EUA E COLÔMBIA: SAÚDE EM CRISE
Enviado Sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010 às 16:10:17 |
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Os países são distintos - um é o mais rico do mundo e o outro além dos problemas econômicos enfrenta uma guerrilha interminável -, mas as táticas dos mercadores da saúde são as mesmas e ameaçam conduzir Estados Unidos e Colômbia à bancarrota. Barack Obama segue a sina dos que o precederam nos últimos 75 anos e sistematicamente se viram derrotados pelas grandes corporações que fazem da doença um lucrativo negócio. Verdade que os democratas nunca foram tão longe e ainda podem aprovar a reforma que, em síntese, obriga todos os americanos a terem um seguro de saúde aumentando a cobertura dos mais pobres (55 milhões de pessoas não têm qualquer proteção privada ou pública) via Medicaid ou subsidiando-os para que possam adquirir um Plano de Saúde. As companhias seguradoras não mais poderão negar atendimento alegando condições pré-existentes e pequenos negociantes terão facilidades para se congregarem a fim de oferecer a si próprios e a seus empregados planos corporativos que são mais baratos que os individuais. Em novembro na Casa dos Representantes (Câmara de Deputados) a Reforma de Saúde foi aprovada por 220 votos contra 215 e esta semana conseguiu passar pela quinta e última Comissão do Senado, a de Finanças, por 14 votos contra 9. No entanto, os republicanos mesmo sendo minoria continuaram oferecendo dura resistência até que acharam uma brecha para obstruir a aprovação final do projeto governamental. Em Massachusetts, Scott Brown conquistou a cadeira do falecido senador Edward Kennedy para completar-lhe o mandato até 2012. Com isso, caiu a maioria do Partido Democrata no Senado de 60 x 40 que lhe permitia ignorar a oposição. Agora, é preciso negociar e o presidente Obama convidou os dois partidos para um debate televisionado dia 25 de fevereiro, destinado a encontrar uma solução, ou seja, uma alternativa para evitar que seu projeto, a exemplo dos anteriores, vá parar na gaveta. Os republicanos dizem que aceitam, mas propõem recomeçar a discussão do zero, algo evidentemente não aceito pelo presidente. Atualmente há dois projetos em discussão: o original e o resultante das observações feitas pelas Comissões do Senado, que não inclui, por exemplo, a alternativa de um plano de saúde oficial que concorreria com os planos comerciais oferecendo preços mais baixos. No retrovisor está o enfraquecimento de Obama, cuja aprovação caiu para 56% ao final de seu 1º ano no poder, e na perspectiva os holofotes se concentram nas eleições legislativas de novembro para as quais não há favorito.
Sem outra alternativa de curto prazo para superar o caos em que se transformou o sistema de saúde colombiano, o presidente Álvaro Uribe decretou Emergência Nacional e assinou 15 decretos modificando quase tudo. Pelo modelo vigente (Lei 100 de 1993) há um Plano Obrigatório de Saúde (POS) que deve ser oferecido pelas Empresas Promotoras de Saúde (EPS) segundo dois regimes: o contributivo custeado por descontos sobre a folha de salário de 12% (os patrões pagam 8% e os empregados 4%) e o subsidiado para aos que ganham menos de 2 salários-mínimos. Neste caso, os serviços são prestados pelas prefeituras ou por estas subcontratadas, mediante verbas aportadas pelo governo ou por 1% dos vencimentos de quem ganha mais de 4 salários. Dentre vários problemas de funcionamento do sistema, os que são subsidiados (39% da população) em geral recebem menos ou piores serviços que os da categoria contributiva (37%, com os demais sem qualquer cobertura). O que implodiu o sistema foi algo similar ao ocorrido no Brasil em 1967 com o seguro de acidentes do trabalho: a população acostumou-se a impetrar liminares judiciais que na 1ª. Instância devem ser julgadas no máximo em 10 dias e que em 90% dos casos dão ganho de causa ao demandante. Dessa maneira tudo se consegue: atendimento integral ao paciente até sua recuperação, cirurgias, tratamento continuado e medicamentos para Aids ou de uso contínuo. Milhares de liminares terminaram por bloquear o funcionamento da Justiça. Diante da debilidade dos controles, laboratórios farmacêuticos, hospitais, EPS e clínicas acostumaram-se a cobrar do governo duplamente por um mesmo serviço prestado aos pacientes. Medicamentos para câncer e artrite, p.ex., bateram recordes de demanda sem que houvesse qualquer mudança na prevalência dessas doenças na população. Uribe determinou que os planos devem ser nivelados, impôs multas e castigos a quem for apanhado por fraude, além de elevar os impostos sobre bebidas, cigarros e jogos. As culpas foram jogadas nas costas dos médicos, poupando os verdadeiros culpados que são as organizações que os empregam ou se aproveitam de seu trabalho. O povo diz que o sistema ficou ainda mais confuso, as novas regras são obscuras e acusa o governo de querer mais dinheiro para usar na campanha eleitoral. Enquanto isso, a saúde dos colombianos continua na UTI.
