mucho), grandes outdoors ilustram a paixão portenha pela seleção alviceleste. Verón, Messi, Tevez e Maradona surgem em imagens épicas, fabricadas com muito Photoshop. Milhares de bandeiras azuis e brancas esvoaçam feito lenços a acariciar os olhos das fachadas neoclássicas. Dame mas una alegria, Argentina!, exibe o imenso painel suspenso, próximo ao famoso obelisco. Duas estrelas reforçam o pedido. Sorrio no banco de trás de um táxi. Para chegar nas cinco meus amigos, ainda vai longe: vocês não estão nem na metade.
Mas eles tem Buenos Aires.
Você dirá, eles são argentinos. Eu sei, mas eles tem Buenos Aires. Que baita cidade. Cultural e europeia são clichês surrados, pero... Livrarias, cafés, bares, bodegas, comércios, lojas conceituadas, bons restaurantes em profusão. Traçado urbano agradável, hierarquias espacias. Nos parques, a elegância das árvores no outono. A cidade como um ser vivo. Pulsante. Musical. Bandas de rock tocam nas calçadas do centro, guitarra, baixo, bateria, teclado. Gatinhas no vocal. Num restaurante em San Telmo, um cara das antigas executa passagens de jazz e tango no piano ao lado do balcão. Vinhos, massas, alegres mesas, garçons camaradas. Carnes delirantes e macias, feito a luz amarela que preenche o espaço de forma delicada. Flâmulas e camisetas autografadas dos grandes clubes da Argentina e do mundo inundam as paredes e o forro. Pero equipo tico no hay, explica o proprietário, ao ser questionado sobre a ausência de um conhecido (?) clube gaúcho que utiliza três cores.
E ainda há a arquitetura. A ousadia de novos projetos em Puerto Madero, a preservação de inúmeros edifícios antigos em toda parte. Os hermanos respeitam o espírito de uma cidade, que é sempre memória, espaço-tempo, lugar, matéria. Vejo obras de Cesar Pelli, caminho na ponte do Calatrava. Penso em Borges e Cortázar, (garimpei na Corrientes por poucos pesos), imagino-os naquelas ruas. Peço uma Quilmes no antigo teatro, agora grande livraria. Lembramos do assassinato do cine Ópera em Caxias, executado à fogo e mesquinharia. Quanta diferença.
Também há crimes por aqui. Desigualdade social, mendigos nas ruas. Menos que no Brasil. A TV mostra algo do gênero, entre noticiários esportivos e reprises de jogos da Argentina em outras copas. Mas há consciência política. No tapume de uma obra duvidosa, a pichação questiona a aprovação do projeto.
Entre indas e vindas, o taxista confessa: é torcedor do Corinthians. Emitimos interjeições desarmônicas de perplexidade, ele explica:
– Tevez jugó allí.
Depois desafia com a clássica:
– Quien fué el mejor, Pelé ou Maradona?
– Absurdo!, é claro que foi Pelé, ele é o rei – respondemos de imediato, demonstrando a insanidade da pergunta.
– Pelé és Rey, si. Pero Maradona és Dios...recuerdam de la mano?
“Do pó vieste, ao pó voltarás.” Agora entendo. Dieguito pensa que escreve certo por LINHAS tortas.