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Não sei você, mas eu prefiro as mulheres nas estações frias do ano.(Se você não prefere mulheres sob hipótese alguma tudo bem, pode continuar a leitura, mas não vale me chamar de tarado depois do texto, tá?)
Minha tese aparentemente esdrúxula é a seguinte: as mulheres ficam mais gost, digo, belas nos dias frios. Com mais (e não menos) roupas e acessórios a adornar suas admiráveis volumetrias. Não, não foi a baixa temperatura que abalou o funcionamento do meu sistema nervoso. Trata-se de pura constatação empírica. Eu e um grupo de amigos (Alemão, Bosi, Lução e Ale, abraços) saímos por aí nas diferentes estações do ano e chegamos a uma incrível constatação: o mistério seduz mais do que a nudez. Eu sei, nossa descoberta é tão inovadora quanto seria a invenção do mimeógrafo hoje, mas nem por isso o tema fica isento de sutilezas. Pensem na estranheza e absoluta falta de graça em um homem que, na arte da conquista e do enlace amoroso, já encontrasse a mulher desejada completamente nua. Ou submetida apenas à crueldade de um biquíni minúsculo? Seria como morar na Suíça: no início, inacreditável e deslumbrante; com o passar do tempo, tedioso e insuportavelmente monótono.
O sabor do desafio é que alimenta e provoca o instinto. A nudez feminina, e toda a sua roda de apreciáveis nuances, precisa ser conquistada passo a passo. Zíper a zíper. Admirada em cada sutileza formal, ela é como qualquer experiência estética e sensitiva: requer um mínimo de tempo para que a absorção seja prazerosa. Você já viu um sommelier saborear um vinho num gole só? Para deliciar-se com um solo do Steve Vai ou um tango de Gardel, é preciso uma dimensão temporal específica. Assim é também no jogo amoroso. Cada botão aberto de uma blusinha ou de uma calça é uma pequena vitória pessoal, um gol marcado fora de casa que pode trazer a vitória pelo saldo qualificado. E você prefere desprezar esse infindável cardápio de sabores femininos e encontrar tudo mecanicamente... nu? Eu sabia que a lógica de mercado contaminaria o amor...
Talvez a sociedade de consumo e o festejado universo digital tenham mesmo boa dose de culpa nisso tudo. A nudez feminina é hoje tão banal. Nunca foi tão fácil ver uma bunda, um peito. Nossos prazeres foram todos descobertos e mercantilizados. Sobra pouco espaço para o sonho e a fantasia. Tudo tem que ser rápido, prático, eficiente. Esmaga-se a variável tempo em nome da eficácia. É a ditadura do resultado. O desejo tornou-se digital. Virou byte. Outdoor eletrônico. As mídias vomitam nudez em profusão, seios turbinados, corpos perfeitos, inatingíveis. Atrizes que podiam ser nossas avós são photoshopadas até transformarem-se em guriazinhas de vinte e poucos anos e ninguém fica vermelho!
Um pouco mais de roupa, uma luz mais suave (ao contrário de tantos flashes), um mundo mais lento, atmosferas que respeitassem os valores dos silêncios e dos vazios deixariam a vida mais natural. Quando tudo é nudez, nada é nudez. Sei lá, é que pra mim tudo começou nos pátios dos colégios, nas festinhas dos anos 80, nas casas dos amigos quando os pais iam viajar, onde cada centímetro de avanço era negociado à exaustão.(Vejo os guris de hoje entediaram-se facilmente e reclamar da vida na companhia de pequenas deusas loiras, ruivas e morenas).
Tudo é uma questão de tempo. Um velho novo inverno se inicia. Que mistérios esconderão as mantas femininas, enroladas feito sinuosas serpentes a desenhar-nos o pecado em alta voltagem? Na selva urbana de aço e concreto, flanando na altivez de suas botas de canos infinitos, arrancando suspiros da turba com suas esculturais calças leg, as mulheres dos dias gélidos são líricas amazonas a capturar o inconsciente coletivo dos homens, o verdadeiro sexo frágil.
