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09/03 às 13:55 MEMÓRIA
 

25 anos depois, presença do Padre Giordani ainda é poderosa

Neste sábado, dia 06 de março, faz 25 anos que o Padre Eugênio Ângelo Giordani faleceu.

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Padre Giordani ao lado do artista italiano Augusto Murer em 1983, no dia da inauguração das portas de bronze
Embora tenha se passado todo este tempo, sua presença é ainda poderosa na igreja que ele construiu e na comunidade em que viveu, especialmente no Bairro São Pelegrino.
 
Quem entra no templo logo lembra o sacerdote idealizador que, com vontade férrea, construiu a igreja promovendo o seu embelezamento com a vinda do pintor e artista italiano Aldo Locatelli.
 
1943
A construção da Igreja de São Pelegrino começou em 1943, um ano depois de ter se transformado em Paróquia, com a nomeação do Padre Giordani como seu pároco pelo Bispo Dom José Barea, e foi inaugurada solenemente pelo Bispo Dom Benedito Zorzi.
 
Ordenação
Giordani ordenou-se sacerdote em 22 de outubro de 1939 em Bento Gonçalves, na Igreja de Santo Antônio, pelo Bispo Dom José Barea. O pároco da igreja era o cônego Antônio Zattera, que depois viria a ser bispo de Pelotas.
 
43 anos
Durante 43 anos (1942/1985) ele marcou de forma poderosa no comando da Paróquia de São Pelegrino e na cidade de Caxias do Sul, como um sacerdote atuante, polêmico, combativo, revolucionário, antimarxista, político católico, apostólico, romano.
 
Posturas
Daria para dizer que o Padre Giordani, que viveu cada minuto de sua vida intensamente, foi um dos sacerdotes que mais marcou a igreja católica na diocese de Caxias no século passado, por suas realizações e por suas posturas, que atraiam simpatia e também antipatias.
 
 
Ele deixou um
notável legado
 
Padre Giordani, que nasceu em Encantado em 09 de julho de 1910 (neste ano registram-se os 100 anos de seu nascimento) e faleceu em 06 de março de 1985, aos 74 anos, por volta da meia-noite, no Hospital Pompéia, onde estava internado acometido por uma doença que vinha minando suas resistências há quase dois anos. O velório e os funerais aconteceram na Igreja de São Pelegrino, onde uma imensa multidão foi lhe preparar homenagens.
 
Credit
Giordani foi sepultado ao lado da imagem da Pietá, na Igreja de São Pelegrino, que ele construiu. Pediu que na lápide se escrevesse somente o seguinte: “ Padre Eugênio Ângelo Giordani, sacerdote credit”, que, traduzido, significa “ o sacerdote que acreditou”.
 
Sopro criador
O sacerdote deixou um legado notável como a imponente Igreja de São Pelegrino, com as telas pintadas e afrescos do genial artista italiano Aldo Locatelli (1915/1962), feitas entre 1951 e 1960, cujo sopro criador prolongou-se por dez anos até sua conclusão e cujas obras de restauro, recuperando a beleza original, foram lideradas pelo pároco Padre Mário Pedrotti em 2005.
 
Obras
Destaques também para as imponentes portas de bronze feitas pelo artista italiano Ângelo Murer, em alto relevo, vindas da Itália e que reproduzem a epopéia da imigração italiana, inauguradas em outubro de 1983, e a réplica da Pietá, imortal obra do escultor e pintor italiano Michelangelo, doada pelo Vaticano em 1975, durante o centenário da imigração italiana no Rio Grande do Sul. Estas obras, além das pinturas e afrescos de Locatelli, vem atraindo milhares de turistas anualmente, sendo um dos locais mais visitados de Caxias e do RS.
 
 
 
Antimarxista
convicto e
defensor do
catolicismo
 
 
Além de ter sido um dos mais intransigentes defensores do catolicismo à antiga, Giordani se envolveu em muitas polêmicas ideológicas, especialmente no auge do regime comunista no mundo, quando ele foi um implacável crítico, quer como vereador nos anos 50 (entre os anos 1956/1963, elegeu-se pelo Partido Democrata Cristão, com 3.497 votos em 1955 – um recorde – e com 2.824 votos em 1960) quer no púlpito da Igreja de São Pelegrino, com duros sermões contra a chamada esquerda, combatendo ferozmente a ideologia marxista.
 
Regime militar
Giordani apoiou também incondicionalmente o regime militar em 1964 – como toda a igreja católica – sendo uma voz firme em sua defesa, transformando, muitas vezes, a casa paroquial em local de encontros com políticos que comungavam de suas ideias e amigos para discutirem e tratarem os mais variados temas da cidade, do estado , do país e do mundo. Foi uma liderança fortíssima de notável influência junto a todos os segmentos da comunidade de Caxias durante mais de quatro décadas.
 
