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MIL VINHOS E UMA BOA HISTÓRIA

Enviado Segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009 às 11:21:11 | Nenhum comentário »
A Baronesa Philippe de Rotschild decidiu, num jantar em junho de 1993, servir algumas garrafas magnum do Château Mouton da “safra da vitória” de 1945. Teve de tornar a guardá-las, pois o Maître de Chai (mestre de adega, encarregado da vinificação e do envelhecimento dos vinhos) considerou que ainda não estavam prontas para beber. Boas histórias como esta fazem do “Mil e um vinhos para beber antes de morrer” – Ed. Sextante.960 páginas -, apesar do título (como o faríamos depois?), um livro não para ser lido e sim para ser degustado. Seus autores – Neil Beckett e o conhecido Hugh Jonhson com apoio de 42 especialistas, em geral ingleses – argumentam que simplesmente ler sobre vinhos já é um prazer, da mesma forma que, por exemplo, fazê-lo em relação ao monte Everest, mesmo que provavelmente nunca o veja ou o escale. Ainda que concentrado nos tintos e brancos, destina um bom espaço aos fortificados e espumantes. 63% dos vinhos resenhados vêm de três países: França, Itália e Espanha, mas sobra algo para produtores norte-americanos, australianos, neozelandeses e sul-africanos, entre outros. Apenas vinte e duas garrafas do Chile e Argentina, mais um tannat uruguaio (Bodegas Carrau 2002) representam a América do Sul. Nenhum do Brasil. Um Catena malbec 2002 e um Noemí 2004 honram as tradições nacionais, mas outros três – Yacochuya de Michel Rolland, Alta Vista e Cheval de los Andes de empresas francesas, todos malbec/cabernet sauvignon de 2002, a melhor safra de Mendoza dos últimos anos – enfatizam a tendência de desnacionalização das vinícolas argentinas. Curiosamente um Nyctimber Premier Cuvée é o único exemplar de videiras britânicas e mesmo assim como “uma prova que convenceu até os críticos mais céticos de que o Reino Unido pode produzir vinho espumante da mais alta qualidade”. Em geral a vinícola é mais importante que a safra, alertam os autores.
Para demonstrar que é democrática, a publicação concentra três quartos dos produtos na faixa entre 20 e 200 dólares, desde que comprados no lugar de origem e não no Brasil onde os impostos levam os preços às nuvens. Há quarenta vinhos que valem até dezenove dólares, com o restante cabendo ao inalcançável estrato dos preços máximos. É o caso do Redigafi 2000, um merlot da Toscana. O comentário é de que “consegui-lo e pagar seu preço é puro masoquismo, mas bebê-lo é puro hedonismo – e por que não se você pode pagar, afinal, a vida já não é suficientemente curta?”. Os vinhos realmente grandes ainda envelhecem rumo à glória. Deixando de lado os brancos doces (desta categoria é o mais longevo da lista, o alemão Kiedricher Gräfenberg 2003, um riesling que pode ser bebido até 2.100) e os fortificados que são propícios a durarem anos e anos afora, no grupo dos que permanecerão até 2050 ou um pouco mais estão, além do Mouton Rotschild, o Château Latour 2003 (válido até 2075), o Château Lafite Rotschild, o Mazia-Chambertim Grand Cru 1999 que é feito com a pinot noir e o Soldera Case Basse, um Brunello di Montalcino 1990 com pura uva sangiovese (este “só” até 2040). Um pequeno lote é cotado para “consumo o mais rápido possível”, como o Palette Rosé da Provence ou o Chardonnay da australiana Jacob’s Creek que, no entanto, é recomendada por fazer um chardonnay inigualável. Algumas vinícolas tradicionais mantém o seu lugar. O velho Mateus Rose é o melhor exemplo: um vinho nem seco, nem doce; nem tinto nem branco; nem pesado nem leve; nem efervescente, nem tranqüilo, que pode ser bebido a qualquer hora, com a comida ou a sobremesa! Também o chileno Cousiño Macul (o Antiguas Reserva cabernet sauvingnon 2003 é para ser bebido até 2018), os espanhóis Marqués de Riscal e o clássico Vega Sicília 1970, liberado para venda 25 anos após a safra e que ainda hoje após ser visto, cheirado e provado não revela sua idade, pois permanece sempre jovem. Já o grande Opus One, caríssimo, é referido como “muito maduro e alcoólico” e o Meerlust Rubicon 96 da sul-africana Stellenbosch, de corte bordalês, cujos taninos “por muitos anos foram pesados e taciturnos”, agora assentaram, de modo que “uma vez aberta a garrafa, não há mais como se segurar”. Um bom destaque é dado ao Quinta do Ribeirinho Pé Franco 1999 de Luis Pato (provei o da safra 2006, servido pelo autor na sua propriedade da Bairrada, e continua divino), um vinho pré-filoxera em tempos modernos, obtido em terreno arenoso a partir de videiras não enxertadas cuja produção é tão baixa que resulta em somente uma taça de vinho por planta a cada safra. A fotografia, de primeira, delicia o leitor com imagens como a da vinícola La Richa no vale de Jonkershock (Á. do Sul), do Pombal de Latour construído em 1630 ou dos campos do Vale do Douro.
  A outra boa leitura é o “La Bodega” de Noah Gordon, pela Rocco: a história de Joseph Alvarez na Espanha do fim do século XIX, tempos da filoxera, que aprende o ofício no Languedoc francês e termina por fazer um excelente vinho em terras onde seus ancestrais só produziam vinagre ordinário. Vale a pena.
 

