VINHOS BRASILEIROS
Enviado Segunda-feira, 16 de agosto de 2010 às 09:57:58 |
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Ainda não se pode falar em uma corrida dos viticultores brasileiros pelos certificados de Indicação Geográfica (IG), nem se sabe se o Instituto Nacional de Propriedade Intelectual, o INPI, terminará por adotar uma política permissiva que permita a sua multiplicação, mais ou menos como ocorreu em relação aos certificados ISO de qualidade, aparentemente difíceis de obter, mas que se tornaram uma febre no Brasil que hoje tem milhares de empresas detentoras desses selos, surpreendendo o mundo que, em conseqüência, perdeu a confiança no prolífico sistema nacional. O fato é que, por enquanto, o assunto vem sendo tratado muito mais por seus aspectos comerciais do que como uma ferramenta de melhoria da qualidade dos nossos vinhos. Numa reunião realizada em Garibaldi com empresários produtores de vinho, o presidente do INPI, conforme release divulgado no Portal do Instituto, sugeriu uma marca de certificação para todos os espumantes produzidos com uvas vitiviníferas, várias indicações de procedência e algumas denominações de origem. A idéia seria seguir o exemplo do Vale dos Vinhedos onde nos cinco anos após a conquista da IG as propriedades rurais teriam se valorizado em 500%. Verdade que uma IG não é garantia de qualidade nem aqui nem nos países que tradicionalmente a adotam, como nos casos das Denominações de Origem Controlada que vigoram na França, Espanha e Portugal, entre outros. Na Itália, as regras são mais rígidas para os vinhos de Denominazioni di Origine Controlata e Garantita (DOCG), que devem ser provados por uma Comissão Técnica.
No caso do Brasil, o INPI estabelece duas espécies de IG. A primeira é a Indicação de Procedência (IP), apenas uma comprovação de que a localidade é um centro de produção reconhecido. A segunda é a Denominação de Origem (DO) que exige uma especificação das qualidades e características do que é produzido, devidas exclusiva ou essencialmente ao meio geográfico e também uma descrição do processo ou método de obtenção do produto ou serviço que devem ser “locais, leais e constantes”. A prática é recente e até hoje somente sete IP foram concedidas: café da Região do Cerrado Mineiro (de janeiro de 1999); vinho tinto, branco e espumantes do Vale dos Vinhedos; uvas de mesa e mangas do Vale do Submédio São Francisco; couro acabado do Vale dos Sinos; carne bovina e seus derivados do Pampa Gaúcho da Campanha Meridional; Aguardentes tipo cachaça e composta azulada de Paraty e, em concessão de 13 de julho de 2010, vinhos tintos, brancos e espumantes de Pinto Bandeira, a segunda IP para o setor vinícola nacional.
A chancela foi dada em nome da Associação dos Produtores de Vinhos de Pinto Bandeira (distrito de Bento Gonçalves e município a partir de 13 de julho último), a Asprovinho, integrada por seis vinícolas: Cave Geisse, Cooperativa Pompéia, Cooperativa Aurora, Don Giovanni, Valmarino e Terraças. Foi decisivo, na última hora, a medalha de ouro ganha pelo espumante Cave Geisse da Amadeu no Vinalies Internationale, tradicional amostra francesa. De acordo com o grupo que preparou a certificação – Embrapa, Universidades de Caxias do Sul e Federal do Rio Grande do Sul - os vinhos de Pinto Bandeira têm as mesmas características dos produzidos na serra, com um só diferencial: a altitude, um pouco inferior à do Vale dos Vinhedos e favorável a bons espumantes.
No Rio Grande do Sul as regiões da Campanha, Monte Belo, Flores da Cunha , Garibaldi e Farroupilha (uvas moscato) também ambicionam uma indicação geográfica, enquanto o Vale dos Vinhedos luta para se transformar numa DO, embora restrita à casta merlot para os tintos, chardonnay para os brancos e chardonnay ou pinot noir para os espumantes. No INPI, acabam de entrar pedidos de DO para três áreas extrativas de pedras decorativas do Espírito Santo, numa evidência de que pelo menos comercialmente a idéia está progredindo, da mesma forma que os preços.