VENEZUELA NÃO SABE COMO LIVRAR-SE DE CHÁVEZ
Enviado Sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010 às 09:51:55 |
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A Venezuela, que exportava petróleo a US$ 180 o barril, hoje o faz a US$ 65, ao mesmo tempo em que importa 90% do que consome. A situação não é nova. Quando Andrés Peres assumiu o governo em 1974 o país atravessava violenta crise econômica, mas a guerra entre árabes e israelenses quadruplicou o preço do barril de petróleo e o orçamento venezuelano teve que ser refeito às pressas para atender ao inusitado afluxo de novos recursos, saltando de 14 para 43 bilhões de bolívares, alimentando a volta do velho sonho da Grande Venezuela que passou a emprestar ou doar dinheiro América Latina afora. Uma orgia de megaprojetos rapidamente obrigou o governo a contrair vultosos empréstimos externos para pagar suas contas e o desespero reinstalou-se nos lares venezuelanos. Agora, Chávez de novo joga com a sorte, apostando que a cotação do petróleo voltará às alturas cobrindo num passe de mágica suas aventuras e dívidas. Num golpe de audácia, desvalorizou o Bolívar – a moeda nacional – fazendo-o valer o dobro na troca por dólares. Assim, os ganhos com a exportação de petróleo subirão neste ano de 47 bilhões para 94 bilhões de bolívares, uma verdadeira fortuna que servirá para financiar a campanha governamental na dura campanha que começa agora para as eleições legislativas de setembro próximo. O problema é que esta conta terá de ser paga depois pela população. Nos últimos dias a polícia já fechou 1.900 estabelecimentos comerciais (de 3.520 inspecionados) acusando-os de especularem, remarcando preços por causa da desvalorização.
A crise atual não é a mais séria que Chávez já enfrentou, mas os sinais de deterioração do seu modelo socialista-bolivariano são cada vez mais evidentes. Numa entrevista à revista Semana, o professor Ronald Rodríguez da Universidade de Rosário observou que por vezes não é a onda mais forte que afoga uma pessoa e sim uma sequência de aparentemente modestas marolas. Pelo menos sete fantasmas assombram os sonhos do coronel Hugo Chávez, ameaçando seu projeto de só deixar a presidência quando morrer: a) Insegurança. Hoje Caracas é a 4ª. Cidade mais perigosa do mundo, superada apenas por San Salvador, San Pedro Sula (Honduras) e Ciudad Juárez (México); b) Inflação. Está em 25%, a mais alta da região pelo quarto ano seguido, com perspectivas de saltar para 35% este ano devido à desvalorização da moeda; c) Crise energética, agravada pela seca, resultando em cortes de luz de 4 horas a cada dois dias (usuários dizem que duram bem mais tempo) e falta d’água. Na capital, o presidente teve de suspender os apagões, pois estavam afetando semáforos e hospitais; d) Protestos de rua liderados por estudantes devido ao novo fechamento da RCTV e de mais cinco emissoras (além da revolta contra os cortes de energia), com dois jovens mortos à bala em Mérida; e) Renúncias em série nos altos escalões. Desde dezembro renunciaram o Vice-Presidente e Ministro da Defesa junto com sua esposa que era Ministra do Meio Ambiente, o presidente do Banco Central, os Ministros de Energia e de Ciência e Tecnologia; f) Queda de popularidade de Chávez, de 61% após vencer o referendo revogatório para 46% em novembro último; g) Corrupção atingindo membros do governo próximos ao presidente, com destaque para o caso de Arné Chacón, irmão do Ministro de Ciência e Tecnologia, por fraudes no sistema bancário.
