Enviado Sexta-feira, 09 de abril de 2010 às 16:58:54 |
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Orlando Zapata Tamayo, pedreiro e encanador negro finou-se às 13 horas do dia 23 de fevereiro de 2010 aos 42 anos de idade, após 82 dias de greve de fome reivindicando melhores condições carcerárias no Presídio Combinado del Este em Havana. O governo cubano deteve-o em março de 2003 acusando-o de “desordem pública e desacato” (fazia outra greve de fome a favor de presos políticos) e em sucessivas penas condenou-o a 36 anos de prisão. A Anistia Internacional incluiu-o na lista de “prisioneiros de consciência”. O presidente Lula em visita oficial à ilha, mostrando uma crueldade da qual os brasileiros não o sabiam capaz, acusou-o de “deixar-se morrer”, num julgamento duríssimo a quem lançou mão do próprio corpo como a única forma de protesto que ainda lhe era possível fazer. Não se sabe se Zapata era católico, ateu ou tinha crenças de raiz. As religiões aceitam e com freqüência estimulam o martírio e a autoimolação. Cristo tinha consciência do que o esperava quando caminhou para a cruz e Gandhi optou pela greve de fome ao criar o movimento de resistência passiva aos poderosos na sua luta pelos pobres da Índia. O catolicismo formalmente condena a greve de fome, considerando-a como uma forma de suicídio direto, mas seus fiéis costumam valer-se dela quando todas as demais possibilidades se esgotam, como no caso de Frei Leonardo Cappio ao se opor às decisões terminais sobre a transposição do rio São Francisco. Membros do Exército Republicano Irlandês (IRA) que em 1923 permaneciam nas celas da prisão de Montjoy após o final da guerra civil que criou o Estado Livre da Irlanda fizeram uma greve de fome que chegou a envolver oito mil prisioneiros e resultou em duas mortes antes de ser suspensa. Firmou-se a partir daí uma longa tradição entre os irlandeses de entregar a vida por causas que parecem impossíveis de terem êxito de outra forma. O filme “Hunger” de Steve McQueen (2008) conta as derradeiras seis semanas de Bobby Sands que, junto a outros oito ativistas católicos do IRA, morreu após 66 dias em greve de fome na prisão de Maze, ao norte da Irlanda, por status político negado por carcereiros protestantes ingleses. A resistência, encenada em extraordinária performance pelo ator Michael Fassbender, tornou-se um ponto de referência na história do país.
Até onde vai o direito do indivíduo de recusar-se a comer? Não há, nos códigos penais brasileiros, qualquer penalização nem aos grevistas de fome nem aos suicidas (a OAB tem defendido os direitos dos grevistas). A greve de fome é uma forma de oposição passiva descrita em livro por Gene Sharp (“The methods of non-violent action” ou “Poder, luta e defesa” - Ed. Paulinas) que lista 198 métodos de não cooperação social e política, boicotes e intervenções não violentas para opor-se a quem se utiliza de violência para oprimir aos demais. Tanto os carcereiros quanto os médicos só podem intervir nos últimos momentos. O artigo 26 do novo Código de Ética Médica estabelece que é vedado ao médico “deixar de respeitar a vontade de qualquer pessoa, considerada apta física e mentalmente, em greve de fome, ou alimentá-la compulsoriamente, devendo cientificá-la das prováveis complicações de jejum prolongado e, na hipótese de risco eminente de morte, tratá-la”. Hélio Schwarstman, no artigo exemplar “Censura química” (Folha, 17/11/05) argumenta que, ao autorizar a intervenção no momento em que o paciente já não tem forças para resistir, alimentando-o contra vontade e frustrando todo o seu protesto, o Código na verdade nega o direito à greve de fome. Esta é uma expressão de autodeterminação, de controle último sobre as próprias condições de vida num contexto de relacionamento no qual um sujeito está subordinado ao outro, como escrevem Gurcan Coçan e Ahmet Oncü numa análise sobre uma prática que tem sido relativamente comum nas prisões turcas, onde o exemplo irlandês frutificou.
A morte de Zapata Tamayo abre o caminho a novos candidatos a mártires. Guillermo Fariñas, jornalista independente, 48 anos, faz jejum em casa há três semanas pedindo que o regime cubano liberte 26 presos políticos que estariam seriamente enfermos. A diplomacia brasileira, pega de surpresa numa passagem por Havana que parecia tão pacata quanto as anteriores, agora se esforça para explicar o apoio ao Irã de Ahmadinejad na visita a Israel. Para piorar as coisas, ao invés de evitar o assunto, Lula resolveu comparar a situação de quem está numa prisão em Cuba porque discorda do sistema nacional de governo com as de traficantes e criminosos comuns detidos em cárceres de São Paulo. Os dois lados ficaram ofendidos. Ninguém se deixa morrer, mas é capaz de entregar a vida por uma causa que considere justa.
