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30/07 às 18:17 Comportamento
 

Como lidar com as transformações da adolescência

Psicanalista Carlos Marcírio Naumann Machado afirma que o diálogo sincero é fundamental na educação de jovens sadios

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Foto por Daniela Xú
Machado: “No bullying, o abusador precisa de alguém para o depósito de suas frustrações

 

Debutando em uma nova fase - Como lidar com as transformações da adolescência foi a pauta da palestra que o psicanalista Carlos Marcírio Naumann Machado ministrou para as debutantes 2010 do Clube Juvenil de Caxias do Sul, seus pais e outros convidados. O salão intermediário do clube serviu de palco para o encontro, que foi uma das atividades do concorrido calendário pré-debut deste ano.

 

Machado, que é psicólogo clínico, especialista em Psicanálise, e diretor da Clínica de Psicanálise do Self, abordou a adolescência sob a ótica da psicanálise. Ele conversou com a Gazeta de Caxias:

 

Gazeta - O que é a Psicanálise?

Carlos Marcírio Naumann Machado - É uma escola teórica que pertence à Psicologia. A própria Psicanálise não é um bloco único, pelo contrário, é formada por várias correntes teóricas. Além de ser uma escola dentro da Psicologia, é uma forma de tratamento emocional muito comum nos grandes centros atualmente. Ela se ocupa do inconsciente, que é uma parte pouco conhecida de nós mesmos e que, muitas vezes, joga contra o nosso time, fazendo-nos atuar antes de pensar.

 

Gazeta - Como a Psicanálise define a adolescência?

Machado - Para a Psicanálise, a adolescência é um período turbulento, onde impera o desafio ao mundo adulto. Nessa fase, também é comum a convivência num mesmo sujeito de um aspecto totalmente paradoxal. Às vezes, ele pode ser adulto para, em seguida, regredir a estados de dependência. Adolescência é um período onde muitas coisas podem adquirir uma conformação definitiva, em termos de estrutura de personalidade. Daí a importância do meio no acolhimento do desafio adolescente.

 

Gazeta - Como lidar com as transformações desse período sem entrar em pânico?

Machado - Procurando lembrar a própria adolescência, com as devidas e importantes correções de época. É importante pensar a questão transitória deste período de vida entendendo a liberação cultural contemporânea. Além de tudo, é fundamental aceitar o desafio dos filhos estando presente emocionalmente, o que pode ser muito cansativo para alguns pais.

 

Gazeta - Quais são os erros mais recorrentes dos pais na educação de filhos nesta fase?

Machado - A ideia utópica de que os valores da sua geração possam voltar a imperar no mundo atual. Eles passaram, não têm mais volta. A grande questão criativa é tentar juntar o que está dividido. Explico: como dar limites em casa se, ao abrir a porta, tudo está permitido? O mundo contemporâneo é caracterizado pela ausência de frustração, tudo é instantâneo. Talvez o nosso maior erro seja uma nostálgica esperança de um imaginário retorno ao passado, ao invés de buscarmos soluções criativas de diálogo com a gurizada.

 

Gazeta - Como impor limites aos jovens desta geração?

Machado - Se eu soubesse a receita, já a teria engarrafado. A questão é que não há receita. Um aspecto fundamental, que talvez possamos refletir, é essa compulsão de buscarmos receitas prontas - isso nos tolhe a criatividade. Falando em termos gerais, o limite deve ser conquistado com respeito e não mais pelo medo. É muito importante também aceitar o outro como um sujeito diferente de mim, que tem ideias próprias.

 

Gazeta - Qual a importância do diálogo na educação?

Machado - Se for um diálogo genuíno, sincero, a importância é muitíssimo maior do que podemos supor. O outro sujeito, com quem nos relacionamos, percebe isso, esse envolvimento sincero. Pode ser uma discussão até forte, mas o valor de alguém é sentido, em grande parte, pelo valor e importância que o outro lhe dá. Volto a repetir: aceitar o desafio é cansativo, mas é o caminho.

 

Gazeta: Na visão da Psicanálise, os jovens do Século 21 são muito diferentes dos de outras gerações?