No entanto, nenhum desses pode, a curto prazo, desestabilizar um governo como o de Chávez, de rígida estrutura militar e com o apoio até aqui incondicional do partido Movimento V República e dos estratos mais pobres beneficiados pelos programas de ajuda social. O problema reside nos crescentes desacordos internos, na base do chavismo. De um lado, grupos de linha dura, como o Movimento Continental Bolivariano, criticam a corrupção e a burocracia como males que podem apagar a chama original da revolução. De outro lado, os militares parecem cada vez mais difíceis de controlar. A saída de militantes históricos (alguns foram companheiros de Chávez na tentativa de golpe de 1992) como o Vice e Ministro da Defesa Ramón Carrizález foi uma reação à nomeação de um grupo de oficiais cubanos para altos postos de direção das Forças Armadas, somada ao desencanto pela decisão do presidente de indicar ele próprio os candidatos do Partido Socialista Unido da Venezuela, o PSUV, recém criado pelo próprio Chávez. Uma vez que a oposição foi desarticulada e não tem líderes, pois todos foram presos, perseguidos ou estão exilados, os caminhos legais via eleições para uma troca de governo tornaram-se uma virtual impossibilidade. Na semana passada, no auge da onda de boatos que varreu o país, Chávez foi à TV para desmentir notícias de que havia sido deposto ou assassinado pelos militares. Seguiram-se novos expurgos de altas e médias patentes. O círculo de proteção em torno do presidente estreita-se, mas não há indicações de que possa romper-se.
TENDÊNCIAS NO MUNDO DOS VINHOS
Enviado Sexta-feira, 15 de janeiro de 2010 às 11:38:02 |
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Novos paralelos devido ao aquecimento global, adaptações à crise econômica e às restrições ao consumo de álcool, quedas na produção e no consumo, impostos crescentes, protecionismo e novas regras no âmbito da União Européia: um verdadeiro terremoto parece ameaçar o costumeiramente pacato mundo dos vinhos de qualidade. A Itália, terra onde os brancos respondem por metade das vendas, tornou-se o maior produtor mundial de vinhos não por ter aumentado ou melhorado seus vinhedos e sim por uma nova diminuição nas colheitas francesas. A produção mundial, com 26 bilhões de litros (2/3 provenientes da Europa), recuou 1% em 2009, mas este é um resultado melhor do que no ano anterior quando a crise econômica global forçou a mudança de hábitos dos consumidores que começaram a preferir vinhos mais baratos, favorecendo países grandes exportadores como Austrália, Chile e África do Sul. Um caso à parte é o da Inglaterra, onde cresce a preferência por vinhos leves e adocicados, fazendo explodir as importações do Zinfandel, um vinho leve americano, seja ele rosé ou branco. O consumo também está em leve queda. Há uma década quatro dos maiores bebedores do mundo – um francês, um italiano, um espanhol e um português – juntos liquidariam com 200 garrafas em um ano, mas hoje só bebem 168. Na Europa são três as causas para a queda nas vendas: a crise econômica, condições climáticas desfavoráveis e o impacto das políticas governamentais (que não são novas, mas estão mais rígidas) de restrição ao álcool para os que dirigem. Consumidores franceses estão preocupados, achando que a tendência é a adoção de políticas neoproibicionistas. Outros cobram impostos cada vez mais altos sobre bebidas alcoólicas, aumentando os preços finais. Afora a Suécia e a Dinamarca que aplicam as maiores taxas, na Inglaterra a tributação aumentou para 2,65 libras por litro e para 3,39 nos espumantes. Em compensação, na Hungria o imposto é zero para os vinhos nacionais (este é o sonho dos produtores brasileiros para enfrentar a invasão argentina). Os britânicos são inventivos e discutem a redução no tamanho das garrafas e das taças para forçar um menor consumo.