Enviado Quinta-feira, 01 de abril de 2010 às 18:16:06 |
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Costuma-se dizer que a França tem dois grandes partidos: um de Bordeaux e outro da Borgonha, cujo predomínio depende da participação de bancadas menores, mas também altamente qualificadas, por exemplo dos vinhos do Reno, do Languedoc-Roussilon, do Vale do Loire, da Alsácia. Não há como compará-los. Para Howard Goldberg em sua coluna no The New York Times, Bordeaux é Beethoven e Borgonha, em geral mais leve e pronto para beber, é Levi-Strauss. Os 60 grandes de Bordeaux, no Médoc (mais um em Graves), nomeados em 1855, ainda hoje são venerados por todo o mundo como o suprassumo em termos de qualidade. Consumidores induzidos a pagar de 800 a 1000 dólares por uma garrafa de Margoux, Latour, Pétrus, Lafite, Mouton-Rotschild, ou mesmo por grandes borgonhas como um Romanée-Conti ou um Le Montrachet (o branco, segundo Alexandre Dumas, deveria ser bebido de joelhos com o chapéu na mão), não compreendem como um vinho mais simples vendido a 20 dólares pode ser pelo menos razoável. Na verdade, a maioria dos compradores desses vinhos de altíssimo preço ou são ricaços colecionadores que não pretendem bebê-los ou especuladores que desejam lucrar vendendo-os 5 ou 10 anos depois. Há boas ofertas a preços acessíveis e o bordão costumeiro de que “um Borgonha para ser bom não pode ser barato” deixou de ser uma verdade absoluta. No mundo, 16% do mercado é ocupado por vinhos de baixo preço; 83% pelos standard e apenas 1% pelos mais caros. Uma alternativa de momento para quem quiser experimentar um Pétrus ou um Latour é jantar no Goring Hotel em Londres que comemora cem anos de vida nas mãos da mesma família de proprietários e oferece menus com pratos de cada fase histórica – arenque dos anos Thatcher, rocambole da era Edwardiana, cauda de boi no vapor lembrando o racionamento das épocas de guerra – acompanhados por taças de vinho a 60 libras cada. A refeição para um casal moderado custará algo em torno de 180 libras ou R$ 500.
Apesar dos esforços dos produtores e do governo francês para recuperar o terreno perdido em especial para o novo mundo, o mercado internacional é cada vez mais restrito para os vinhos gauleses. A Just-Drinks, reconhecida consultora da área, acaba de divulgar suas estimativas para o mercado global até 2013 e as perspectivas não são das mais animadoras. O consumo de vinhos crescerá somente 0,6% chegando a 3,3 bilhões de litros. A Europa que detinha 64% do mercado em 2003 recuará para 58%, cedendo espaço para as regiões da Ásia/Pacífico (de 16% para 20%) e das Américas (de 18% para 19%). A participação da França continuará caindo (de 324 para 304 milhões de litros, e então se estabilizará), mas num ritmo menor graças a dois fatores: crise econômica mais leve que a de países europeus concorrentes e taxa de natalidade superior gerando novos consumidores em maior quantidade. O termômetro para o consumo mundial é a China - o mercado que, apesar do baixo consumo per capita, é o que mais se expande impulsionado pela crescente demanda das cidades do interior – que já é líder mundial com 390 milhões de litros (em 2º EUA e 3º Canadá) consumidos ao ano. O Brasil deverá passar dos atuais 35 milhões de litros (foram 37,4 em 2009) para 39,5 daqui a três anos, permanecendo com a modestíssima fatia de 1,2% do consumo global. Um agravante é que, sempre de acordo com a Just-Drinks, o Brasil, a exemplo da Rússia, teria uma grande produção ilegal de vinho que não aparece nas estatísticas.
Esta não é uma boa hora para o surgimento de escândalos como o da venda pela empresa francesa Sieur D’Arques para a grande rede norte-americana E&J.Gallo de 18 milhões de garrafas de vinho falsificado, da marca Red Bicyclette com uva pinot noir, num negócio de R$ 9,8 milhões a preço de atacado. O vinho é proveniente de uma região do Languedoc-Roussillon onde no ano produziram-se apenas o equivalente a 2 milhões de garrafas da pinot. O resto teria sido misturado com uvas merlot e shiraz ou outras também de menor valor. A justiça francesa está processando treze pessoas, incluindo o famoso negociante Ducasse e pede um ano de prisão além de vultosas indenizações, numa tentativa de trazer de volta a confiança dos consumidores do país que mais importa seus produtos. Outra briga de grande porte acontece em Nova York, onde o governador David Peterson pensando em reduzir o déficir orçamentário propôs a derrubada de uma velha lei que só autoriza a venda de vinhos em estabelecimentos especializados. Ele quer permitir a comercialização nos supermercados e similares que hoje vendem de tudo, menos vinhos. As casas do ramo temem perder o monopólio e criticam duramente o governo, argumentando que muitas das suas 2700 lojas vão fechar desempregando milhares de pessoas, pois não terão como enfrentar a concorrência de um número sete vezes maior de mercados e mercadinhos. Os consumidores torcem pelo governador, mas não será fácil modificar uma das mais curiosas e retrógradas regras de mercado da Big Apple.