Se o frio geometriza as coisas, a graça da mulher tudo suaviza. É a velha paixão da natureza pelo equilíbrio. Se você é mulher, esta é uma singela homenagem a toda a sua beleza e superioridade. Se você é homem (ou seja, apenas um macaco evoluído), e ficou inclinado a concordar com os argumentos deste escriba, bem vindo ao FMB Club (no FRIO as MULHERES são mais BELAS Club). Só não aceito o rótulo de tarado. Talvez bairrista. É que aqui no sul do país os dias são mais frios. E as mulheres mais belas.
Depois da água sem gás queriam um aperitivo, mas o garçom insistia em não ver o seu gesto. Ela achou atraente a maneira dele erguer o braço, o charme ao olhar para o lado. Era a primeira vez que saíam para jantar. Ele quis ser engraçado.
– Os humanos se dividem em três grupos: o das pessoas que preferem caipirinha de limão com casca e o das pessoas que preferem caipirinha de limão sem casca.
– E o terceiro grupo?
– O dos abstêmios. Mas pra mim, esse não conta.
Ela riu. As mulheres adoram homens que as façam rir. Ela ainda acrescentou, simplificando a questão:
– No fim das contas, as pessoas se dividem mesmo entre homens e mulheres...
– E o terceiro sexo?
– Não foi projetado. Pra mim, esse não conta.
Foi a vez dele sorrir. Os homens adoram quando tudo começa bem. Porque sabem que tudo pode acabar bem, em um lugar ainda mais agradável do que a mesa. Ele continuou no tema, tentando parecer um homem mais profundo. As mulheres adoram homens mais profundos.
– Pensando bem, sempre haverá uma terceira via. Em tudo. Uma tese, sobreposta a sua própria antítese, produz a síntese.
– É possível que sim. Mas confio mesmo no poder das dualidades. Yin e Yang. Sim e Não. Dia e Noite. Grêmio e Inter....
– Já vi que você é uma mulher decidida. Oito ou oitenta!
– Sou mesmo. Não gosto de ficar em cima do muro.
– Mas e o Caminho do Meio, que os sábios chineses diziam ser o mais sensato?
– Sabe o que eu acho desse famoso Caminho do Meio? Que ele só existe pra quem fica em cima do muro.
– Deve ser por isso que esse conceito apareceu na China, terra da grande Muralha. Tem até um caminho em cima, bem no meio, ehehehe....
Mas ela não achou engraçado. Inclinou-se para frente e acrescentou, com toda gravidade que uma mulher pode acrescentar:
– Odeio homens divididos, cheios de dúvidas e ponderações. São como dias de menstruação. Só dão dor de cabeça.
– Personalidade forte a sua, hein? Mas lembre-se das frases famosas a respeito do tema. Exemplo: “Dividir para conquistar.”
– Napoleão?
– Não. Minha vó Têre, ao servir a nega maluca aos convidados.
– Rá,rá,rá... Sem graça você. Sempre achei que os homens se dividem em dois grupos que começam com a letra P: os Patetas e os Panacas.
– E as mulheres em P e NP. Pegáveis e Não Pegáveis.
– Ou melhor, letra I: Imbecis e Insensatos!
Disposto a evitar a construção de um barraco no meio do restaurante, ressurge o garçom.
– Perdão. Vocês preferem a caipirinha de limão com ou sem cas...
– Com casca, é claro. Só os fracos e as mulheres preferem sem – ele se antecipa.
– Acertou, primata. Prefiro sem. Mas como vou embora, fique à vontade. Bye, bye!
– Como diz o Humberto: “tudo se divide, todos se separam”. Tchau!
– Foi um desprazer não jantar com você! Ah, e eu odeio Engenheiros do Hawaii.
– Finalmente concordamos em alguma coisa. Falo do desprazer!
– Ô raça triste!
Pediram a conta ao garçom, que permanecia imóvel. E constrangido.
– Olha, vocês tomaram só uma água sem gás. São ...
Foi a vez dela se antecipar :
– Não interessa. Divide!
