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ELEIÇÕES E CARTÉIS DA DROGA NO MÉXICO

Enviado Segunda-feira, 19 de julho de 2010 às 10:19:32 | Nenhum comentário »

O PRI, Partido Revolucionário Institucional, está demonstrando que na verdade nunca deixou o poder no México. Governou ininterruptamente de 1929 a 2000, quando o PAN, Partido de Ação Nacional, derrotou-o nas eleições elegendo primeiramente a Vicente Fox e em 2006 ao atual Presidente Felipe Calderón Hinojosa, conhecido como FCH, este numa eleição contestada pois a vantagem para o segundo colocado, Manuel Obrador do PRD (Partido da Revolução Democrática), foi de apenas 0,56% dos votos. Nos últimos dez anos o velho PRI se manteve como a principal agremiação política nacional e agora – nas eleições em doze estados para governadores de 4 de julho – divertiu-se pois além de ter triunfado em nove deles, os vencedores nos outros três são originários de suas fileiras. A costumeira confusão política mexicana, por vezes com diferenças imperceptíveis entre os programas dos vários partidos, desta feita atingiu o auge, uma vez que para vencerem em Sinaloa, Puebla e Oaxaca (os três maiores estados em disputa, à exceção de Vera Cruz) o PAN que é de direita e o PRD, de esquerda, formaram uma aliança que contrariou tudo o que cada um até aqui vinha defendendo. O primeiro tentou desmanchar a má imagem de conservador, enquanto o segundo arriscou-se a perder a boa aura de progressista.   

Tentando tirar proveito da salada em que se transformou a política mexicana, Manuel Obrador declarou-se contrário à aliança espúria de seu partido com o PAN, informando que buscará um novo partido para candidatar-se contra todos nas próximas eleições nacionais de 2012. Os outros candidatos oposicionistas serão, provavelmente, o governador do Estado do México, Enrique Peña Nieto pelo PRI e o prefeito da capital, Marcelo Ebrard pelo PRD, enfrentando – caso não se alie a ela - a deputada Josefina Vásquez (luta contra uma série de pelo menos cinco outros sérios postulantes ao posto) pela situação. Quem vencer receberá um México em crise, com um PIB que decresceu em 6,7% no ano passado (redução de 1,8% na América Latina e crescimento de 0,3% no Brasil) e perdendo a luta contra o narcotráfico. Felipe Calderón no dia seguinte à sua posse mandou 45 mil soldados para os estados mais corroídos pelo tráfico e o resultado foi o aumento dramático da violência que hoje atinge níveis altíssimos no país inteiro.

Os principais Cartéis da Droga – Tijuana, Sinaloa, do Golfo, Los Zetas, Beltrán Leyva, La Família e Juárez – não têm limite no quesito crueldade, estimando-se que movimentam o equivalente a 45% da renda bruta total do país a cada ano. O costume é executar seus inimigos - de preferência policiais - e decapitá-los. Na segunda-feira anterior ao pleito, o candidato do PRI ao governo do estado de Tamaulipas, Rodolfo Torre, e cinco acompanhantes foram assassinados numa emboscada. É o político de mais alto escalão morto no México nos últimos dezesseis anos, mas seu irmão Egidio o substituiu e venceu a eleição. Antes, na estrada que liga Toluca ao município de Zitácuaro, a 150 quilômetros da capital do país, o Cartel La Família atacou um comboio policial matando doze a tiros de metralhadora e deixando quinze seriamente feridos. Como não poderia deixar de ser, a insegurança afastou a população das urnas. A abstenção geral foi de 46%, mas em estados muito afetados pelo tráfico de drogas, como Chihuahua, 66% dos votantes ficaram em casa.

Calderón embarcou na canoa de George Bush e tentou dominar o tráfico sem reduzir as desigualdades sociais, antepondo a violência do Estado à violência dos Cartéis da Droga. Fracassou e hoje é consenso entre os mexicanos de que as causas principais que alimentam o narcotráfico são a corrupção das autoridades em todos os níveis de governo e a impunidade. Recentemente o Subprocurador da República e três diretores do escritório local da Interpol foram presos por suas ligações com o tráfico. Famosa tornou-se a festa de arromba promovida por um dos maiores chefes do crime organizado, “Joaquin El Chapo Guzmán” para comemorar o 15º aniversário do filho e seu terceiro casamento, com a segurança a cargo de helicópteros do Exército. De acordo com Ricardo González Bernal da ONG Liberdade de Expressão, no ano passado de 244 casos de agressão contra jornalistas (12 assassinatos), nenhum foi julgado. “Eles investigam por um tempo, mas logo abandonam”. Em Washington, na semana passada, Obama e Michelle receberam num jantar na Casa Branca a Calderón e sua esposa Margarita Zavala. A cooperação entre os dois países nunca foi tão intensa. Obama pediu mais US$ 310 milhões ao Congresso em ajuda para o programa Fronteira Inteligente nos 3141 quilômetros que limitam os dois países e adiantou a entrega de uma aeronave e helicópteros Black Hawk ao exército mexicano. O governo do México resolveu distribuir milhares de mapas do deserto de Sonora que cerca nos dois lados a fronteira mais movimentada do mundo, sendo acusado de facilitar a migração ilegal. Queremos apenas evitar as mortes, identificando fontes de água e rotas mais seguras, responderam os geógrafos, nunca ouvidos pelas autoridades que fazem a segurança sempre com armas nas mãos.                 

