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INDECISÕES E TRAGÉDIAS DA POLÔNIA

Enviado Segunda-feira, 28 de junho de 2010 às 11:40:27 | Nenhum comentário »
Setenta anos atrás, em abril de 1940, a NKVD de Lavrentiy Beria, predecessor da KGB soviética, seguindo ordens dadas por escrito por Josef Stalin, assassinou um por um e em geral com um tiro de graça na nuca a cerca de 27.500 militares, policiais e intelectuais poloneses que eram prisioneiros, entre outros, nos campos de concentração de Ostaszkov, Starobielsk e Kozielsk Durante quarenta anos a Rússia colocou as culpas do massacre na Alemanha nazista, até que Gorbachev confessou e abriu os arquivos secretos em Moscou. No último dia 10 de abril quase todo o primeiro escalão polonês, com o Presidente Lech Kaczynski e sua esposa Maria à frente de uma comitiva de 96 pessoas, decidiu embarcar na aeronave presidencial – o velho, mas recém reformado Tupolev 145 – rumo ao aeroporto de Smolensk em cujos arredores, na floresta de Katyn, a maioria das vítimas pereceu.
Em meio a intenso fog, o piloto fez três tentativas de aterrissar sem sucesso e decidiu seguir para Minsk em Belarus onde as condições tecnológicas da base eram melhores, mas provavelmente por pressão dos políticos que não queriam perder tempo desceu uma vez mais para chocar-se com uma árvore e espatifar-se no solo. Ninguém sobreviveu. Para Lech Valesa, o criador do movimento anticomunista Solidariedade, “um segundo Katyn golpeou a Polônia fazendo-a perder sua elite”. Na época, estima-se que 1,5 milhão de poloneses foram deportados e morreram na Sibéria, mas os únicos a merecerem a vingança assinada por Stalin foram os de Katyn.
Seguindo o que reza a Constituição, eleições antecipadas realizaram-se no domingo. Venceu o ex-presidente do Congresso (estava no exercício da presidência), Bronislaw Komorowski, 58 anos, do partido Plataforma Cívica, o mesmo do 1º Ministro Donald Tusk, com 45,7% dos votos, seguido pelo irmão gêmeo do presidente falecido no desastre, Jaroslaw Kaczynski, com 33,2%. Dentre os demais oito candidatos, surpreendeu Grzegorz Napieralski, da Aliança Democrática de Esquerda com 13,4% o que o faz o fiel da balança para o 2º turno de 4 de julho próximo. Os dois primeiros foram forjados no Sindicato Solidariedade, têm um largo currículo de luta contra a ditadura comunista e são politicamente contrários à Rússia, o grande pesadelo polaco. Komorowski é tido como um moderado de centro-direita e seu discurso é liberal e pró aliança com a União Européia, da qual a Polônia faz parte desde 2004.
Jaroslaw, líder do ultraconservador partido Lei e Justiça sempre foi o mais duro dos gêmeos e como 1º Ministro no governo do irmão caiu há três anos devido a suas atitudes agressivas contra Alemanha e Rússia, obsessão por eliminar a herança do comunismo e defesa radical em demasia da religião católica. Em princípio, o favoritismo permanece com Komorowski que deve obter o apoio da esquerda, mas ninguém esquece o ocorrido em 2005, quando os resultados do 1º turno surpreendentemente inverteram-se no 2º ocasionando a derrota da Plataforma Cívica.
Os Estados Unidos e a Europa acompanham preocupados a evolução do pleito polonês muito mais por razões econômicas do que ideológicas. Desde a independência do Azerbaijão, Casaquistão e Turkomenistão, estados que compõem a bacia energética do mar Cáspio, tornou-se crítica a posição da Polônia devido ao seu poder potencial de interromper o fluxo do petróleo e do gás que a Rússia exporta para a Europa. Quando, recentemente, Barack Obama disse que não mais instalaria na Polônia e na República Checa o sistema de defesa conhecido como escudos antimísseis projetado por George Bush, a manchete dos jornais de Praga, Varsóvia e Bucareste foi de que os “EUA traíram a Europa Oriental para agradar a Rússia”.

Duas grandes dúvidas permanecem no ar. Na Polônia quem governa é o 1º Ministro, embora o presidente tenha o poder de veto e possa em condições extremas dissolver o Parlamento. Há três anos vigora uma política de coabitação entre os dois maiores partidos com os Kuczynskis e Donald Tusk suportando-se no dia-a-dia. Diz-se que essa composição não mudará sejam quais forem os resultados das eleições, mas poucos são os que acreditam nessas palavras. O outro problema está nas conseqüências que o desastre de Smolensk terá sobre o imaginário da população, fazendo-a, talvez, retomar adormecidas raivas contra os russos. Numa reunião com Bush, Vladimir Putin referiu-se à Ucrânia com um país que não existe, refletindo o sentimento de que quando seu país recuperar a força novamente agregará os territórios das nações que se desgarraram após a queda do muro de Berlim. As desconfianças persistem e nem Jaroslaw nem Bronislaw prometem reduzir as tensões.