A reforma do setor vitivinícola aprovada pelo Mercado Comum Europeu entrou em vigência, objetivando reduzir a superprodução e ganhar competitividade no mercado global. O argumento para a adoção de medidas nitidamente protecionistas é de que seus produtores são menores que os dos países rivais e estão em desvantagem diante das principais redes varejistas que compram em grandes quantidades. A Reforma destina mais de um milhão de euros anuais até 2013 para modernização da cadeia de produção, conversão de vinhedos e eliminação de 175 mil hectares plantados nos próximos 3 anos para conter o aumento dos estoques, apoio à divulgação no exterior, além de prever uma simplificação dos regulamentos e dos rótulos, enfatizando as denominações de origem controlada. Produtos dos EUA vendidos na Europa terão de retirar de seus rótulos denominações como “chateau, tawny, ruby, vintage”, repetindo o que já tiveram de fazer com seus “champagnes” que viraram espumantes.
Não é novidade que uvas viníferas se desenvolvem idealmente numa faixa de uns 2.200 km de largura ao redor do mundo entre 30 e 50 graus de latitude, onde o clima é temperado com invernos úmidos e verões secos. Assustados com as mudanças climáticas em curso, produtores de regiões tradicionais pressionaram seus governos a adotarem medidas de contenção do aquecimento global e líderes como Nicolas Sarkozi falaram duro na Cúpula de Copenhagen em dezembro. Se tudo continuar como está, a temperatura média na Terra terá dois graus a mais ao final do século XXI e então as áreas mais favoráveis ao cultivo de uvas terão se deslocado cerca de 9 graus de latitude na direção norte, algo como mil quilômetros. Com isso, regiões nobres como a Borgonha mudarão seus cultivares ou cederão o passo para vinhedos no entorno de Amsterdam e nos condados de Kent e Surrey (que já possuem extensos parreirais) ou em Liveerpool, recuperando uma tradição vinífera que os ingleses perderam há 600 anos. Áreas baixas de Mendoza e do Valle del Maipo deslocar-se-iam para colinas e montanhas a fim de compensar o aumento de latitude. No Rio Grande do Sul, as zonas da Campanha e da Serra do Sudeste poderiam ser beneficiadas. Hoje, os vinhos leves da Alsácia e da Alemanha já estão se tornando mais encorpados e países de clima frio como a Suécia e o Canadá - cujo único produto competitivo é o Ice Wine, um vinho de sobremesa proveniente de uvas congeladas no pé – começam a pensar num futuro promissor no mercado internacional. O Brasil pouco se envolve nessas discussões. Com um consumo per capita limitado a 1,65 litros/ano que o deixa em 99º lugar no mundo, reduziu sua produção anual para 320 milhões de litros após altas constantes até 2007, mas este pode ser um fator positivo ao compensar em parte o acúmulo de vinhos nas prateleiras que produziu um estoque de 300 milhões de litros, pela dificuldade em competir com produtos importados de preços menores e maior apelo comercial.
FIM DE ANO NA AMÉRICA LATINA
Enviado Terça-feira, 22 de dezembro de 2009 às 17:48:37 |
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Tanto na economia quanto na política a América Latina encerra o ano de 2009 um pouco pior do que começou, mas as diferenças não podem ser consideradas como significativas. A crise internacional iniciada com a quebra de bancos após o calote das hipotecas nos Estados Unidos e que na sequência atingiu duramente países antes louvados por estarem no topo da modernidade como Islândia e Irlanda, interrompeu um ciclo de progresso que já durava seis anos contínuos nos vinte países latino-americanos. O PIB regional, segundo a Cepal, cresceu em média 6,4% ao ano de 2003 a 2008 (o Brasil puxou o índice para baixo, com média anual de 4,4%), mas em 2009 despencou chegando a dezembro com uma contração de 1,8%. O pior desempenho foi do México, seguido por Paraguai, Honduras, El Salvador, Panamá e Venezuela, esta devido à queda nos preços do petróleo. O Brasil equilibrou-se na corda bamba, crescendo 0,3%. Para 2010 as perspectivas são de recuperação, estimando-se que a economia crescerá 4,1% sob a liderança brasileira (+5,5%). A Secretária Executiva da Cepal, a mexicana Alicia Bárcena, disse que o pior da crise já passou, mas persistem dúvidas de que essa recuperação será sustentável, pois o cenário global segue incerto.
