Por João C. Garavaglia
Neste dia 11 começa a Copa do Mundo da África. Seleções como as do Brasil, Espanha, Argentina, Itália, Alemanha, Inglaterra são os tradicionais nomes para vencer a competição. Analistas acreditam que não haverá grandes surpresas como ocorreram em outras copas no passado tais como em 1950 quando o Brás perdeu para o Uruguai no Maracanã ou em 1954 quando a superfavorita Hungria foi derrotada por uma debilitada Alemanha. Ou mesmo a derrota da Holanda para a Alemanha em 1974 ou quem sabe a eliminação do Brasil diante da Itália em Sarriá em 1982. Mas será que foi apenas aquilo que se denominou como “tragédia no futebol” ou foi também incompetência? (JCG)
BRASIL X URUGUAI
Alguns dos resultados mais surpreendentes numa decisão de Copa do Mundo começam com a derrota do Brasil, para o Uruguai, no final da Copa do Mundo de 1950, por 2x1. O Brasil era franco favorito, vinha de goleadas espetaculares de 6x0 e 7x1 sobre a Suécia e Espanha, sempre apoiado com público acima de 150 mil pessoas no Maracanã. No final, eram 200 mil vozes.
NOTÁVEL TRADIÇÃO
Embora o resultado pudesse ser uma surpresa, tínhamos uma seleção melhor. É bom lembrar que Brasil e Uruguai era um grande clássico sul-americano e os uruguaios tinham uma notável tradição, grandes jogadores, e já nos tinham vencido várias vezes em competições internacionais como o sul-americano. Era um “clássico”.
UFANISMO
Outro detalhe, o Brasil não se preparou como deveria para aquela final. Na véspera do jogo a imprensa do Rio, sempre ufanista e oba-oba, dava como favas contadas o título. No domingo, 16 de julho, um jornal do Rio publicou enorme manchete com o seguinte título: “BRASIL CAMPEÃO DO MUNDO”. E o mais incrível, o Brasil não precisava ganhar, bastava um empate. Saiu na frente, fez 1x0, e ao invés de administrar o resultado, que lhe dava o título, continuou atacando. Como resultado acabaria levando dois gols em sua desprotegida defesa e o valente e organizado Uruguai levaria a Copa. Houve, na verdade, muita incompetência fora e dentro do campo.
ALEMANHA X HUNGRIA
Surpresa mesmo foi a derrota da poderosa Hungria para a Alemanha em 1954. Os húngaros tinham uma seleção espetacular comandada pelo “major galopante”, Puskas. A seleção estava invicta desde 1948 quando se formou com os mesmos jogadores e era integrada por militares do exército húngaro. Eram todos amadores. Jogavam juntos há seis anos e nunca tinha perdido um jogo sequer. Em 1952 ganharam as Olimpíadas na Austrália de forma invicta.
HUMILHAÇÃO
Em 1953 humilharam a Inglaterra, vencendo por 7x3, em Wembley, na primeira derrota do “English Team” no seu templo sagrado, que havia sido inaugurado 30 anos antes, em 1923. Uma invencibilidade de 30 amos foi varrida pelo ciclone húngaro. Foi um baile, com uma atuação considerada de alguém de outro planeta de Puskas, com mais de 100 mil ingleses aplaudindo de pé os fantásticos magiares. Até hoje, os ingleses dizem que foi a maior atuação de uma seleção estrangeira em Wembley.
“POBRES ALEMÃES”
Contra a mesma Alemanha, nas oitavas de final, a Hungria havia goleado por 8x3 e todos apostavam por quantos gols a Hungria venceria os “pobres alemães”, uma seleção modesta embora tivesse a garra germânica e precisava recuperar a autoestima ainda debilitada com a Guerra encerrada nove anos antes, mas cujas sequelas, ódios e ressentimentos ainda se espalhavam pela Europa, principalmente contra a Alemanha e nazismo.
ABSURDO
A Hungria começou arrasando fazendo 2x0, com Puskas brilhando. Tudo indicava uma nova e sonora goleada. Porém, ainda no primeiro tempo, o grande jogador se machucou e como não havia ainda a possibilidade de trocar jogadores (com exceção do goleiro se ele se machucasse) a Hungria ficou com 10 jogadores em campo. Absurdamente, a regra só foi mudada 16 anos depois, na Copa de 1970, quando a FIFA passou a permitir substituições durante o jogo, além de uso dos cartões pela arbitragem.
