Criança faz cada uma. Sabe aquele compartimento que fica atrás do banco dos nossos automóveis, que existe para a gente colocar papéis e outras coisas planas? Tipo um bolso. Pois bem, estava eu passeando de carro pela cidade com minha adorável filhinha Brenda - três anos de idade, grandes olhos azuis - e ao parar numa sinaleira, eis que sou surpreendido por esta singela pergunta :
- Papai, o quequié isso??
Do centro do banco traseiro, ligeiramente inclinada à frente, ela estendeu suas graciosas mãozinhas, onde reluziam dois preservativos. Sim, camisinhas. Calma gente, estavam ainda na embalagem.
Eu não lembrava de como e quando elas haviam sido colocadas ali, naquele compartimento atrás do banco do carona. Talvez para algum emergencial socorro em situações críticas, recordo agora. Na época eu desfrutava as saborosas incertezas que só a solteirice, libidinosamente, proporciona.
O contraste da cena abalou-me de imediato, confesso. Uma garotinha angelical, minha filha, sangue do meu sangue, minha herança genética, um bom pedaço de mim mesmo no oceano do passado temporal, uma criança indefesa e inocente ali do meu lado ostentando aquele artigo lascivo, adulto, fálico! Pensei em estacionar o carro e ligar para o meu advogado, pedindo instruções de como proceder para não acabar na prisão pelo Conselho Tutelar ou outra entidade do gênero.
- São, são...propagandas, filha, propagandas que eu recebi aqui na rua, de um menino - foi o melhor que consegui responder.
A curiosidade infantil, porém, é ferrenha e não sossega fácil :
- Mas tem uma coisa dentro papai!
Seus dois grandes olhos azuis transbordavam cheios de uma inocência doce, ingênua e paradoxalmente inquisidora. Ficou ali parada, a esperar uma resposta, um dado concreto que pudesse ser armazenado no seu agadê mental ainda limpinho.
- É que são propagandas para gente grande, meu amor! E mudei rapidamente de assunto, enquanto retirava aquilo de suas mãos...
Numa outra ocasião fui à casa de um amigo buscar um CD de computador. Toco a campainha. Quem me recebe é um guri, cinco ou seis anos, vestido de Batman. Educadamente, o pentelho me dá oi com ar entediado. A criançada de hoje parece que se torna adulta mais cedo, pensei. Triste engano. Nem entro direito na sala e o monstrinho tenta me acertar a região genital com um soco que, não tivesse eu conservado a agilidade dos tempos de colégio, poderia estar agora tratando de assuntos carnais apenas em teoria.
- Macacos me mordam Batman!, eu disse meio sem graça, ainda me esquivando e no fundo querendo esganar o moleque.
- O Curinga tem qui morreeeeeeê! - bradou o pentelho, como quem justifica a insanidade do seu heroísmo. Eu eu fiquei pensando: tô tão feio assim que pareço um vilão?
Mas nada supera em crueldade inocente (e por isso fascinante) o episódio ocorrido com minha irmã e a Brenda. Estavam as duas na sala de minha casa, a Brenda contente por ter sido presenteada por sua dinda com um ursinho de pelúcia muito fofinho. Lá pelas tantas minha irmã começa a conversar com o ursinho, essas coisas que os adultos fazem achando que as crianças são intelectualmente inferiores quando na verdade acontece o contrário. ”Oi ursinho querido, tudo bem?! Essa aqui é a Brenda, a sua nova dona, ela é muito querida e bi-bi-bi...” a minha irmã começou, toda pimpona, como se estivesse intermediando uma hipotética conversa entre as duas e o bicho de pelúcia. A Brenda não deu muita bola no começo. Talvez tenha pensado que sua dinda estivesse sob a ação de alguma vertigem ou devaneio momentâneo (esses adultos!) mas, vendo que ela não arrefecia de sua tarefa surreal (e inclusive elaborava mais perguntas ao pobre urso), a Brenda aproximou-se da locutora e, com um olhar sério e três batidinhas em seu braço , informou suavemente:
- Dinda, ele não fala...