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A situação é mais preocupante na América Central, região cujo potencial explosivo – sempre com a honrosa exceção da costa Rica – segue presente. O presidente deposto, Manuel (Mel) Zelaya, ao completar dois meses de residência na embaixada brasileira, diz que não sai nem pede asilo, ao mesmo tempo em que não vê problemas em incitar o boicote das eleições. O Brasil desde os tempos de Rio Branco tem na não intervenção nos assuntos de outros países o principal pilar de sua política externa, mas agora o ministro Celso Amorim, esquecendo das lições do patrono do Itamarati, declara que não pode conceder asilo porque não foi solicitado e Zelaya pode ficar o tempo que quiser, agindo como lhe der na telha, como convidado. Enquanto isso, o presidente De Facto Roberto Micheletti tirou licença por uma semana, com o que não presidirá o pleito nacional que escolhe o novo presidente e seu vice, como previsto no artigo 159 da Carta Magna hondurenha pelo qual “as eleições gerais serão levadas a cabo no último domingo de novembro do ano anterior aquele em que finaliza o período constitucional”. O afastamento de Micheletti vai até 2 de dezembro, coincidindo com o dia em que o Congresso decide sobre a restituição ou não da presidência a Zelaya, cujos partidários atacaram à bala o automóvel do procurador-geral de Honduras, Luís Rubi (encarregado dos processos contra Mel), que escapou ileso. Na mesma data está marcada nova reunião da OEA para definir sua posição em relação ao pleito de domingo, mas há poucas ilusões a este respeito, diante da posição sempre parcial do seu secretário-geral, o chileno Miguel Insulza.
Afora os países bolivarianos e o Brasil, a Guatemala informou que não reconhecerá os resultados eleitorais, ao contrário do posicionamento do vizinho Panamá e dos Estados Unidos. O acordo denominado de San José-Tegucigalpa, patrocinado pelo embaixador norte-americano, gorou quando Zelaya não indicou representantes para o governo de coalizão que aceitara pouco antes e voltou a opor-se radicalmente às eleições, pois sua realização e a posse do eleito em janeiro acabam com suas chances de perpetuar-se no poder repetindo as façanhas de Chávez, Morales e Correa. A instabilidade do quadro político e as crescentes ameaças da esquerda fazem com que apenas metade dos 4,6 milhões de eleitores devam comparecer às urnas, provavelmente para eleger o fazendeiro oposicionista de 61 anos Pepe Porfírio Lobo, do Partido Nacional que tem quase 20% de vantagem nas intenções de voto diante do empresário Elvin Santos do Partido Liberal. Os dois grandes partidos hondurenhos revezam-se no poder desde 1982, quando do retorno da democracia ao país. Caso o grupo de Zelaya resolva apoiar os Independentes concorrendo aos 2.897 cargos (em todos os níveis, incluindo vereadores) em disputa, um futuro de paz para Honduras torna-se mais provável.
O favoritismo do senador José Mujica e ministro da economia Danilo Astori se mantém no Uruguai. A Frente Ampla, de esquerda, obteve 48% dos votos no 1º turno e agora tem em média 49% conforme as últimas pesquisas. Já a fórmula do Partido Nacional ou Blanco, com Luís Lacalle e Jorge Larrañaga, saltou de 29% para 41% graças ao apoio do Partido Colorado que, no entanto, só está transferindo parte do capital eleitoral que lhe deu 19% dos votos
Desafiando o senso comum de que a felicidade é um conceito subjetivo que não pode ser medido, um número crescente de pesquisadores trabalha na área formulando indicadores na perspectiva de sua utilização pelos governos para orientar suas políticas públicas. Novas leis, edifícios ou estradas deveriam assegurar que sua aprovação faria as pessoas mais felizes. É a pretensão do presidente francês Nicolas Sarcozy que formou uma “Comissão para medir performances econômicas e de progresso social” liderada por Joseph Stiglitz e pelo Prêmio Nobel Amartya Sem. Orientado a evitar utopias e buscar resultados práticos, o grupo sugeriu oito dimensões de bem-estar, para identificar condições de vida material, saúde, educação, meio ambiente, atividades pessoais, ligações sociais, participação na vida política e insegurança econômica e psíquica. Em parte, a proposta francesa segue os padrões adotados no Butão, cujo rei instituiu o Índice de Felicidade Interna Bruta, o FIB em oposição ao PIB, estabelecendo um conjunto de 73 variáveis que medem o bem-estar e a satisfação com a vida de seus habitantes. O país, com 700 mil habitantes e sempre ameaçado de desaparecer caso os grandes lagos do Himalaia transbordem, figura em 8º lugar com uma média de 7,8 numa escala de 0 a 10 segundo o Banco de Dados Mundiais da Felicidade, criado pelo sociólogo holandês Ruut Veenhoven que mede diversos fatores como educação, ausência de medos e de violência, igualdade de gênero e, principalmente, a liberdade de fazer escolhas. Em 1º está a Costa Rica, seguida por Dinamarca, Suíça e Islândia, com Tanzânia, Togo, Burundi e Zimbabwe nos últimos postos. O Brasil é o 18º.