ELEIÇÕES E CARTÉIS DA DROGA NO MÉXICO
Enviado Segunda-feira, 19 de julho de 2010 às 10:19:32 |
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O PRI, Partido Revolucionário Institucional, está demonstrando que na verdade nunca deixou o poder no México. Governou ininterruptamente de 1929 a 2000, quando o PAN, Partido de Ação Nacional, derrotou-o nas eleições elegendo primeiramente a Vicente Fox e em 2006 ao atual Presidente Felipe Calderón Hinojosa, conhecido como FCH, este numa eleição contestada pois a vantagem para o segundo colocado, Manuel Obrador do PRD (Partido da Revolução Democrática), foi de apenas 0,56% dos votos. Nos últimos dez anos o velho PRI se manteve como a principal agremiação política nacional e agora – nas eleições em doze estados para governadores de 4 de julho – divertiu-se pois além de ter triunfado em nove deles, os vencedores nos outros três são originários de suas fileiras. A costumeira confusão política mexicana, por vezes com diferenças imperceptíveis entre os programas dos vários partidos, desta feita atingiu o auge, uma vez que para vencerem em Sinaloa, Puebla e Oaxaca (os três maiores estados em disputa, à exceção de Vera Cruz) o PAN que é de direita e o PRD, de esquerda, formaram uma aliança que contrariou tudo o que cada um até aqui vinha defendendo. O primeiro tentou desmanchar a má imagem de conservador, enquanto o segundo arriscou-se a perder a boa aura de progressista.
Tentando tirar proveito da salada em que se transformou a política mexicana, Manuel Obrador declarou-se contrário à aliança espúria de seu partido com o PAN, informando que buscará um novo partido para candidatar-se contra todos nas próximas eleições nacionais de 2012. Os outros candidatos oposicionistas serão, provavelmente, o governador do Estado do México, Enrique Peña Nieto pelo PRI e o prefeito da capital, Marcelo Ebrard pelo PRD, enfrentando – caso não se alie a ela - a deputada Josefina Vásquez (luta contra uma série de pelo menos cinco outros sérios postulantes ao posto) pela situação. Quem vencer receberá um México em crise, com um PIB que decresceu em 6,7% no ano passado (redução de 1,8% na América Latina e crescimento de 0,3% no Brasil) e perdendo a luta contra o narcotráfico. Felipe Calderón no dia seguinte à sua posse mandou 45 mil soldados para os estados mais corroídos pelo tráfico e o resultado foi o aumento dramático da violência que hoje atinge níveis altíssimos no país inteiro.
Os principais Cartéis da Droga – Tijuana, Sinaloa, do Golfo, Los Zetas, Beltrán Leyva, La Família e Juárez – não têm limite no quesito crueldade, estimando-se que movimentam o equivalente a 45% da renda bruta total do país a cada ano. O costume é executar seus inimigos - de preferência policiais - e decapitá-los. Na segunda-feira anterior ao pleito, o candidato do PRI ao governo do estado de Tamaulipas, Rodolfo Torre, e cinco acompanhantes foram assassinados numa emboscada. É o político de mais alto escalão morto no México nos últimos dezesseis anos, mas seu irmão Egidio o substituiu e venceu a eleição. Antes, na estrada que liga Toluca ao município de Zitácuaro, a 150 quilômetros da capital do país, o Cartel La Família atacou um comboio policial matando doze a tiros de metralhadora e deixando quinze seriamente feridos. Como não poderia deixar de ser, a insegurança afastou a população das urnas. A abstenção geral foi de 46%, mas em estados muito afetados pelo tráfico de drogas, como Chihuahua, 66% dos votantes ficaram em casa.
Calderón embarcou na canoa de George Bush e tentou dominar o tráfico sem reduzir as desigualdades sociais, antepondo a violência do Estado à violência dos Cartéis da Droga. Fracassou e hoje é consenso entre os mexicanos de que as causas principais que alimentam o narcotráfico são a corrupção das autoridades em todos os níveis de governo e a impunidade. Recentemente o Subprocurador da República e três diretores do escritório local da Interpol foram presos por suas ligações com o tráfico. Famosa tornou-se a festa de arromba promovida por um dos maiores chefes do crime organizado, “Joaquin El Chapo Guzmán” para comemorar o 15º aniversário do filho e seu terceiro casamento, com a segurança a cargo de helicópteros do Exército. De acordo com Ricardo González Bernal da ONG Liberdade de Expressão, no ano passado de 244 casos de agressão contra jornalistas (12 assassinatos), nenhum foi julgado. “Eles investigam por um tempo, mas logo abandonam”. Em Washington, na semana passada, Obama e Michelle receberam num jantar na Casa Branca a Calderón e sua esposa Margarita Zavala. A cooperação entre os dois países nunca foi tão intensa. Obama pediu mais US$ 310 milhões ao Congresso em ajuda para o programa Fronteira Inteligente nos 3141 quilômetros que limitam os dois países e adiantou a entrega de uma aeronave e helicópteros Black Hawk ao exército mexicano. O governo do México resolveu distribuir milhares de mapas do deserto de Sonora que cerca nos dois lados a fronteira mais movimentada do mundo, sendo acusado de facilitar a migração ilegal. Queremos apenas evitar as mortes, identificando fontes de água e rotas mais seguras, responderam os geógrafos, nunca ouvidos pelas autoridades que fazem a segurança sempre com armas nas mãos.
