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De acordo com a lenda, que vem dos tempos de Confúcio e se consolidou entre os grandes mitos da antiguidade para Atenas e Roma, o Unicórnio é uma criatura de beleza extraordinária, branco, ágil, veloz e indomável, com um único chifre, espiralado, a enfeitar-lhe o centro da testa. Só há uma forma de capturá-lo: fique bem escondido enquanto uma virgem permanece sentada sozinha numa área de unicórnios. Um deles a pressentirá e aproximar-se-á aos poucos. Enfim, cativado pela pureza da donzela, perderá toda sua agressividade e deitará a cabeça em seu colo ali adormecendo. Esta é a hora para sair do esconderijo e dominá-lo. Nas gravuras do mundo antigo esse episódio sempre termina com o soldado grego ou romano atravessando o coração do animal com uma lança inclemente. Por que o sacrifício quando teria, vivo, um valor inestimável? A resposta está nas propriedades mágicas do chifre que, além de ser um afrodisíaco insuperável, embebido no vinho dos reis podia detectar a presença de veneno ou, após ser ingerido, devolver a vida a quem o bebeu.
A simbologia em torno do unicórnio foi-se modificando ao longo dos tempos. Pela tradição, é sinônimo de pureza e de virgindade, com o que os cristãos o associaram à imagem de Maria por considerarem que ela gerou o filho de Deus em seu útero sem ter tido relações com qualquer homem. Pouco a pouco tornou-se um exemplo de algo impossível de acontecer e foi adotado pelos ateus como seu brasão. Numa nova tentativa de esclarecer o fenômeno, o jornal londrino The Guardian resolveu perguntar a seus leitores: Você acredita em unicórnios? O desafio está em provar que não existem. É uma espécie de competição, inicialmente proposta
Um mestre de cosmologia medieval relata que um aluno trouxe um chifre de unicórnio para a sala de aula que passou de mão em mão, explicando que seu bisavô o adquiriu de alguém e desde ai a família o tem herdado. Na verdade, tratava-se de um dente extremamente longo de um narval, também conhecido como licorne-do-mar ou unicórnio-do-mar. No ano passado, os jornais noticiaram que a prova da existência do unicórnio estava na cidade italiana de Prato, na Toscana, onde nasceu uma corsa com um único chifre na cabeça ao contrário de todos de sua raça que possuíam sempre dois, numa rara mutação que pode ter acontecido em tempos ancestrais com um ou mais cavalos brancos, originando a lenda do unicórnio. Não obstante as explicações dos racionalistas, um livro de 1992 sobre o tema – Dragons and Unicorns: a natural history (Dragões e unicórnios: uma história natural) – de Paul e Karin Johnsgard, continua sendo vendido com relativo sucesso pela editora londrina St. Martin’s Griffin, e cópias do filme infantil The Last Unicorn, produzido há quase trinta anos nas vozes de Mia Farrow e Britney Bomann ainda são procuradas pelos cinéfilos. Astrônomos amadores e profissionais sempre que as condições atmosféricas permitem colocam seus telescópios num ponto do equador celeste a 1.300 anos-luz da Terra para se deleitarem com a beleza de Monóceros, a Constelação do Unicórnio, próxima de suas irmãs do Cão Maior, Cão Menor e Hydra.
No fundo, impõe-se um velho princípio: Ei incumbit probatio qui dicit, non qui negat, ou seja, a responsabilidade pela prova recai em quem crê, e não em quem descrê. A existência de uma divindade é uma afirmação de fé à qual qualquer pessoa tem pleno direito. Os problemas começam quando ela tenta impor seu modo de pensar e de ver o mundo a outros que têm posições distintas. E o seu unicórnio: onde está?