Yeda esta atrás, mas pode reagir nos próximos 90 dias

Enviado Segunda-feira, 05 de julho de 2010 às 09:46:50 | Nenhum comentário »

Duas semanas depois dos confrontos entre uzbeques e quirguizes que fizeram cerca de 2 mil vítimas na cidade de Osh, 70% dos eleitores foram às urnas neste último domingo de junho e nove em cada dez votaram “sim” aprovando a nova Constituição do Quirguistão que institui uma democracia parlamentar e referenda o governo provisório de Roza Otunbaeva. Dentre as grandes novidades numa terra acostumada a invasões estrangeiras e a ditaduras desde que surgiu no mapa seis séculos antes de Cristo, está a de que nenhum partido poderá ter mais de 50 cadeiras num total de 90 no Congresso. Roza, que acaba de completar 60 anos, segue o padrão dos políticos das cinco ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central, sendo originária do Partido Comunista numa carreira iniciada na década de oitenta.  Ela liderou a Revolução das Tulipas que depôs o presidente Askar Akayev em 2005 e elegeu Kurmambek Bakiyev, derrubado este ano sob acusações de corrupção, nepotismo e responsabilidade pelo alto custo de vida. O Quirguistão, com apenas 200 mil km2 e 5,5 milhões de habitantes (69% quirguizes, 14,5% uzbeques, 9% russos), é um dos dois únicos países do mundo duplamente isolados – o outro é Liechtenstein -, ou seja, inteiramente cercado por outros países também sem acesso ao mar. Eleições presidenciais foram adiadas para outubro de 2011, dando tempo para Roza estruturar um governo minimamente estável (apoiado pela Rússia) e capaz de enfrentar os ataques dos seguidores de Bakiyev que, asilado em Belarus, estaria aliado a grupos de muhajedins talibans. Ela pretende manter a colaboração com o ocidente.  

Depois que Lênin tomou o poder em 1919, a ex-URSS custou a concluir que a única maneira de dominar as cinco repúblicas da Ásia Central seria submetê-las a um processo de sovietização total, dando-lhes uma única nacionalidade: a russa. Em 1936 completou-se o processo de submissão do Turcomenistão, Uzbequistão, Tajiquistão, Cazaquistão e por último do Quirguistão que se prolongou até a queda do Muro de Berlim em 1991 quando todos recuperaram suas independências com as antigas nacionalidades territorialmente misturadas mas, numa prova do fracasso da estratégia comunista, etnicamente intactas. Só não conseguiram livrar-se da imensa influência política e econômica russa que até hoje costuma manifestar-se pela violência, como há cinco anos quando o presidente uzbeque, Islam Karimov (na presidência desde 1995), um fiel aliado de Vladimir Putin, ordenou que suas Forças de Segurança abrissem fogo massacrando 5 mil opositores que marchavam pacificamente nas ruas de Andijan. Era o temor de enfrentar a Revolução Colorida que triunfara na Sérvia, na Ucrânia e no Quirguistão.

O velho Partido Comunista conseguiu manter muito de sua influência na região sem mudar, na essência, suas práticas. Nursultan Nazarbayev segue como o primeiro e único presidente do Casaquistão (desde 1989) e Samarpurat Niyazov que tinha um mandato para toda a vida no Turcomenistão só deixou o poder ao falecer em dezembro de 2006. Seu substituto, Gorbanguly Berdimuhamedow, está no comando desde então.  À exceção do Cazaquistão e do Turcomenistão que, às margens do Mar Cáspio, possuem imensas reservas de gás e petróleo, os demais estão entre as mais pobres nações do mundo e nos últimos lugares quando a medida é o Índice de Percepção da Corrupção. Em parte pagam o preço da vizinhança em uma região que inclui territórios do Afeganistão, Rússia, Irã, Mongólia, Paquistão, Índia e China. Das dez rotas mais comuns de tráfico de ópio e de heroína a partir do Afeganistão, cinco cruzam por Osh, em geral rumo a Moscou. As estradas de Khujand costeando o rio Sir Daria e de Khorog no Tajiquistão para Osh, que é a segunda cidade quirguiz e terra natal de Roza Otunbaeva, concentram o grosso do tráfico e não por acaso estão na origem das batalhas deste mês quando as diferenças raciais entre quirguizes e uzbeques foram exploradas por políticos que costumam ser os mesmos que controlam o tráfico.

A Ásia Central mudou depois do 11 de setembro de 2001, com uma crescente presença norte-americana, cuja base no Quirguistão (os russos têm ao lado a sua base e projetam construir outra) serve de apoio a vôos de abastecimento e agressão ao Afeganistão. Em janeiro, numa outra rota da seda pelo novo túnel de Anzab, foi inaugurado um oleoduto ligando o Irã ao Mar Cáspio e aos campos de gás do Turcomenistão, país que ainda ganhou um gasoduto que vai até a China e uma ponte de ligação com as planícies afegãs, esta construída pelos Estados Unidos. Mas, nem só de economia e de política ai se vive. Os russos sentem um outro medo, profundamente arraigado em seus corações desde o domínio do país por Gengis Khan no século XIII: o de serem novamente submetidos à fé muçulmana, já então professada pelos mongóis aos quais associam suas desgraças de então. Discordâncias ancestrais não acabam de repente. Ao contrário, alimentam-se e se fortalecem com as novidades, prometendo manter as tensões à flor da pele nesse canto do mundo.             

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