Yeda esta atrás, mas pode reagir nos próximos 90 dias
Enviado Segunda-feira, 05 de julho de 2010 às 09:46:50 |
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Duas semanas depois dos confrontos entre uzbeques e quirguizes que fizeram cerca de 2 mil vítimas na cidade de Osh, 70% dos eleitores foram às urnas neste último domingo de junho e nove em cada dez votaram “sim” aprovando a nova Constituição do Quirguistão que institui uma democracia parlamentar e referenda o governo provisório de Roza Otunbaeva. Dentre as grandes novidades numa terra acostumada a invasões estrangeiras e a ditaduras desde que surgiu no mapa seis séculos antes de Cristo, está a de que nenhum partido poderá ter mais de 50 cadeiras num total de 90 no Congresso. Roza, que acaba de completar 60 anos, segue o padrão dos políticos das cinco ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central, sendo originária do Partido Comunista numa carreira iniciada na década de oitenta. Ela liderou a Revolução das Tulipas que depôs o presidente Askar Akayev em 2005 e elegeu Kurmambek Bakiyev, derrubado este ano sob acusações de corrupção, nepotismo e responsabilidade pelo alto custo de vida. O Quirguistão, com apenas 200 mil km2 e 5,5 milhões de habitantes (69% quirguizes, 14,5% uzbeques, 9% russos), é um dos dois únicos países do mundo duplamente isolados – o outro é Liechtenstein -, ou seja, inteiramente cercado por outros países também sem acesso ao mar. Eleições presidenciais foram adiadas para outubro de 2011, dando tempo para Roza estruturar um governo minimamente estável (apoiado pela Rússia) e capaz de enfrentar os ataques dos seguidores de Bakiyev que, asilado em Belarus, estaria aliado a grupos de muhajedins talibans. Ela pretende manter a colaboração com o ocidente.
Depois que Lênin tomou o poder em 1919, a ex-URSS custou a concluir que a única maneira de dominar as cinco repúblicas da Ásia Central seria submetê-las a um processo de sovietização total, dando-lhes uma única nacionalidade: a russa. Em 1936 completou-se o processo de submissão do Turcomenistão, Uzbequistão, Tajiquistão, Cazaquistão e por último do Quirguistão que se prolongou até a queda do Muro de Berlim em 1991 quando todos recuperaram suas independências com as antigas nacionalidades territorialmente misturadas mas, numa prova do fracasso da estratégia comunista, etnicamente intactas. Só não conseguiram livrar-se da imensa influência política e econômica russa que até hoje costuma manifestar-se pela violência, como há cinco anos quando o presidente uzbeque, Islam Karimov (na presidência desde 1995), um fiel aliado de Vladimir Putin, ordenou que suas Forças de Segurança abrissem fogo massacrando 5 mil opositores que marchavam pacificamente nas ruas de Andijan. Era o temor de enfrentar a Revolução Colorida que triunfara na Sérvia, na Ucrânia e no Quirguistão.