Das seis eleições presidenciais acontecidas este ano, somente em El Salvador houve mudança real de rumos, com a surpreendente vitória do jornalista e homem de televisão Carlos Mauricio Funes que, mesmo nunca tendo sido guerrilheiro, candidatou-se pela Frente Farabundo Marti para a Liberação Nacional e derrotou por estreita margem a Rodrigo Avila da Aliança Repúblicana Nacionalista (Arena), partido que vencera os três últimos pleitos. A nova primeira-dama salvadorenha é a advogada paulista Vanda Pignato que além de trabalhar na embaixada representa o PT no país. No Panamá também houve mudança, mas a ala centro-direitista conservou o poder, agora com o empresário Ricardo Martinelli à frente de uma aliança liderada pelo Câmbio Democrático que interrompeu uma tradição que já durava duas décadas (desde a restauração democrática em 1989) sob o comando dos social-democratas e dos conservadores.
Conforme o esperado, a esquerda manteve-se no comando no Equador, na Bolívia e no Uruguai. O triunfo de Rafael Correa no 1º turno, sem qualquer adversário de peso, assegurou-lhe após apenas dois anos no governo, outros quatro mais uma reeleição por igual período. É a fórmula bolivariana de domínio sobre um país, no caso equatoriano permitindo a um só mandatário governar de 2007 a 2017, inexistindo qualquer garantia de que não mudará a Constituição novamente para então perpetuar-se como o fez Chávez. A promessa do jovem economista é de “aprofundar o socialismo no Equador”. Ao lado, Evo Morales também não teve problemas para bater ao ex-governador de Cochabamba Manfred Reyes Villa que foi para o sacrifício em nome de uma oposição que na Bolívia vê sua resistência esvair-se aos poucos. A Frente Ampla do presidente Tabaré Vasquez enfrentou dificuldades que resultaram num 2º turno, quando conseguiu eleger o ex-guerrilheiro tupamaro José Mujica derrotando a Alberto Lacalle do Partido Nacional (Blanco) que, mesmo com o apoio dos Colorados, não conseguiu fazer os conservadores uruguaios recuperarem o poder. Mujica, no país mais culto da América Latina, tinha contra si a inexperiência administrativa e o fato de nunca ter estudado, primeiro por falta de tempo e depois, no longo período de paz e quando já era senador, por não considerar necessário. Prevaleceu o desejo dos uruguaios de não devolver o país aos liberais.
Em Honduras aconteceu o esperado e um outro fazendeiro – Porfirio Lobo do Partido Nacional - substituirá Manuel Zelaya do Partido Liberal, cujo candidato, Elvin Santos, terá de esperar mais quatro anos para chegar à presidência, caso os grupos agora apoiados por Hugo Chávez e por Daniel Ortega não desestabilizem de vez o país. Resta por resolver o pleito chileno, com um 2º turno entre o conservador Sebastián Piñera e o socialista Eduardo Frei em 18 de janeiro. Qualquer que seja o vencedor, o Chile seguirá sendo o mesmo.
Para 2010 igualmente não são esperadas trocas radicais nas eleições previstas para a Costa Rica em fevereiro, Colômbia em maio e Brasil em outubro. Maiores emoções deverão apresentar os pleitos legislativos nos Estados Unidos em novembro por seu potencial de influência na região e pelas dúvidas a respeito da manutenção do prestígio dos democratas, e na Venezuela em dezembro, quando a oposição, fortalecida pela crise na economia e pelo cansaço da população com o domínio, previsto para ser eterno, do MAS (Movimiento Al Socialismo), tentará ganhar espaço ao menos para demonstrar que segue viva.
