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O homem depois dos trinta

Enviado Segunda-feira, 08 de novembro de 2010 às 10:28:52 | Nenhum comentário »

Alguma coisa acontece com o homem depois dos trinta.

            Não se trata apenas da questão temporal, compasso inabalável a que estamos submetidos, feito escravos de um poderoso rei, desde o útero quentinho. Ficar mais velho é do jogo. O galho é que o homem, depois dos trinta, transforma-se num sujeito peculiar. Descobre-se outro homem.

            Fazer a barba ganha temperos de chatice. Nas primeiras penugens juvenis, o orgulho adolescente do acesso ao universo macho. O prazer da lâmina inaugural ceifando os pelos de pêssego supra labiais. As dicas do pai e dos mais velhos na arte de deslizar a gilete. Agora, depois dos trinta, a preguiça de espalhar a espuma, o enfado da rotina ao escanhoar militarmente a face duas vezes por semana. Ou mais, de acordo com a profissão e o visual pretendido.

            A verdade é que, depois dos trinta, o homem acessa um território ambíguo. Exemplo: as crianças e os adolescentes o chamam de tio. “E aí tio, cinco real na volta?”, sempre ouço de algum pequeno profissional da arte de guardar carros, ao deixar o bólido no centro da cidade. Já as amiguinhas da minha filha de 6 anos também apreciam o uso da alcunha, embora eu não seja irmão do pai nem da mãe de nenhuma delas. O  pessoal mais velho, porém, nos garante fragmentos de felicidade, ao se utilizar do cordial  “ô meu jovem” no trato com a nossa categoria. E se a vida começa mesmo aos quarenta, o que é o homem depois dos trinta? Um feto? Um óvulo? Um espermatozoide agitadinho? Estaria ele numa espécie de outro plano, embora coexistente, aguardando o instante de começar a aventura humana propriamente dita? Não há dúvida. Depois dos trinta o homem atravessa paradoxos existenciais.

            Atenção mulheres. Agora a parte boa da história. O homem, depois dos trinta, é considerado o parceiro ideal. O amante completo. Faz sentido. Ele conserva boa dose de vigor juvenil, aliada a crescente maturidade e experiência. Não ri de piadas ingênuas como fazem alguns adolescentes. Não tece comentários inadequados e infantis, ou coça a região interna do nariz durante o jantar, como fazem alguns adolescentes. Não dá mais importância ao carro do que a mulher, como insistem alguns carinhas de vinte e poucos. É capaz de descrever um vinho, recitar um poema ou mandar flores  para sua amada com autêntica masculinidade. Fala sobre moda ou culinária sem afetação. Na arte daquilo que você está pensando, ele aprendeu o valor das preliminares e pratica-as com destreza. Sabe como vestir o corpo de uma mulher com as carícias adequadas. As sutilezas do universo feminino não lhe são estranhas. Pelo contrário: são um gostoso desafio. Sabe que um beijo pode ser mais íntimo que o sexo. E sabe também que a propaganda é a arma do negócio, como ensinava aquele filósofo caipira.

            Por outro lado, seria  o homem, depois dos trinta, um pré-velho? Porque algumas vezes ele se chateia ou resmunga feito um idoso, esbraveja, sente cãibras, cansa no segundo tempo do futebol com os amigos. São os efeitos do poderoso rei Tempo, ainda que de uma forma branda e amena. Vários jogadores que foram ídolos do homem depois dos trinta já penduraram as chuteiras. Os filmes que marcaram a  sua vida já passaram, ao menos uma vez, na Sessão da Tarde. As bandas da sua época, raras exceções, ou já terminaram ou seus integrantes aparecem gordos e grisalhos em shows beneficentes. O homem, depois dos trinta, é rodeado por mensagens subliminares.

            Coisas que um homem depois do trinta deve evitar, sob pena de ser visto com desprezo pela sociedade atual: usar camiseta de banda, falar “tá ligado”, andar de skate (exceto se ele viver disso), fugir de casa, desmarcar um encontro amoroso para jogar videogame, rebaixar o carro, usar blusa amarrada na cintura ou calça aparecendo a cueca, assistir novela, coçar a região interna do nariz durante o jantar, pedir fanta uva no restaurante, andar de carrinho de lomba, levar playboy para o banheiro, ficar com duas ou mais mulheres simultaneamente (exceto se ele viver disso).

            No fim das contas, o autêntico prazer de um homem depois dos trinta é se deliciar com uma singela e fugaz virtude: a de que ele ainda não é um homem depois dos quarenta.

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