O velho Partido Comunista conseguiu manter muito de sua influência na região sem mudar, na essência, suas práticas. Nursultan Nazarbayev segue como o primeiro e único presidente do Casaquistão (desde 1989) e Samarpurat Niyazov que tinha um mandato para toda a vida no Turcomenistão só deixou o poder ao falecer em dezembro de 2006. Seu substituto, Gorbanguly Berdimuhamedow, está no comando desde então. À exceção do Cazaquistão e do Turcomenistão que, às margens do Mar Cáspio, possuem imensas reservas de gás e petróleo, os demais estão entre as mais pobres nações do mundo e nos últimos lugares quando a medida é o Índice de Percepção da Corrupção. Em parte pagam o preço da vizinhança em uma região que inclui territórios do Afeganistão, Rússia, Irã, Mongólia, Paquistão, Índia e China. Das dez rotas mais comuns de tráfico de ópio e de heroína a partir do Afeganistão, cinco cruzam por Osh, em geral rumo a Moscou. As estradas de Khujand costeando o rio Sir Daria e de Khorog no Tajiquistão para Osh, que é a segunda cidade quirguiz e terra natal de Roza Otunbaeva, concentram o grosso do tráfico e não por acaso estão na origem das batalhas deste mês quando as diferenças raciais entre quirguizes e uzbeques foram exploradas por políticos que costumam ser os mesmos que controlam o tráfico.
A Ásia Central mudou depois do 11 de setembro de 2001, com uma crescente presença norte-americana, cuja base no Quirguistão (os russos têm ao lado a sua base e projetam construir outra) serve de apoio a vôos de abastecimento e agressão ao Afeganistão. Em janeiro, numa outra rota da seda pelo novo túnel de Anzab, foi inaugurado um oleoduto ligando o Irã ao Mar Cáspio e aos campos de gás do Turcomenistão, país que ainda ganhou um gasoduto que vai até a China e uma ponte de ligação com as planícies afegãs, esta construída pelos Estados Unidos. Mas, nem só de economia e de política ai se vive. Os russos sentem um outro medo, profundamente arraigado em seus corações desde o domínio do país por Gengis Khan no século XIII: o de serem novamente submetidos à fé muçulmana, já então professada pelos mongóis aos quais associam suas desgraças de então. Discordâncias ancestrais não acabam de repente. Ao contrário, alimentam-se e se fortalecem com as novidades, prometendo manter as tensões à flor da pele nesse canto do mundo.
INDECISÕES E TRAGÉDIAS DA POLÔNIA
Enviado Segunda-feira, 28 de junho de 2010 às 11:40:27 |
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Setenta anos atrás, em abril de 1940, a NKVD de Lavrentiy Beria, predecessor da KGB soviética, seguindo ordens dadas por escrito por Josef Stalin, assassinou um por um e em geral com um tiro de graça na nuca a cerca de 27.500 militares, policiais e intelectuais poloneses que eram prisioneiros, entre outros, nos campos de concentração de Ostaszkov, Starobielsk e Kozielsk Durante quarenta anos a Rússia colocou as culpas do massacre na Alemanha nazista, até que Gorbachev confessou e abriu os arquivos secretos em Moscou. No último dia 10 de abril quase todo o primeiro escalão polonês, com o Presidente Lech Kaczynski e sua esposa Maria à frente de uma comitiva de 96 pessoas, decidiu embarcar na aeronave presidencial – o velho, mas recém reformado Tupolev 145 – rumo ao aeroporto de Smolensk em cujos arredores, na floresta de Katyn, a maioria das vítimas pereceu.
Em meio a intenso fog, o piloto fez três tentativas de aterrissar sem sucesso e decidiu seguir para Minsk em Belarus onde as condições tecnológicas da base eram melhores, mas provavelmente por pressão dos políticos que não queriam perder tempo desceu uma vez mais para chocar-se com uma árvore e espatifar-se no solo. Ninguém sobreviveu. Para Lech Valesa, o criador do movimento anticomunista Solidariedade, “um segundo Katyn golpeou a Polônia fazendo-a perder sua elite”. Na época, estima-se que 1,5 milhão de poloneses foram deportados e morreram na Sibéria, mas os únicos a merecerem a vingança assinada por Stalin foram os de Katyn.
Seguindo o que reza a Constituição, eleições antecipadas realizaram-se no domingo. Venceu o ex-presidente do Congresso (estava no exercício da presidência), Bronislaw Komorowski, 58 anos, do partido Plataforma Cívica, o mesmo do 1º Ministro Donald Tusk, com 45,7% dos votos, seguido pelo irmão gêmeo do presidente falecido no desastre, Jaroslaw Kaczynski, com 33,2%. Dentre os demais oito candidatos, surpreendeu Grzegorz Napieralski, da Aliança Democrática de Esquerda com 13,4% o que o faz o fiel da balança para o 2º turno de 4 de julho próximo. Os dois primeiros foram forjados no Sindicato Solidariedade, têm um largo currículo de luta contra a ditadura comunista e são politicamente contrários à Rússia, o grande pesadelo polaco. Komorowski é tido como um moderado de centro-direita e seu discurso é liberal e pró aliança com a União Européia, da qual a Polônia faz parte desde 2004.