SEQUESTRO POLÍTICO: UM PESO PARA AS FARC

Enviado Sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009 às 16:23:21 | Nenhum comentário »

As FARC entregaram por sua própria iniciativa os dois últimos civis que figuravam na lista de seqüestrados originalmente indicados para uma possível troca com guerrilheiros presos nos cárceres colombianos. O penúltimo deles foi o ex-governador do estado de Meta, Alan Jara, cujas declarações deixaram autoridades e boa parte da população abismadas. “A guerrilha não está derrotada, tem uma rede de abastecimento e uma logística invejáveis, e os jovens continuam entrando para seus quadros. Não há maus tratos ou humilhação. Simplesmente nos dão o que existe, ou seja, uma pobre alimentação”. De imediato teve de defender-se dos que o acusaram de sofrer da Síndrome de Estocolmo (o prisioneiro identifica-se emocionalmente com seu carcereiro), tendo de explicar que não estava defendendo as Farc que por mais de sete anos o mantiveram prisioneiro, e sim explicando que a mesa de negociação é a única alternativa para a guerra interminável. Tanto Jara quanto o ex-deputado de Valle, Sigifredo López e os três policiais que junto a um sargento do exército foram liberados com apoio de helicópteros brasileiros poucos dias antes, apresentavam no momento da liberação “boas condições de saúde” segundo os respectivos laudos médicos. É um quadro que repete o verificado com os liberados pela guerrilha no ano passado e mesmo Ingrid Betancourt não retornou à liberdade em péssimas condições físicas como antes se divulgara com insistência. Falando a este respeito, Jesús Santrich do Bloco Caribe das Farc, para quem a selva não é lugar para tirar férias, opinou que as condições da mata não são tão duras quanto as das prisões onde são mantidos os guerrilheiros que caem prisioneiros. Ao descrever um dia típico no cativeiro, Jara disse que às 5 da manhã ouviam o programa de rádio com notícias das famílias, às 6 lhes eram tiradas as correntes – usadas, segundo ele, para impedir que fugissem durante a noite – e tomavam café. Em seguida tinham aulas até o ½ dia (ele ensinava inglês e russo ao seu grupo), seguindo-se o almoço e a hora do banho, um tempo para descanso e distração e então esperar a noite para viver o dia seguinte.

A guerrilha sem dúvida tem uma organização incrível para manter-se na luta por quase 43 anos, mas comete erros que estão se tornando freqüentes. O pior deles aconteceu em 18 de junho de 2007, quando onze deputados do estado de Valle (o 12º, Sigifredo López, escapou por estar em outro local) que estavam em poder da Frente 60 foram assassinados a sangue frio pelos seus carcereiros porque, numa trapalhada, a Frente 29 também das Farc a atacou. Os primeiros pensaram que estavam sendo agredidos pelo Exército e os segundos acharam que era um bloco do ELN (guerrilha concorrente) do qual queriam vingar-se. Sob intensa pressão da política de Segurança Democrática do presidente Álvaro Uribe que desfechou uma ofensiva militar que mantém a guerrilha encurralada impedindo até mesmo a comunicação livre entre seus chefes, os reveses no ano passado foram catastróficos: a morte dos três líderes maiores – Manuel Marulanda, Raul Reyes e Ivan Rios -, além da Operação Xeque na qual o Exército libertou sem dar um só tiro a Ingrid Betancourt e aos três norte-americanos.

A estratégia de nomear 60 seqüestrados por razões políticas como moeda para troca pelos guerrilheiros presos, foi um tiro que saiu pela culatra ao resultar numa grande movimentação do povo colombiano pelas suas libertações e a concentração dos esforços repressivos governamentais em torno do grupo. Por várias razões, hoje restam 25, todos policiais ou militares. Deles o mais graduado é o Coronel da Polícia Luis Mendieta, há mais de dez anos na selva (os mais antigos são os cabos Pablo Moncayo e José Martinez que caíram em dezembro de 1997). Manter este grupo sem ter um território sagrado onde não sejam fustigados diariamente pelas Forças Armadas, tornou-se cada vez mais inviável, o que parece ter levado Alfonso Cano, o atual Número Um das Farc, a abrir mão dele, permanecendo, no entanto, com todos os seqüestrados por razões financeiras, mais de 800 pessoas, sobre as quais inexiste clamor popular, pois são do interesse direto somente das próprias famílias. A liberação voluntária de reféns não é uma novidade: segundo o jornal El Tiempo, 428 sequestrados civis ou fardados recuperaram a liberdade desde 1997. Agora a esperança da guerrilha, que necessita cada vez mais desesperadamente respirar por meio de negociações de paz que lhe permitam rearticular-se, é que liberações gradativas criem um clima favorável no país a entendimentos com Uribe, que poderá tornar-se menos duro à medida em que a campanha para as eleições de 2010 avance. Uribe acha que está perto de inviabilizar as Farc e tem amplo apoio da população, mas não o conseguirá no ano e meio de mandato que lhe resta. Caso não se lance na aventura de um terceiro período na Casa de Nariño (Palácio de Governo), terá de confiar em um substituto à altura. Os próximos dois anos serão decisivos para sabermos se a guerrilha será fortalecida ou arrasada.           

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