Machado - Sem dúvida que sim. A cultura que nos cerca mudou de forma radical se comparada com a da segunda metade do Século 20.  A evolução tecnológica aliada à globalização criou um mundo onde o consumo substituiu de forma notável a ideia de poupança. Essa situação cultural invadiu as relações emocionais e íntimas das pessoas. A família nuclear vem mudando (agora temos a namorada do pai e o namorado da mãe), a participação da mulher como força de trabalho e, logicamente, de consumo, a equipara às prerrogativas masculinas e todo o desejo deve ser satisfeito já, apenas apertando um botão.

 

Gazeta - E como a psicanálise pode ajudar os adolescentes?

Machado - Essa é outra grande mudança cultural que já é muito perceptível nas grandes cidades. Os denominados tratamentos emocionais ou terapias deixaram de ser algo para pessoas perturbadas e estão assumindo, cada vez mais, um lugar de privacidade e intimidade, onde muitas coisas podem ser sentidas, pensadas e elaboradas. Assim, é de fundamental importância que algo possa ser sentido e pensado, antes de ser atuado. A ação, se for fruto somente da descarga que vem do instinto, pode ser algo muito destrutivo e deixar cicatrizes profundas - às vezes, até selar destinos. Então, se a Psicanálise pode ser útil para todo mundo, imagina para o adolescente, que enfrenta uma fase caracterizada justamente pela predominância do impulso.

 

Gazeta - Na visão da psicanálise, quais as características de um adolescente sadio?

Machado - Essa pergunta é difícil. Vou responder baseando-me na literatura específica sobre o assunto, com a importante ressalva de que pode ser muito incorreto um diagnóstico definitivo nessa fase da vida, justamente pelas características intrínsecas da adolescência. Existem alguns indicadores de prognóstico favorável, como uma relação com os familiares baseada numa real importância da afetividade e a presença de egodistonia, ou seja, “um se dar conta” de ações inapropriadas, entre outras coisas.

 

Gazeta - E o que seria o oposto de um adolescente sadio?

Machado - A pergunta pode até parecer inversa a anterior, mas não é. Na adolescência tudo pode ser recambiável. Às vezes, uma escuta adequada, um acolhimento diferente daquele tradicional ou um refúgio, pode dar margens a mudanças inesperadas e sadias.

 

Gazeta - O bullying é um problema recorrente nas escolas hoje em dia. Segundo a psicanálise, qual a origem desse problema?

Machado - O bullying tem uma origem que não é simples. Há alguns aspectos relacionados à psicologia grupal e individual que interagem. Há uma intensa projeção de alguém, ou de um grupo liderado por alguém, sobre outra pessoa, a vítima. Usualmente, aspectos sádicos estão envolvidos. Ou seja, o abusador necessita de alguém como depósito de frustrações suas, muito perturbadoras. Em muitas situações, a condição familiar do tirano é de ruína visível. Então, para não se deparar com uma realidade psíquica muito complicada, o tirano projeta, desloca e condensa tudo em alguém, eleito para o papel.

 

Gazeta – E por que se segue um líder tirano?

Machado - As chamadas “Maria vai com as outras” seguem um líder tirano, que de forma onipotente, precisa de seguidores e elege uma vítima para, nela, projetar toda a sua frustração e seus fracassos. Os seguidores ficam com o líder para que sejam aceitos pelo grupo. A vítima, por sua vez, não vem ao acaso. É alguém que foge dos padrões que envolvem uma norma estética, social ou esportiva. É alguém que surge como ideal para depósito das frustrações e recalques dos outros. Ou seja, a vítima se sujeita a um papel que lhe é imposto. Depois, não mais consegue sair desse papel ou dessa função de bode expiatório.

 

Gazeta - É possível evitar essa situação?

Machado - Talvez seja fácil falar de soluções, mas muito mais difícil e complexo é a vítima viver a situação e conseguir sair dela. Algumas ideias de ordem teórica podem render bons resultados, como cortar o “mal pela raiz” no início do processo, ou seja, procurar auxílio antes de deixar cristalizada a situação. Se, de alguma forma, a situação já existe, é importante enfrentá-la com a coragem de contar às pessoas mais próximas e de ir contra uma posição inconsciente masoquista, que assume esse papel de ser o depósito das frustrações dos outros.

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