Estavam num quiosque à beira mar em Florianópolis. Um gaúcho e um catarinense. Recém casados. Não entre eles, calma. Suas mulheres haviam ficado no centro da cidade, fazendo compras. Eram irmãs, e quase todo verão os dois casais passavam juntos. E quase sempre na casa dos catarinenses, que convenciam o outro casal através de argumentos do tipo “praia gaúcha é igual a modelo anoréxica: muitos pensam que é linda, mas na verdade é reta, chata e sem graça.”
Cerveja vai (vazia) e cerveja vem (cheia), os dois começam uma discussão. Por algo de supremo valor para a vida quando se está levemente bêbado. Ou seja, por uma bobagem:
- Catarinenses...Falam avião de rosca quando querem dizer helicóptero. Ah, pára!
- E vocês, gaúchos? Chamam policial de brigadiano.Vê si pode!
- O resto do Brasil tem inveja da nossa autenticidade linguistica.
- Sim, sim. Tri massa que o diga. Parece quantificação de comida. Ou alguma variedade de canelone.
- Tri massa e tri legal surgiram nos anos 80, depois do tri invicto do Inter. Ninguém mais tem, velho! E por falar em futebol, quando é que vocês vão conquistar algo de expressão, hein? Acho que se o time da Randon disputasse o Catarinense, ganharia com folga. Duas rodadas antes do fim, um vareio...
- Olha só quem falando! Fizeram um cai-cai aquela vez contra o Figueira que deu dó. Mané comenta aqui que a melhor escola de teatro que tem é a caxiense. Encenam que é uma beleza.
- Bah, essa vez fomos roubados! Como sempre, aliás.
- O gaúcho tem é mania de perseguição. Além do fascínio por objetos fálicos. A bomba do chimarrão, aquela chaminé do Gasômetro, o Parque do Sol, hummm...
- Mais um caso de inveja. Dessa vez, dos símbolos da nossa macheza.
- ...pão é cacetinho...coisa gay...
- Tá bom...Macho é o catarinense. Esse sotaque não engana. Vocês não passam de uns cariocas frustrados!
- Frustrados são os gaúchos, que tem as piores praias do hemisfério sul.
- Tava demorando pra falar nas praias! Tava demorando!
- Mas não é verdade? Dizem que Deus começou a desenhar o litoral brasileiro lá pelo norte e foi descendo. Quando chegou em Torres, Deus teve vontade de ir ao banheiro e parou de desenhar.
- E o que aconteceu depois?
- O Diabo pegou o lápis e desenhou o resto.
O gaúcho já cogitava a possibilidade de arremessar a garrafa na cabeça do catarinense, quando chegam as duas mulheres. Sorridentes, sentam à mesa, mostram as compras e comentam de como é bom passar o verão em Santa Catarina e o inverno no Rio Grande do Sul. E de às vezes fazer o contrário, para quebrar a rotina. Listam um rosário de belezas dos dois estados. “São os opostos complementares”, comenta a mais nova. “Arroz com feijão”, emenda a outra. “Um lugar não vive sem o outro, não acham?”, pergunta a primeira.
A felicidade das duas é contagiante. Comovidos na sincera devoção etílica, os dois homens se olham:
- Bunito isso! Vamos fazer um churrasco pra comemorar! - propõe o catarinense.
- Vizinho e irmão bagual...- murmura o gaúcho com os olhos úmidos, abraçando o amigo.
Depois de pagarem a conta na saída, um dos garçons ainda comenta com o grupo:
- Olha lá um avião de rosca dos brigadianos voando baixinho...
Que me desculpem as carolas e os defensores do comportamento puritano e da linguagem politicamente correta, mas aquilo não era uma bunda. Uma simples e prosaica bunda, não.
Primeiro: se fosse apenas uma bunda, todo o sentido do vocábulo bunda precisaria ser redefinido. Não seria justo com aquela bunda. A gloriosa Academia Brasileira de Letras seria acionada e quem sabe até uma nova palavra surgisse para definir tudo aquilo. Que definitivamente não era uma bunda!
Encantadora e mágica, flanava arrastando intelectos por entre a horda de caminhantes apressados. Avistei-a numa tarde dessas, a luz macia banhava a melódica dança dos volumes exemplares. Aquilo não era uma bunda. Era uma sonata de Chopin a embalar os sentidos corporais entorpecidos. Era a guitarra de Satriani em Summer Song, traduzida em balanço doce da carne (se o leitor nunca ouviu essa música nem tampouco sabe quem é Satriani, deve ajoelhar-se imediatamente sobre cacos de vidro!)
Aquilo não era uma bunda. Era um passeio inesquecível na montanha russa alucinante da libido. Vertigem de altura encharcada de adrenalina, que faz tremer mas leva ao paraíso do Céu. Era uma borboleta colorida e perfumada, flutuando na selva barulhenta de concreto cinza. Sorvete de chocolate generoso no verão da infância.
Aquilo não era uma bunda. Era uma poderosa arma de sedução curvilínea, estratégia de marketing da natureza para a eterna poesia da conjunção carnal. Antídoto amoroso contra D.R. (discutir a relação), contas a pagar, visita repentina de alguém indesejado. Era uma vaia às chatas preocupações cotidianas, filas de banco, ligações de telemarketing.
Não, aquilo não era uma bunda. Era a representação concreta do desejo carnal inconsciente do homem primitivo. A calça leg que a cobria apenas simbolizava sua relação dialética com o mundo moderno. Ou a impossibilidade de sermos plenamente felizes hoje, o que dá no mesmo.
Aquilo não era uma bunda, era uma aula de metafísica. A manifestação cartesiana do impossível, do que não podemos ter. O princípio da incerteza, que pode te encher de esperança ou te arrasar, sem piedade. Yin e Yang. Era uma notícia boa sexta feira à tarde. Um churrasco ao lado de todos nossos amigos, até com os que já se foram. Era a alegria imatura do recreio de colégio, quando se é criança.
Aquilo não era uma bunda. Era uma aula de geometria espacial. Obra prima do sublime escultor Deus, elaborada num insight de perfeição incomparável. Posso vê-lo recostado no trono aéreo feito de nuvens, sorriso divino no rosto, logo depois de esculpir a peça:
- Vem ver São Pedro. Vem ver!
- Espetacularmente bela, Senhor. Parabéns! Você com as mãos é insuperável, hein? De vez em quando é bom produzir fora da linha de montagem computadorizada. Vai mandar lá pra baixo hoje? Eu vou indo, ainda tenho de receber umas almas e...
- Senta aí. Vamos tomar uma caipirinha pra comemorar. Essa beldade vou colocar no Brasil!
- Como quase todas as outras, não é Senhor...
Sacaram agora porque que Ele é brasileiro?