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Perder um amor

Enviado Sexta-feira, 23 de outubro de 2009 às 15:21:29 | Nenhum comentário »

Perder um amor é fácil. Não exige esforço, nem sequer talento. Constrói-se um amor sobre as fundações da paixão. Depois, os tijolos do tempo vão lhe dando firmeza, abrigo. Perde-se um amor em minutos de egoísmo e vaidade. Tsunami invisível que devasta só por dentro. 

Perder um amor é agulhada constante no peito. Máquina de costura cerzindo o músculo cardíaco. Gosto amargo da lágrima sempre quente na garganta. Solavanco emocional a sacudir o cérebro delirante. Não ter onde pisar, não ter para onde ir. Nem o que respirar.

Perder um amor é desejar ter inventado a máquina do tempo. Voltar atrás, redesenhar corrigido o que passou imperfeito no caderno da relação. Desviar-se da hora H que o deixou ali emparedado. Angústia do arrependimento batendo na porta do cotidiano, feito cobrador nervoso (e armado).

            Perder um amor é ser a bola de futebol na marca do pênalti. Chutada para fora, suspiro nervoso da torcida frustrada. Xingamento ardendo na orelha quente. É ver o time do coração tomar um gol aos 44 do segundo tempo. Contra. Na final do campeonato.

            Perder um amor é rasgar projetos do futuro. É despedir-se do filho que ainda não veio. Colocar no lixo a planta da casa não construída. Perder um amor é ajoelhar-se na calçada, penitência cinza de basalto. É andar de bicicleta de madrugada, a esmo, como se assim fosse possível estancar um pouco da dor. O vento no cabelo é só efeito placebo. É experimentar um ano num segundo. Olhar incrédulo para o relógio congelado, instrumento de tortura chinesa na parede, no pulso. No cantinho do monitor, zombando de ti.

            Tento ver o lado bom mesmo na desgraça. É da raça humana. Perder um amor ensina. Para a mulher, perder um amor a deixa mais forte. Para o homem, ensina a ser realmente homem. Mostra que ele também pode chorar. É didático. Instrui este macaco civilizado a pensar com a cabeça correta. A descobrir que cada ato está intimamente ligado a todos os outros atos. Como os beijos, que nascem dos abraços e que, por sua vez, levam a outras carícias, para depois transformarem-se no calor da carne confortada. Perder um amor me fez aprender a não tirar os anéis para digitar no computador. Nem para enxugar as lágrimas. Minha coordenação motora melhorou, depois de perder um amor. Jardim da infância tardio, puxão de orelha da professora Vida.

            Depois de perder um amor, resta-nos crer. E reafirmar o genuíno amor. Sem medo ou vergonha, pois todo amor é assim espaçoso, inconsequente, visceral. E sublime, pois perdoa: sabe que qualquer coisa comparada a ele será menor. O amor toma conta. Não sabe se comportar em público. O amor fala alto, dá cotoveladas, é brega e elegante ao mesmo tempo. O amor ri, depois chora. E volta a rir, com os olhos ainda úmidos. O amor é o girassol de plástico no bolso do paletó xadrez. É o longo beijo de cinema que te faz lembrar dela (ou dele). É o encontro do rosto dele (ou dela) com o teu ombro. A dor calada e inerente ao próprio ato de amar. Até porque, se o que você perdeu era mesmo amor, só lhe sobrará a reafirmação. E a crença. Na ilimitada capacidade regenerativa do próprio amor, que não conhece o fim.

Coisa boa era sonhar

Enviado Sexta-feira, 09 de outubro de 2009 às 11:40:22 | Nenhum comentário »

                                                                                                    “As crianças acham tudo em nada,

os homens não acham nada em tudo.”

                                          Giacomo Leopardi

            Coisa boa era sonhar, quando criança, com imensas máquinas de fazer dinheiro, onde iríamos imprimir oceanos de cédulas para comprar bicicletas, carrinhos de controle remoto e álbuns de figurinha, e depois entregaríamos grandes fardos da riqueza aos mendigos, aos nossos pais e aos velhinhos desamparados para que nada lhes faltasse, e por consequência tudo ficaria melhor e mais bonito, a cidade ficaria mais feliz e nada nos faltaria também.

            Coisa boa era sonhar, há tempos, em ser gigante e esmagar exércitos de formigas durante guerras imaginárias contra todo o mal do mundo. E chegada a vitória, empalar os gafanhotos rebeldes na praça central do pátio ensolarado, num glorioso ato que servia de exemplo a todo séquito de insetos submissos.

            Coisa boa era sonhar, naquele tempo, que éramos pequenos seres alados e nada de ruim poderia nos alcançar, pois bastava um natural sorriso para o derretimento instantâneo de qualquer adulto a nossa frente e depois era só a fruição da conquista: sorvete de uva, barra de chocolate ou talvez um brinquedo?

            Coisa boa era poder dormir até bem tarde, só para sonhar mais. E quando acordar continuar sonhando, porque o viver da criança é uma constante lúdica, desejo em alta concentração do instinto utópico bruto, passeio mágico flutuante em bolha de sabão. Sonhar com o primeiro beijo era coisa boa, mistério envolvente e úmido da carne ainda adormecida.

            Coisa boa era sonhar ser rei, príncipe, dragão, astronauta, cientista, jogador de futebol, astro de rock, galã de filme de aventura, presidente do Brasil, viajante do tempo e general, tudo no mesmo dia. E viver apenas na eternidade do instante, um dia depois do outro, como só os sábios sabem viver, pois todos os dias eram domingo, todos os dias eram o dia das crianças.

            Nunca deixe morrer a criança que há dentro de você. O conselho é antigo, mas ainda válido. Porque nada pode ser mais triste do que uma pessoa que não se propõe a sonhar. Tem coisa mais chata que um sujeito que está sempre sério? Que inicia tensas e monetárias considerações em qualquer conversa de meio de tarde ou café da manhã? Que nunca ri de si mesmo? Que não considera a imaginação legítima faculdade vital? Enquanto os homens práticos, ausentes de sonho autêntico, classificam o mundo ao seu redor através de filtros superados, a criança (e o poeta, o louco e o artista) vive na eterna ruptura do cotidiano enfadonho, no limite do instante lírico e criativo. Os sonhos nada mais são do que alimentos naturais para o espírito humano.

            Mas falava das graciosas quimeras infantis. Como era bom sonhar ser habitante de imensas cidades, formadas por magníficos edifícios de polenta frita e bolo de chocolate, entremeadas por imensos aquedutos de Fanta Uva e rios de guaraná Polar, onde tomávamos banhos imaginários depois das aulas extenuantes de Educação Física. Jardins de cubos mágicos e suas generosas sombras no verão, árvores de Cebolitos e plantações de bala Xaxá , ingênuos devaneios que ilustram nossa eterna busca pela felicidade...

             Coisa boa era sonhar que o mundo podia ser um lugar perfeito. Mas a cada segundo que passa, enquanto mofam as gravatas esquecidas no interior do armário escuro, o tempo soberano escorre sem volta ralo do banheiro abaixo, e nos esfrega na cara toda manhã (como naquela música) o fato cristalino: já não há mais tanto tempo para sonhar.

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