Não se sabe quem inventou o buffet à quilo. Dizem até que foi um caxiense. Faz sentido. O buffet à quilo é um aperfeiçoamento criativo do tradicional buffet, onde as pessoas é que vão até a comida (e não o contrário, como nos restaurantes à francesa). Só que no buffet à quilo a coisa fica mais especializada. E rentável. Servir-se, pesar, comer, pagar. E dar lugar à outro. O empreendedorismo em estado bruto. Os consumidores são frágeis galetos a perambular sem escolha pela linha de montagem, rumo à imparcial balança monetária. (Oh meu deus, que coisa mais caxiense isso!) E o chuchu vale a mesma coisa que o filé mignon. Adivinhe por qual dos dois o preço do quilo é estipulado.
Para você que, feito eu, é usuário costumaz de um buffet à quilo, elaborei algumas dicas que podem ajudá-lo a se dar bem nesta peculiar forma de alimentação pós moderna.
ECONOMIZAR É PRECISO- se você, feito eu, está na pindaíba econômica, tendo que obter empréstimos financeiros divinos à fundo perdido (assaltando a capelinha), existem várias estratégias para gastar pouco num buffet à quilo. A mais prática e facilmente executável é esta: traga seu próprio prato de casa. Aqueles de plástico ou papelão, descartáveis. Como as balanças são programadas para pratos de louça, você ganhará preciosos gramas de alimento com esta técnica singular. Em poucos dias uma parte vital do seu corpo irá se tornar absurdamente mais saudável: o bolso. E o melhor, sem qualquer prejuízo ao estômago. Mas se você quiser comodidade, não precisa levar nada ao restaurante. Há outro método igualmente eficaz. Na hora de pesar a comida, não largue completamente o prato. Suspenda-o de forma leve, sem desgrudá-lo da superfície metálica da balança, até que o preço que melhor lhe agradar surja no display. Faça isso sempre conversando com a menina que preenche as comandas. Não tenha medo dos clichês. (Você viu a quanto foi o dólar hoje, guria? Será que vai chover? Lindas cortinas, mas gostei mesmo do papel de parede.) É um técnica que requer prática, mas com algum treino você pode conseguir ótimos resultados. Caso a menina que preenche as comandas ameace chamar o gerente, diga que você sofre de T.O.C. 6 (transtorno obsessivo compulsivo grau 6) e possui uma rara coleção de facas Guinzo em casa. Comente com alguém na fila que a mulher que você esfaqueou acidentalmente já saiu do hospital. Não esqueça de mencionar que você mora a meia quadra do restaurante.
PEQUENOS MICOS, GRANDES MANCADAS – Como em qualquer estabelecimento, o buffet à quilo é regido por algumas normas de comportamento. Lembre-se que na área gastronômica um pequeno vexame pode marcar sua reputação para sempre. Exemplo: se o restaurante não dispuser de ninguém para lhe indicar uma mesa, não se dirija afoitamente ao buffet assim que chegar. Não comporte-se como um primata faminto. Escolha a mesa primeiro e só depois vá em busca do alimento. Nada é mais desagradável do que alguém derrubando estrogonofe de frango na sua camisa enquanto perambula perdido à caça de uma mesa vazia.
MUITO AJUDA QUEM NÃO ATRAPALHA - Mais raro que argentino com complexo de inferioridade é um buffet à quilo com serviço impecável. Nada é perfeito nesse mundo. Acima de tudo, mantenha a calma. Sempre haverá um garçom distraído. Não se irrite facilmente. Entenda que você é parte da engrenagem socio-gastronômica do buffet à quilo. Dê sempre espaço para a tiazinha que repõe o feijão. Não insulte o garçom se ele trocar seu refri por suco de beterraba.
PRIORIZE ESCOLHAS SAUDÁVEIS- Pesquisas na área da alimentação comprovam a grande toxicidade das saladas e outros alimentos perigosos, como frutas e legumes. Faça escolhas saudáveis. Cientistas descobriram que a área do cérebro humano relacionada ao empreendedorismo é ativada pelo consumo de polenta frita e galeto. Se você deseja sucesso nos negócios, priorize estes alimentos.
SEJA PRÁTICO, A FILA ANDA - Uma das piores pragas do buffet à quilo é o sujeito indeciso. O mundo precisando de pessoas determinadas e você ali, pensando no sexo dos anjos na hora de escolher os quitutes. Seja rápido. Erre, mas erre com convicção. Quem escolhe comer num buffet à quilo tem pouco tempo livre. Então pega logo essa polenta e pare de atrapalhar a fila, pô!
