Roteiros expõem as deficiência do setor
Foto por Mario André Coelho
Roteiros turísticos expõem a fragilidade do setor a poucos dias da Festa da Uva
A cidade está em ritmo acelerado com os últimos preparativos para o início da 29ª Festa Nacional da Uva, nesta quinta-feira, dia 16 de fevereiro. A decoração do evento vem sendo bastante criticada pela comunidade, não só pela estética mal elaborada e perdida na cidade, como também pela sinalização, com as informações praticamente sem leitura para quem transita pelas rodovias. Mas não é só isso, há um clima de incógnita em relação à festa e a grande expectativa recai sobre o Parque de Exposições onde se concentra os principais atrativos do evento, bem como a atenção dos organizadores.
Entretanto, a tradição da festa e a beleza da Serra Gaúcha respaldam a vinda dos turistas. Mas o que a cidade oferece aos visitantes fora da programação nos Pavilhões e dos desfiles? A Gazeta de Caxias elegeu e percorreu dois dos cinco roteiros turísticos mapeados pela Secretaria do Turismo, que nesta gestão elaborou o material de divulgação, para conferir.
O primeiro foi a Estrada do Imigrante. Segundo consta, é o trajeto percorrido pelos primeiros italianos que aqui chegaram. A beleza natural do percurso, o ar puro e perfumado pela colheita da uva, já validam a visita, porém o local parece não estar vivendo os preparativos para a festa.
Em fase de colheita da Uva e a uma semana do início do evento, os moradores da localidade precisam priorizam o trabalho que lhes conferem o sustento, tendo de ficar em segundo plano a questão turística do roteiro. Por isso, a maioria dos serviços ali prestados precisa ser previamente agendada. Já no pórtico de entrada do roteiro, percorrido pela equipe da Gazeta no último dia sete, percebe-se as deficiências. Além de estar mal conservado, há pichações sobre a placa que contém o mapa do local. Com a comunidade trabalhando intensivamente na colheita da uva, que está sendo prejudicada pelas intensas chuvas dos últimos dias, praticamente nenhum dos serviços ali prestados estava funcionando ou tinha alguém para dar informações. No percurso da Estrada do Imigrante não há nenhuma sinalização ou material de divulgação da Festa da Uva.
Uma das atrações, o Orquidário Pebi, que funciona o ano inteiro, foi o único local encontrado aberto. A proprietária Lídia Teresa Mugnaga não demonstra estar envolvida com a Festa da Uva, mesmo sendo parte do turismo caxiense. “O secretário Jaison Barbosa esteve aqui recentemente e eu pedi a ele o cascalho para colocar aqui na entrada, mas eu já comprei para não ficar sem durante a festa”, conta ela sua única reinvindicação para a estrutura do local. O cascalho evita a formação de barro.
Caminho das Colônias aproveita fluxo de pessoas que visitam o Natal Luz de Gramado
Por ser o mais antigo roteiro turístico de Caxias do Sul, O Caminho das Colônias tem a experiência que lhe confere mais profissionalismo no seu trabalho turístico. A propriedade da família Zanrosso, que dá início ao percurso, é exemplo de beleza e hospitalidade. Com 45 anos de história, a Vinhos Zanrosso recebe visitas o ano inteiro, tendo como pico o Natal Luz de Gramado, quando as agências agendam visitas durante o período do evento, que vai de 15 de novembro a 15 de janeiro.
“Caxias do Sul devia ser tratada como turística o ano inteiro, e não só ser preparada para receber os visitantes quando acontece a Festa da Uva. É uma indignação que tenho desde a infância. E fica tudo para a última hora”, desabafa Marilise Zanrosso. Para ela, por exemplo, a divulgação devia se iniciar já em novembro. “Todo o fluxo que vem em função do Natal Luz poderia receber um material sobre a Festa da Uva”, aponta ela, acrescentando que esta é somente uma questão de organização e planejamento, ainda mais que o evento acontece de dois em dois anos. “Não seria preciso já ter o tema da festa, um material institucional seria suficiente para divulgar o período do evento.”
A cantina oferece degustação e visita ao local gratuitamente e comercializa, além dos premiados vinhos, produtos coloniais, como salame e queijo. Marilise lembra que há pouco tempo uma senhora que acompanhava o marido em uma vinda de negócios, estava indignada por indicarem a ela outra cidade como Bento Gonçalves para fazer turismo enquanto o marido cumpria sua agenda profissional. “Ela insistiu em ficar aqui em Caxias por estar sozinha e ficou impressionada pela indicação do taxista, que disse para ela que Caxias do Sul não tinha cantina”. Para ela, esse tipo de situação demonstra o despreparo do turismo caxiense.
“Temos poucos agendamentos e na última edição da festa, o movimento foi muito fraco”, comenta.
Museu abriga mobília do filme O Quatrilho
A Colina Vinhedos, também parte da propriedade da família Zanrosso, localiza-se no local onde o casal de imigrante, que chegou em 1914 construiu sua casa em 1925. Há cinco anos, Sandra Zanrosso, que também é coordenadora do Roteiro Caminho das Colônias, inaugurou um museu e um espaço para eventos. A casa foi restaurada, bem como a cantina e a adega da família. Móveis, como a mobília do quarto do casal, utilizada como cenário nas filmagens do filme “O Quatrilho”, fotos, utensílios foram garimpados por Sandra para compor o museu.
Para Sandra, os trabalhos em torno da Festa da Uva começaram muito tarde, a decoração está pobre e não há uma movimentação que integre de forma funcional os roteiros turísticos. Ela salienta que participa da Associação do Turismo de Caxias do Sul, ATUR,e que não houve nenhuma reunião para se falar da Festa da Uva. “A Festa da Uva está uma incógnita este ano. Estou curiosa para ver como vai ser lá nos Pavilhões”, revela.
O espaço criado por Sandra, uma iniciativa própria com recursos próprios, recebe muitos eventos durante o ano. Formaturas, encontros de negócios, aniversários, mas tem potencial para muito mais. “Toda a região metropolitana de Porto Alegre, por exemplo, gosta de vir para cá (Serra Gaúcha)”, comenta ela que tem receio que toda essa história, o verdadeiro legado deixado pelos imigrantes, se perca. “A minha geração é a última a manter e a valorizar tudo isso. Meu temor é que as colônias se tornem loteamentos”.
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