Jaroslaw, líder do ultraconservador partido Lei e Justiça sempre foi o mais duro dos gêmeos e como 1º Ministro no governo do irmão caiu há três anos devido a suas atitudes agressivas contra Alemanha e Rússia, obsessão por eliminar a herança do comunismo e defesa radical em demasia da religião católica. Em princípio, o favoritismo permanece com Komorowski que deve obter o apoio da esquerda, mas ninguém esquece o ocorrido em 2005, quando os resultados do 1º turno surpreendentemente inverteram-se no 2º ocasionando a derrota da Plataforma Cívica.
Os Estados Unidos e a Europa acompanham preocupados a evolução do pleito polonês muito mais por razões econômicas do que ideológicas. Desde a independência do Azerbaijão, Casaquistão e Turkomenistão, estados que compõem a bacia energética do mar Cáspio, tornou-se crítica a posição da Polônia devido ao seu poder potencial de interromper o fluxo do petróleo e do gás que a Rússia exporta para a Europa. Quando, recentemente, Barack Obama disse que não mais instalaria na Polônia e na República Checa o sistema de defesa conhecido como escudos antimísseis projetado por George Bush, a manchete dos jornais de Praga, Varsóvia e Bucareste foi de que os “EUA traíram a Europa Oriental para agradar a Rússia”.
Duas grandes dúvidas permanecem no ar. Na Polônia quem governa é o 1º Ministro, embora o presidente tenha o poder de veto e possa em condições extremas dissolver o Parlamento. Há três anos vigora uma política de coabitação entre os dois maiores partidos com os Kuczynskis e Donald Tusk suportando-se no dia-a-dia. Diz-se que essa composição não mudará sejam quais forem os resultados das eleições, mas poucos são os que acreditam nessas palavras. O outro problema está nas conseqüências que o desastre de Smolensk terá sobre o imaginário da população, fazendo-a, talvez, retomar adormecidas raivas contra os russos. Numa reunião com Bush, Vladimir Putin referiu-se à Ucrânia com um país que não existe, refletindo o sentimento de que quando seu país recuperar a força novamente agregará os territórios das nações que se desgarraram após a queda do muro de Berlim. As desconfianças persistem e nem Jaroslaw nem Bronislaw prometem reduzir as tensões.
OLHO NO VICE
Enviado Terça-feira, 01 de junho de 2010 às 09:46:22 |
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O Brasil já teve vinte e oito eleições presidenciais no período republicano e nas dezoito primeiras cultivou-se o saudável hábito de eleger separadamente o vice-presidente que fazia campanha, tinha programa de governo, mostrava quem era. Na verdade, a República, ao final do século XIX, nasceu sob o signo do vice: Floriano Peixoto minou dia-a-dia o mandato de Deodoro da Fonseca até forçá-lo a renunciar três dias antes de completar curtos nove meses de governo. A Constituição mandava fazer nova eleição, mas Floriano não permitiu. A escolha simultânea, em chapa única, de Presidente e Vice é um remanescente da ditadura militar que a instituiu a partir da dupla Costa e Silva e Pedro Aleixo. Antes, Jânio e Jango foram eleitos separadamente pelo povo, como Castelo Branco e José Maria Alkmin quatro anos depois pelo Congresso. Quando Prudente de Morais afastou-se para sofrer uma cirurgia, Manuel Vitorino assumiu, trocou todo o Ministério e mudou a sede do governo do belíssimo Palácio Itamaraty para o Catete, espalhando a notícia de que o chefe, doente, não reassumiria. Para sua surpresa, um belo dia Prudente desceu de um velho taxi na porta do palácio, sem avisar a ninguém (caso contrário seria impedido de entrar) e reassumiu. Afonso Pena faleceu e deu o lugar a Nilo Peçanha, da mesma forma que Rodrigues Alves (vitimado pela febre amarela em 1918), substituído por Delfim Moreira que, sofrendo das faculdades mentais, logo saiu. O suicídio de Getulio Vargas em 1954 fez de Café Filho o Presidente. Jango, que já fora Vice de JK, foi eleito com 4,5 milhões de votos por uma coligação (PTB, PSD, PSB) contrária à de Jânio Quadros, assumindo quando este renunciou, para ser derrubado pelo golpe de 64. No período militar, o vice civil era um zero à esquerda. Alkmin foi obrigado a dormir num motel no Paraguai quando Castelo viajou ao exterior, para não assumir. Pedro Aleixo, mesmo sendo fundador da UDN e um dos mentores da “Redentora”, foi declarado “impedido” pelo Conselho de Segurança Nacional e, na morte de Costa e Silva acabou cedendo o lugar para uma Junta Militar. Tancredo Neves faleceu antes da posse e, com isso, o país ganhou de presente José Sarney, a quem nem sequer conhecia. Algo similar aconteceu no impeachment de Fernando Collor, cedendo de graça a vaga para Itamar Franco. Pesquisa de opinião realizada um ano depois que Itamar assumira, perguntou ao povo “quem foi o Vice de Collor?”, constatando que quase ninguém lembrava.