Uma ONG britânica, a Fundação Nova Economia, criou o Índice Planetário da Felicidade (Happy Planet Index – HPI), explicando que se trata de uma medida de eficiência ambiental que conduz ao bem-estar. Por seu turno, o Canadá desenvolveu um conjunto de 30 indicadores de qualidade de vida agrupados em três grandes categorias: condições de vida, populações saudáveis e vitalidade comunitária. Métodos costumeiramente adotados pela comunidade científica, como o Índice de Qualidade de Vida ou o Índice de Desenvolvimento Humano, não são considerados como satisfatórios quando se trata de realmente medir a felicidade. Entre seus possíveis substitutos figuram o Inventário Oxford de Felicidade de Michael Argyle baseado numa única pergunta – Você se sente feliz em geral? - e o extenso Questionário sobre Atributos de Sucesso e Felicidade (SHAQ na sigla inglesa) formulado por Tom Stevens da Universidade do Estado da Califórnia.
Na mais antiga tradição grega, a felicidade está ligada ao destino e independe do que se possa fazer ou omitir. Não por acaso, o termo inglês para felicidade é happiness que vem do verbo to happen, ou seja, o que vai acontecer e, portanto, é incerto. Não tendo garantias, pode desaparecer. Aristóteles e Platão dissociaram a felicidade da sorte e, ao afirmarem que uma vida feliz é conseqüência de uma vida virtuosa, cultivada pelo próprio homem, lançaram as bases em que se apóia o mundo moderno. Há, porém, os que afirmam ser a felicidade a aceitação da própria sina ou destino, exigindo uma adaptação de desejos e expectativas ao que acontece. Daí veio o materialismo, pelo qual o importante é “ter algo” e não “ser algo”. A felicidade parece ser uma combinação, meio a meio, entre um processo interno (genético) e fatores externos, dependentes da vivência de cada um. Costumam ser mais felizes pessoas com renda satisfatória, empregadas, casadas, altruístas, bem como países com desenvolvimento equilibrado, sólida herança cultural e boa governança. Contudo, comparações sobre felicidade feitas por psicólogos em entrevistas com ganhadores de loteria, paraplégicos e pessoas sem essas condições, constataram mínimas diferenças. Em um determinado momento o indivíduo sente-se feliz, mas em outro pode ter um sentimento oposto, num movimento de vai e vem que reforça a aleatoriedade do processo.
Num texto em que procura explicar porque o dinheiro não compra felicidade, a revista Newsweek diz que o contrário é verdadeiro, ou seja, pessoas felizes acabam ganhando muito dinheiro. Na contramão, há os que se dedicam a medir atividades desagradáveis por meio do Unpleasant Índex que, num estudo com mulheres no Texas constatou que a cada dia 18% do tempo era desperdiçado dessa maneira. Embora o índice nada informe sobre felicidade, serve para identificar zonas de angústia e infortúnio, muito comumente exploradas por políticos que preferem remediá-las ao invés de oferecer possibilidades de realização pessoal e coletiva. As pessoas querem ser felizes e saudáveis, não necessariamente ricas, constataram psicólogos da Universidade de Leicester que em 2006 construíram o Mapa Mundial da Felicidade, afirmando que o conceito de felicidade, ou satisfação com a vida, é hoje uma importante aérea de pesquisa em economia e em psicologia positiva. É uma pena que nem todos possam ser felizes ao mesmo tempo ou a vida toda, mas não custa seguir tentando.