GUERRAS NÃO DEPENDEM DA PAZ
Enviado Sexta-feira, 18 de dezembro de 2009 às 15:23:13 |
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Políticos norte-americanos nem sempre fornecem bons candidatos para o Nobel da Paz, como já se podia antever em 1912, quando o primeiro deles foi agraciado: Elihu Root, que fora Secretário da Guerra e criara a Escola de Guerra da Armada nacional. Os organizadores já tiveram deslizes maiores, como na escolha de Henry Kissinger em 1973 quando só não dividiu a medalha com o vietnamita Le Duc Tho porque este se recusou a recebê-la, mas houve também momentos altos, por exemplo com Woodrow Wilson em 1919 por ter criado a Liga das Nações ou com Linus Pauling por sua campanha contra os testes de armamento nuclear em 1962. Agora, no entanto, o norueguês Thorbjoern Jagland acaba de dar uma nova e forte contribuição para a causa dos que desconfiam ou discordam dos critérios adotados pelo Comitê do Nobel por ele dirigido. Ao justificar a escolha de Barack Obama como Nobel da Paz em 2009, Jagland informou que o recém empossado presidente dos EUA efetuara “mudanças determinantes num curto espaço de tempo”. Traduzindo em miúdos, o Comitê decidiu premiar o país por ter-se livrado de George Bush e, como castigo, foi obrigado a ouvir uma defesa das guerras em geral como instrumentos para a paz, feita por quem acabara de decidir-se pelo envio de mais 30 mil homens em armas para o Afeganistão. É provável que por idéias e motivos semelhantes Mahatma Gandhi nunca tenha sido laureado.
A história nos ensina que períodos de paz, por duradouros e estimuladores do progresso que sejam, não conseguem evitar as guerras. Resumindo com rara precisão os idos tempos que antecederam a I Guerra Mundial (1914-1918), Geoffrey Blainey em seu livro “Uma breve história do século XX” editado este ano pela Editora Fundamento, lembra que numa época de boa-vontade global, o passaporte costumava ser considerado supérfluo. O czar orgulhou-se, em 1899, ao discursar em Haia, por ter proibido o uso de armas nos balões que cruzavam os céus da Rússia. Acreditava-se que a rede mundial de idéias e de comércio estava assegurando a manutenção da paz entre as grandes potências. Afinal, entre 1815 e 1914 a Europa não enfrentara nenhuma guerra generalizada (a exceção, na Criméia na década de 1850, limitou-se ao envolvimento da Rússia de um lado e de Turquia, França e Inglaterra de outro). Mesmo assim, as nuvens negras foram se acumulando pouco a pouco. Os terroristas de então eram os anarquistas que, antes de se desorganizarem de vez, morriam pela causa como os radicais islâmicos de hoje. Os antagonismos étnicos se aprofundaram até que em Sarajevo um patriota sérvio assassinou o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austro-húngaro, desatando a I Grande Guerra, a maior de todas.
Hoje os conflitos são muitos, mas costumam ser localizados. Poucos se importam com o fato de que entre 8 e 10 milhões de africanos estejam envolvidos em pequenas ou grandes guerras que vão e vêm na República Democrática do Congo, Chade, Costa do Marfim, em Darfur, em Ruanda ou na Nigéria, Kenya, Somália, República Centro Africana, Guiné, Mauritânia, Burundi, Ruanda, Etiópia, Zimbabwe. Maior destaque recebem a Geórgia, a Abkhásia, o Kasaquistão, a Chechênia, o enclave de Nagorno-Karabakh entre outros por estarem na perigosa zona de influência da Rússia de Vladimir Putin. Enquanto a produção de armas cresce sem parar, luta-se na Cachemira, na Índia e no Paquistão, no Nepal, na Palestina e no Iraque, ameaças se acumulam no Iran, na Coréia do Norte, no Cáucaso, no Yemen, nas fronteiras entre Venezuela e Colômbia, no México dos cartéis da droga, nas favelas do Rio de Janeiro e de muitas das grandes cidades latino-americanas. Segundo a ONG International Crisis Group e o Instituto Heidelberg para Estudos de Conflitos Internacionais, pelo menos 77 conflagrações agitam os cinco continentes. Alguma delas voltará a incendiar o nosso mundo?
Apesar das evidências, é preciso manter as esperanças não nos que insistem na guerra como remédio para alcançar a paz e sim nos que batalham em mil outros campos. Esta semana, sem qualquer incidente, no estádio de Bangabandhu na capital de Bangladesh, a seleção de futebol do Nepal, cujo governo é maoísta, derrotou por 3x0 a do Afeganistão, com dois gols do grande Amil Gurund no segundo tempo. Os afegãos preparam-se para a revanche no gramado e não nas trincheiras.