VIRADA ÉPICA
Mancando, Puskas ficou em campo apenas para fazer número. Os húngaros sentiram a ausência do seu genial jogador e inexplicavelmente pararam enquanto que os alemães, movidos por uma garra e uma vontade incomum, foram para cima, não tinham mais nada a perder, e acabaram virando o jogo de maneira eletrizante e épica por 3x2. Naquele campo, em Berna, os germânicos recuperavam o seu orgulho nacional e sua autoestima que haviam sido destruídas com a guerra e sua humilhante derrota arquitetadas pela loucura de Hitler.
ALEMANHA E HOLANDA
A derrota da brilhante e envolvente seleção da Holanda em 1974 para a Alemanha não se pode ser considerada uma surpresa, pois afinal os alemães tinham uma grande seleção cuja base tinha começado a ser montada ainda nas copas e 1966, na Inglaterra, e em 1970, no México, comandada pelo grande Becknbauer, Gerd Muller e Overath e outros grandes jogadores.
LARANJA MECÂNICA
Mas havia a expectativa de que a Holanda, com seu futebol envolvente e ofensivo, liderada pelo notável Criyuff, venceria aquela Copa. A Holanda era chamada de “Laranja Mecânica”, em homenagem a um filme polêmico de 1971, dirigido pelo genial Stanley Kubrick, e cuja censura do regime ditatorial não permitiu que fosse exibido no Brasil durante os anos imbecis e de chumbo. Jogando com humildade, fechando os espaços dos rápidos holandeses, e velocidade, os alemães pararam a máquina holandesa, venceram o jogo e a Copa. Com méritos, porque eles também tinham uma grande seleção.
OS URUGUAIOS
Os uruguaios durante anos gostavam de dizer que eram tetracampeões mundiais de futebol e não bi. Eles não deixavam de ter uma certa dose de razão embora em termos de copas do mundo eles ganharam duas vezes, a primeira em 1930, na primeira Copa e na terra deles e em 1950, no Brasil.
BI-OLÍMPICOS
Porém em 1924 e em 1928, nas Olimpíadas, eles haviam ganhado, na Europa, o bi do futebol olímpico que era, na verdade, uma espécie de Copa do Mundo. Ocorre que seleções de todas as partes do planeta participaram dos eventos olímpicos e era a única competição para se medir a força das seleções, antes da realização oficial da Copa do Mudo em 1930.
CELESTE OLÍMPICA
Tanto que em homenagem pelas duas conquistas olímpicas, a seleção uruguaia passou a ser chamada de “celeste olímpica”, que se mantém até hoje. A cor da camisa da seleção uruguaia é azul celeste. Em homenagem também pela bi olímpico a FIFA escolheu o Uruguai para sediar a primeira Copa do Mundo, cujo título ficou com eles depois de brilhante vitória sobre a Argentina, por 4x2, na final.
BRASIL X ITÁLIA
A derrota da seleção brasileira para Itália, por 3x2, em 1982, também não pode ser considerada surpresa. O Brasil que queria dar show e jogar bonito teve pela frente uma seleção forte, bem armada, que tinha também no mínimo cinco grandes jogadores. Foi a vitória da humildade, da organização, da ocupação de espaços, da pegada, contra um time que só sabia atacar e que estava desarrumada no meio de campo, cuja marcação era frágil e uma defesa cujo meio de zaga tinha deficiências de marcação e colocação. Paulo Rossi fez a festa.
TRAGÉDIA DE SARRIÁ?
Falam em tragédia de Sarriá. Na verdade foi a “incompetência de Sarriá”. Quando Falcão empatou o jogo, que nos classificava, a partida tinha que ter terminado, o Brasil tinha que ter reforçado o seu meio de campo, mas não o fez. Continuou atacando e levou o terceiro e repetia 1950 no Maracanazo. A ESPN Brasil passou recentemente várias vezes todo o jogo e deu para se ver, quase 30 anos depois, como fomos ingênuos quando analisamos o jogo em 1982. Fomos movidos pela paixão e só vimos o nosso lado.
SOBERBOS
Não tivemos tempo, na época, de observar com mais calma e com olhares mais neutros e menos fanatizados, de como a seleção italiana era organizada e jogava um excelente futebol. E como fomos soberbos, teimosos e desorganizados na escalação e nas mudanças feitas. E nos venceu com todos os méritos. As imagens, um pouco desbotadas, não mentem.