A Índia dedicou o último dia de outubro à lembrança de Indira Gandhi, assassinada em 1984 com trinta e um tiros dados à queima roupa por seus guarda-costas Sikhs como vingança à invasão cinco meses antes pelo exército (ordenada por Indira, que era primeira-ministra), do Templo Dourado em Amritsar, no estado do Punjab junto à sempre perigosa fronteira com o Paquistão. Nos dez dias que se seguiram à morte de Indira, filha de Nehru, pelo menos quatro mil Sikhs foram chacinados país afora, espalhando uma mancha negra nunca apagada sobre a história nacional. Desde então muita coisa mudou num país que viu fracassar suas políticas de contenção da natalidade e hoje tem 1,17 bilhão de habitantes, apenas cento e oitenta mil a menos que a vizinha China. O primeiro-ministro é um economista Sick (a etnia tem 2% da população, mas isto significa 23,4 milhões de pessoas), Manmohah Singh, acatado por sua seriedade, que vem conduzindo a Índia pelos caminhos de um inusitado e sustentado crescimento de 9% ao ano. Seu Partido do Congresso consolidou-se no poder ao obter na maior eleição do mundo, com 800 milhões de eleitores, uma votação nunca alcançada por qualquer partido nos últimos dezoito anos, arrematando 206 das 543 cadeiras da Lok Sabha, a Câmara de Deputados Federais. O comando do partido, e com ele o verdadeiro poder, segue nas mãos da dinastia Nehru-Gandhi. A presidente é Sonia Gandhi, italiana de nascimento e viúva do ex-primeiro ministro Rajiv Gandhi que era irmão de Indira. Em plena ascensão surge Rahul, filho de Sonia, respeitado por seus hábitos austeros e tido como a razão do atual prestígio popular do Partido que relegou a uma posição de inferioridade tanto os nacionalistas conservadores do Partido Janata quanto a esquerda.
Com suas estradas esburacadas e aeroportos arrasados que impedem o fluxo de grandes cargas, a opção por softwares e serviços que podem ser exportados por fios revelou-se perfeita e hoje a Índia tem vários Vales do Silício, ilhas imensas de sucesso que ajudaram a reduzir à metade, num período de vinte anos, sua taxa de pobreza. Na outra face da medalha, tem pelo menos três Nigérias – 300 milhões que vivem com menos de um dólar por dia – ou cinco Bangladesh se considerarmos os 800 milhões que ganham até dois dólares, o que a transforma no lar de 40% dos pobres do mundo. As diversidades nunca podem ser evitadas ou esquecidas nessa terra de dezoito idiomas e mais de 1.200 dialetos com seus milhões de deuses. Para avançar, é preciso contornar as dificuldades a cada passo, como as colocadas agora pelos muçulmanos que exigem mais consideração e maior participação no governo central, argumentando com seu peso populacional (são 13,5% do total, ou seja, 158 milhões, número só superado pela comunidade islâmica da Indonésia) e tolerância na prática religiosa. Os outros focos de preocupação ou conflito são o Paquistão, a China e a guerrilha maoísta.
Discursando na Cachemira indiana na última semana, Manmohan Singh pediu aos paquistaneses que eliminem os acampamentos de militantes que combatem na fronteira. Ao mesmo tempo, oficiais indianos acusaram os paquistaneses de estarem oferecendo a talebans capturados nas regiões próximas ao Afeganistão a opção de se engajarem na luta contra a Índia na Cachemira ao invés de irem para a prisão. É uma resposta às afirmativas de Islamabad de que o governo indiano estaria financiando rebeldes talebans no Paquistão. Enquanto isso, irritada com a promessa chinesa de apoiar financeiramente o Paquistão na construção de uma hidrelétrica no seu lado da Cachemira, Nova Delhi disse que poderá autorizar o Dalai Lama (que vive exilado em Dharamshala ao norte do país) a visitar o estado fronteiriço de Arunachal Pradesh no Himalaia, em frente a Lhasa, que a China reclama como seu território: uma ofensa inaceitável principalmente após os conflitos no Tibete em 2008.
Numa vasta área situada no centro e no leste, os Naxalites, guerrilheiros maoístas que se fortaleceram na última década (estão presentes em 20 dos 28 estados indianos), fazem ataques diários que já ocasionaram mais de 900 vítimas principalmente no chamado Corredor Vermelho, onde se ocultam em densas selvas e nas montanhas, favorecidos pela miséria intensa do povo. Inicialmente considerados como um bando de foras-da-lei, montaram um santuário às margens do rio Indravati no estado de Chattisgarh com ramificações nos estados limítrofes de Orissa, Bihar, Jharkhand, Maharashtra e mesmo em Bengala Oeste apesar de que este é governado pelo Partido Comunista. Dizem-se defensores dos grupos tribais, os Adivasis, acusando o governo de tomar suas terras para explorar matérias-primas em benefício de grandes empresas. Temeroso com a organização e a disciplina militar dos maoístas que, ao contrário de muitos outros grupos radicais que existem por quase toda Índia, pretendem derrubar o regime, o exército está deslocando 70 mil efetivos para combatê-los, reconhecendo que será uma luta de longo prazo. Enfim, mesmo acostumada a seus infindáveis confrontos, a Índia continua sendo uma das mais sólidas democracias do mundo moderno.