OLHO NO VICE

Enviado Terça-feira, 01 de junho de 2010 às 09:46:22 | Nenhum comentário »
O Brasil já teve vinte e oito eleições presidenciais no período republicano e nas dezoito primeiras cultivou-se o saudável hábito de eleger separadamente o vice-presidente que fazia campanha, tinha programa de governo, mostrava quem era. Na verdade, a República, ao final do século XIX, nasceu sob o signo do vice: Floriano Peixoto minou dia-a-dia o mandato de Deodoro da Fonseca até forçá-lo a renunciar três dias antes de completar curtos nove meses de governo. A Constituição mandava fazer nova eleição, mas Floriano não permitiu. A escolha simultânea, em chapa única, de Presidente e Vice é um remanescente da ditadura militar que a instituiu a partir da dupla Costa e Silva e Pedro Aleixo. Antes, Jânio e Jango foram eleitos separadamente pelo povo, como Castelo Branco e José Maria Alkmin quatro anos depois pelo Congresso. Quando Prudente de Morais afastou-se para sofrer uma cirurgia, Manuel Vitorino assumiu, trocou todo o Ministério e mudou a sede do governo do belíssimo Palácio Itamaraty para o Catete, espalhando a notícia de que o chefe, doente, não reassumiria. Para sua surpresa, um belo dia Prudente desceu de um velho taxi na porta do palácio, sem avisar a ninguém (caso contrário seria impedido de entrar) e reassumiu. Afonso Pena faleceu e deu o lugar a Nilo Peçanha, da mesma forma que Rodrigues Alves (vitimado pela febre amarela em 1918), substituído por Delfim Moreira que, sofrendo das faculdades mentais, logo saiu. O suicídio de Getulio Vargas em 1954 fez de Café Filho o Presidente. Jango, que já fora Vice de JK, foi eleito com 4,5 milhões de votos por uma coligação (PTB, PSD, PSB) contrária à de Jânio Quadros, assumindo quando este renunciou, para ser derrubado pelo golpe de 64. No período militar, o vice civil era um zero à esquerda. Alkmin foi obrigado a dormir num motel no Paraguai quando Castelo viajou ao exterior, para não assumir. Pedro Aleixo, mesmo sendo fundador da UDN e um dos mentores da “Redentora”, foi declarado “impedido” pelo Conselho de Segurança Nacional e, na morte de Costa e Silva acabou cedendo o lugar para uma Junta Militar. Tancredo Neves faleceu antes da posse e, com isso, o país ganhou de presente José Sarney, a quem nem sequer conhecia. Algo similar aconteceu no impeachment de Fernando Collor, cedendo de graça a vaga para Itamar Franco. Pesquisa de opinião realizada um ano depois que Itamar assumira, perguntou ao povo “quem foi o Vice de Collor?”, constatando que quase ninguém lembrava.
Não resta dúvida de que o próximo Vice tem, pelo menos dos pontos de vista histórico e estatístico, boas chances de herdar a presidência do Brasil, o que é motivo mais do que suficiente para prestarmos atenção no perfil dos que hoje surgem como candidatos ao posto. No lado do PT, depois dos tropeços de Ciro Gomes e Henrique Meirelles, o mais forte é o atual presidente do PMDB e da Câmara dos Deputados, o advogado paulista descendente de libaneses Michel Temer Lulia. Na última década nenhum Projeto de Lei digno de atenção saiu de sua caneta. Lidera um grupo de políticos cuja característica básica é a maleabilidade e a capacidade de ocupar posições no Executivo em troca de apoio no Legislativo. Com rara habilidade para a negociação política de corredores palacianos, a cada governo Temer e seu grupo primeiro proclamam autonomia e barram a tramitação de alguns projetos do Executivo que termina cedendo, afinal propiciando a adesão total de quem aparentemente o ameaçava, conforme descrição recente de Dácio Malta em seu blog. Temer desistiu do caminho das urnas populares ao amargar um distante 4º lugar quando secundou a Luiza Erundina no pleito pela Prefeitura de São Paulo em 1998. Na prática, comanda a corrente dita fisiológica do PMDB nacional. Caso seja eleito com Dilma, aguardará pacientemente para assumir em caso dela não agüentar o jogo pesado do Planalto.
No outro lado, a disputa pela vaga ao lado de José Serra segue em banho-maria, pois as possibilidades de vitória não estão claras e o candidato tem se mostrado fisicamente uma fortaleza e, caso triunfe, provavelmente governará até o fim dando pouco espaço ao seu Vice. Quem será? No topo do ranking segue o neto de Tancredo, o mineiro Aécio Neves, numa reedição das alianças café-com-leite (entre Minas e São Paulo, criada nos tempos de Campos Sales). Matreiro como o avô, Aécio não entra em dividida e só aceitará se vislumbrar um futuro político concreto. Enquanto as conversas prosseguem, indica o primo Francisco Dornelles do PTB getulista, cujo cacife seriam os 3 minutos na TV, mais os 3 que retiraria do tempo do PT. O DEM acha que o lugar é seu, mas seus nomes parecem fracos: Paulo Souto, Cesar Maia, Marco Maciel, Agripino Maia e Katia Abreu da Confederação Nacional de Agricultura (esta seria uma guinada exagerada à direita). O partido tem tradição recente negativa, pela cassação de Arruda no DF e pelo boicote de Paulo Feijó à administração da gaúcha Ieda Crusius. Persistem os que advogam um candidato nordestino para contrabalançar a influência de Lula e do Bolsa Família na região, ou alguém do sexo feminino. No caso, além de Kátia surgem Marisa Serrano (PSDB/MS) e Marina Silva do PV, mas a experiência de Serra com Rita Camata na derrota para Lula foi um desastre. Hipóteses de uma chapa puro sangue com Tasso Jereissati, Álvaro Dias, Beto Richa ou Jarbas Vasconcelos seriam grandes surpresas, da mesma maneira que os alternativos Mão Santa do PSC piauiense e, de novo, Itamar Franco. Faça suas apostas e reze para que tudo dê certo. 
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