Sábado à noite sempre será uma ótima oportunidade para o exercício da purificação etílica e também para se viver um pouco, então naquele final de semana rumei para o Boliche com minha garota, embalado por estas duas nobres causas. A banda de um amigo tocaria por lá e já estávamos um pouco fartos de festas com música eletrônica ou mesmo rock reproduzido mecanicamente por Dj´s. Numa mesa bem posicionada, desfrutávamos da agradável atmosfera do lugar enquanto o show não iniciava: luz amareladamente macia e na dose certa, espaços corretamente distribuídos, garçons e garçonetes atenciosos como enfermeiras de berçário de hospital bom. Então chega meu amigo Sequinho carregando sua guita e é cumprimentado efusivamente por uns caras, até com gritinhos por algumas garotas, gente que eu não via há tempo e olha ali, não é que outro camarada também faz parte da banda, o Fofo!
Aterriza no tampo da mesa de madeira escura nossa primeira mamadeira trazida pelas aplicadas enfermeiras. Mergulhada no gelo reluz uma graciosa Patrícia, esta loira fatal que logo desce redonda e num breve lampejo sinto que a noite promete mesmo. Uma percepção mais nítida e densa aliada aos sinais me diz isso, como exclamava o Medusa quando aquecíamos com vários goles na casa de alguém antes de irmos para o Roda: bateu o fluído bom!
Os caras e as gurias que se chamam Bete Balanço sobem no palco e iniciam a brincadeira. Abrem com a música que batiza a banda, a guitarra do Sequinho costurando a clássica melodia e depois elevando-se no solo final que empurra todos pra alguma garagem ou boate de clube dos anos 80, onde me vejo encostado na parede com uma calça xadrez e uma cuba na mão. Minha garota não compartilha muito dessa parte, porque na época ela ainda agitava-se no mar quentinho e tranqüilo do baixo ventre de seu progenitor e quando percebo já estamos com os Stones em Start me Up; me ajeito na cadeira porque agora ninguém segura e depois troco um longo beijo com Bruna. Os caras e as gurias da Bete hipnotizam todos no ambiente.
Sorrimos feito bebês que ainda somos, pois seguem as carícias sonoras com clássicos da soul music, do rock nacional e internacional. Alguém está de aniversário na platéia, Bete executa um parabéns roqueiro, minha garota entusiasma-se com a atmosfera geral de controlada insanidade e adquire um maço de L.A. sabor cereja para acompanhar as Patrícias. Agora já é euforia por entre brumas de fumaça, luzes coloridas e riffs de guitarra.
Lá no palco o camarada Fofo lasca um Joe Cocker com tamanha qualidade que uns caras da mesa de trás pensam tratar-se de playback mas não, é o próprio Fofo que encarna o baixinho cantor e arrepia o coração da galera com Unchain my Heart, enquanto as gurias da banda produzem incríveis backings extasiantes feito doses de Prozac 20 mg . É quando o magrão calvo e de óculos escuros do sax aplica-nos uma anestesia harmônica e aveludada no solo de Meu coração Não Suporta Mais, clássica do rock gaudério, e tudo já é nova emoção, cantorias do público, aplausos e assobios. Há também depois o merecido descanso para os vocais e diante disso resta solitária no palco a santíssima trindade do rock: guitarra, baixo e bateria. De arrasar! Jethro Tull e outros venenos injetam adrenalina no recinto e subitamente murmúrios já são gritos e um novo e grandioso alvoroço de entorpecimento geral.
Mas como sempre acontece nas coisas boas, tudo parece ter decorrido em poucos momentos. É o efeito mágico do tempo para as alegrias intensas. A caminho da saída, sorrisos e olhares tenros denunciam a saudável elevação espiritual ali experimentada na grande, bárbara e inesquecível noite com Bete Balanço. Me avisem quando for a hora.
Não, não te levantes agora meu amor. Não faças com que o calor dos nossos corpos se esvaneça pelo quarto, no revirar dos tenros lençóis, e se derrame pelo oceano frio do piso lá embaixo. Estamos a salvo na ilha macia da cama, nosso palco de encontro cálido, luxúria poética e deleite espiritual. Isso mesmo, minha gata, espiritual: profunda é a comunhão de dois corpos e duas almas, asas de pássaro uno a bater na mesma frequência, acorde harmônico ressonante com o cosmo. A unidade que, nos primeiros tempos, foi destruída pelo Criador, para dar mais tempero à simples existência... Duas metades agora a compor um todo.
Como dois náufragos, restamos sós da falência do mundo: o caos urbano com suas buzinas, fumaças e mesquinharias não merece mais nossa preciosa energia. Da áspera selva lá fora, ecoam tênues sinais da loucura que é viver deslocado, ausente de si mesmo no labirinto de aço, concreto e asfalto. Não, nem pense nisso. Nossa alcova é melhor do que qualquer uma destas disneilândias habitadas por andróides insípidos.
Assim reconfortados, sorrimos. Muitas vezes há risos. É a euforia, o devaneio da cumplicidade absoluta. Depois de saciada a incontrolável fome carnal, alcançamos um estado sutil do pensamento. Sabes da última teoria da física moderna, my girl? Não passamos de macromoléculas pensantes, compostas de carbono, eletricidade e água, na verdade instrumentos de uma ordem superior, que nos faz agora protagonistas, noutro instante coadjuvantes e depois o próprio cenário... Tudo está irremediavelmente conectado. E em movimento. Este outro beijo que trocamos não traduz-se apenas num beijo. É também muito mais: torpores de correntes moleculares inebriantes (o amor químico?), um tornado no sul da Califórnia, o aceno de uma garota de vestido branco numa estação rodoviária do interior gaúcho, a luz macia do final de alguma tarde de inverno, o reencontro de um apaixonado casal no cais do porto de Lisboa. Quem poderá saber? Os caminhos da existência são curvos e conexos, sorrateiros e imprecisos: uma cobra rastejante à procura de sua presa na coxilha infinita.
Sorve mais esta dose do néctar, meu amor: água levemente gaseificada, vodka, limão e açúcar. Nosso peyote sagrado e ritualístico, sumo precioso que derramo em tua pele, lentamente, como refúgio dos pesares mundanos. O velhinho louco, de cabelos brancos desgrenhados, estava absurdamente certo: matéria é energia, energia é matéria, um enlace tórrido que há pouco pudemos sentir, em sua dimensão mais primitiva...
Ausência do Tempo. De quantos paradoxos é feita a eternidade? Vivo num imutável presente ao teu lado, passado e futuro se diluem em sombras irreais. Depois do sexo, nada foi e nada mais será, tudo apenas é, envoltono ar, inexprimível. E é sempre essa preguiça gostosa, essa languidez das carnes, esse deleite que é também um alento, feito um revoar de pássaros numa tarde de verão. Nos meus lábios ainda o teu suor, no teu corpo ondas de progesterona e os mágicos ventos de endorfinas; e quando tudo já é de novo abraço, sobrepõe-se então mais um beijo, um longo e demorado beijo.
No cais do porto de Lisboa, um casal deixa cair o bilhete da passagem que a brisa logo suspende, durante também outro longo beijo.