Cadastre-se na nossa newsletter e receba as notícias em seu e-mail.
Passei uma década pensando nos prós e nos contras, elegendo gravuras dignas de uma íntima convivência. Não posso negar, a ideia sempre me atraiu. Admirava o grafismo alheio, a fina estampa dos signos, cores e formas que usaria quando chegasse minha vez. Mas foi a Bruna, já iniciada nessa arte singular, quem deu o empurrãozinho final.”Duvido tu fazer!” E depois: “Imagina, sensível como tu é meu amor! “ Opa. Calma lá, baby. Lembre-se do fato de que sou colorado, nasci no PIO X e daquela velha lição da natureza: não se mexe assim com os instintos impunemente.
Então fui.
Fiz uma tatuagem. Grande, colorida, no lado esquerdo das costas. Um dragão que se transforma numa carpa que se transforma num dragão, que se transformam no símbolo chinês do ying/yang. Ou seria o inverso? Tanto faz. A dualidade de toda existência cravada com aço, tinta e sangue no meu lombo. Quem diz que não dói é porque ainda não fez.
Considerava o orgasmo uma espécie de acrópole do prazer físico e mental, logo acima do espirro e de colocar meias de lã no inverno, antes de dormir. Depois que fiz uma tatuagem descobri um êxtase carnal que, se não ganha do orgasmo, empata sofrendo gol duvidoso no finzinho. É quando silencia o tenebroso zumbido elétrico (dez vezes pior que aquele do dentista), cessa por completo o balé das agulhas sanguinárias sobre a carne e ouve-se a frase redentora, quase música para teus ouvidos hipnotizados : “Acabou, velho.”
Ah, acabou...ACABOU! Estava mais do que na hora. Cada molécula de ar é percebida pela região estampada. Você poderia trabalhar no serviço meteorológico após uma tatuagem, pois consegue dimensionar a velocidade do vento e a temperatura de forma absurdamente precisa, com duas casas depois da vírgula. E há sangue. Como nas torturas. Como nos crimes. Como nas guerras. Uma pequena guerra epidérmica invasiva, na escala dos corpúsculos, tecidos e células. Depois, ao chegar no conforto da sua casa, uma nova rotina o espera. Pomada B-pantol, fita adesiva e filme plástico serão agora seus novos companheiros. (Se você é como eu, do tipo caucasiano semi-Tony Ramos - meio peludo- uma boa maneira de depilar o pescoço é fazer uma tatuagem nas costas. A fita que prende o filme plástico, necessário nos primeiros dias, fará o serviço de PODA direitinho.)
Obviamente compensa. Seu corpo agora está customizado. Ninguém é igual a ninguém, mas você resolveu deixar isso bem claro. O pior já passou, você pondera, feliz da vida. Agora é mostrar aos amigos, se olhar a cada 10 minutos no espelho, jogar bola sem camisa, se exibir para a mulherada na praia, pedir para alguém tirar uma foto e colocar no orkut. Assim que o sangue secar, é claro.
Fico pensando no futuro da tatuagem. Se elas surgiram decorando a pele de piratas, prisioneiros e delinquentes, hoje tudo se transformou. A tatuagem ficou pop. E do jeito que a evolução anda, ou melhor, voa, não será difícil imaginar novas possibilidades. No futuro, os pais poderão escolher tatuagens para os filhos ainda em gestação. As informações gráficas serão geneticamente induzidas por um médico especialista (formado em design gráfico epitelial pela Úspi), surgindo na idade programada pelo casal .“Essa mandala eu acho que a nossa filha vai gostar aos 18 anos, que tu achas meu amor?”. Ou um pai mais fanático, no consultório: “Doutor, o escudo do meu time quero logo no nascimento, não abro mão. E bem grande!” E aquele mais orgulhoso, com os amigos empresários, num churrasco: “Resolvi vender o espaço do tórax para as Americanas, eles estão pagando bem...”
Para os leitores que são, hoje, como eu era tempo atrás, sem nenhuma IMAGEM no corpo, tenho pouca coisa a dizer. Encarar o desafio de ser tatuado requer algumas características pessoais e intransferíveis. Resistência, desprendimento, coragem, audácia, ausência de preconceitos. Em outras palavras: tatuagem é algo para FORTES.
Duvido tu fazer.