Não resta dúvida de que o próximo Vice tem, pelo menos dos pontos de vista histórico e estatístico, boas chances de herdar a presidência do Brasil, o que é motivo mais do que suficiente para prestarmos atenção no perfil dos que hoje surgem como candidatos ao posto. No lado do PT, depois dos tropeços de Ciro Gomes e Henrique Meirelles, o mais forte é o atual presidente do PMDB e da Câmara dos Deputados, o advogado paulista descendente de libaneses Michel Temer Lulia. Na última década nenhum Projeto de Lei digno de atenção saiu de sua caneta. Lidera um grupo de políticos cuja característica básica é a maleabilidade e a capacidade de ocupar posições no Executivo em troca de apoio no Legislativo. Com rara habilidade para a negociação política de corredores palacianos, a cada governo Temer e seu grupo primeiro proclamam autonomia e barram a tramitação de alguns projetos do Executivo que termina cedendo, afinal propiciando a adesão total de quem aparentemente o ameaçava, conforme descrição recente de Dácio Malta em seu blog. Temer desistiu do caminho das urnas populares ao amargar um distante 4º lugar quando secundou a Luiza Erundina no pleito pela Prefeitura de São Paulo em 1998. Na prática, comanda a corrente dita fisiológica do PMDB nacional. Caso seja eleito com Dilma, aguardará pacientemente para assumir em caso dela não agüentar o jogo pesado do Planalto.
No outro lado, a disputa pela vaga ao lado de José Serra segue em banho-maria, pois as possibilidades de vitória não estão claras e o candidato tem se mostrado fisicamente uma fortaleza e, caso triunfe, provavelmente governará até o fim dando pouco espaço ao seu Vice. Quem será? No topo do ranking segue o neto de Tancredo, o mineiro Aécio Neves, numa reedição das alianças café-com-leite (entre Minas e São Paulo, criada nos tempos de Campos Sales). Matreiro como o avô, Aécio não entra em dividida e só aceitará se vislumbrar um futuro político concreto. Enquanto as conversas prosseguem, indica o primo Francisco Dornelles do PTB getulista, cujo cacife seriam os 3 minutos na TV, mais os 3 que retiraria do tempo do PT. O DEM acha que o lugar é seu, mas seus nomes parecem fracos: Paulo Souto, Cesar Maia, Marco Maciel, Agripino Maia e Katia Abreu da Confederação Nacional de Agricultura (esta seria uma guinada exagerada à direita). O partido tem tradição recente negativa, pela cassação de Arruda no DF e pelo boicote de Paulo Feijó à administração da gaúcha Ieda Crusius. Persistem os que advogam um candidato nordestino para contrabalançar a influência de Lula e do Bolsa Família na região, ou alguém do sexo feminino. No caso, além de Kátia surgem Marisa Serrano (PSDB/MS) e Marina Silva do PV, mas a experiência de Serra com Rita Camata na derrota para Lula foi um desastre. Hipóteses de uma chapa puro sangue com Tasso Jereissati, Álvaro Dias, Beto Richa ou Jarbas Vasconcelos seriam grandes surpresas, da mesma maneira que os alternativos Mão Santa do PSC piauiense e, de novo, Itamar Franco. Faça suas apostas e reze para que tudo dê certo.