Posturas
Por suas posturas polêmicas, Giordani atraía simpatias e antipatias. Um dos maiores desafetos ideológicos de Giordani foi o falecido sindicalista Bruno Segalla, político e marxista que, especialmente nas décadas de 40, 50 e 60, e meados dos 70.
 
Debates
Notadamente quando presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Caxias do Sul, ou quando ambos estiveram na Câmara, como vereadores, nos anos 50, travaram duros debates, posicionando-se quase sempre contra os conceitos ideológicos e conservadores do Padre Giordani.
 
 
 
 Segalla o antigo
desafeto acabou
 fazendo a estátua
do Padre Giordani.
 
 
Bruno Segalla revelou à Gazeta de Caxias em 2000, um ano antes de falecer, que enquanto ele defendia uma participação incisiva da classe trabalhadora em greves, nos movimentos sociais e na política, Giordani defendia que o movimento operário tinha que estar vinculado à paz social nas áreas de reivindicações, de avanços e de melhores salários e condenava os movimentos que buscavam o poder através de idéias de esquerda com a participação dos trabalhadores.
 
Cordialidade
Mas, ambos, nos últimos anos de vida de Giordani, apesar das diferenças ideológicas acabaram tendo uma relação de cordialidade. Segalla reconheceu que Giordani foi um dos pioneiros em Caxias a mostrar preocupação em ajudar os mais necessitados que moravam na periferia da cidade, além de destacar o extraordinário acervo cultural que é a igreja de São Pelegrino e que Giordani fora o grande idealizador ao trazer para Caxias o artista italiano Aldo Locatelli.
 
Projeto
Segalla revelou que a prova da cordialidade entre ambos é que ele chegou a ser convidado pelo sacerdote para fazer parte de uma comissão que idealizaria o projeto das portas de São Pelegrino. Segalla elaborou os painéis, estava tudo aprovado, mas o padre avisou que o DOPS, uma polícia especial do regime militar, foi contra o seu projeto, cujo enfoque principal era o cristianismo voltado aos problemas sociais existentes.
 
Suspenso
O projeto de Segalla foi suspenso, tendo sido recomendado o do artista italiano Augusto Murer, que acabou vingando. Ele foi inaugurado em outubro de 1973. Depois da morte de Giordani, Segalla foi procurado para fazer a estátua do sacerdote, que desde 1994 está no Largo que leva o seu nome. O projeto é de autoria do então vereador Odir Frizzo.
 
Sermões
Famosos também foram seus sermões dominicais, principalmente quando resolvia chamar atenção à moral e aos bons costumes, porque não tinha pudores à ira, quando se tratava de defender princípios e valores que ele considerava fundamentais.
 
Austera
Sua personalidade austera revelava-se especialmente quando dizia respeito à fé, ou assuntos a ela relacionados, no que se mantinha conservador, ao ponto de não ter abandonado o uso da batina dispensada pelas reformas da igreja nos anos 60. Padre Giordani teve entre outros méritos o de continuar se fazendo ouvir até o final de seus dias. E sempre tinha alguma coisa a dizer, sempre uma mensagem positiva e engrandecedora.
 
 
 
Um sacerdote que acreditou.
Por Ovídio Deitos
 
O empresário, jornalista, e ex-vereador Ovídio Deitos, foi um dos mais próximos do Padre Eugênio Ângelo Giordani no tempo em que ele passou por este planeta terra. Para a Gazeta, Deitos escreveu um artigo lembrando seu afetivo relacionamento com o sacerdote que acreditou
 
Conheci o Padre Eugenio Giordani quando comecei a freqüentar as reuniões do Partido Democrata Cristão, no final da década de cinqüenta. A sede era na Rua Moreira César na esquina com Rua Sinimbu. Na época o Padre Eugenio recém tinha concluído seu mandato de vereador para o qual foi eleito com a maior votação popular da história de Caxias do Sul, números que até agora não foram superados, considerando-se a população de então. Era um certo mito dentro do PDC. Foi ele quem comandou a fundação do Partido Democrata Cristão em toda a nossa região e era, portanto, uma liderança de expressão estadual.
Vivemos uma intensa vida política nos anos que antecederam à revolução de l964 e damos uma estrutura extremamente forte ao PDC municipal. Com o movimento militar os partidos políticos foram todos extintos e em seu lugar surgiram apenas dois partidos. O Padre Eugenio não se vinculou a nenhum outro partido depois disto.
A minha amizade com ele se estreitou a partir do momento que fui lançado candidato a vereador em 1972. Ele foi uma das pessoas que mais me incentivou, me aconselhou e que esteve, enfim, bem próximo da minha campanha. Talvez por ver na minha pessoa alguém que vinha da velha raiz da democracia cristã. Foi assim que tive a oportunidade de conhecer melhor essa figura importante da história de Caxias do Sul.
Era um homem dinâmico e um ser inconformado com as injustiças sociais, fossem com quem fossem. Esta característica pessoal o levou para a liderança dos mais diversos movimentos sociais, cujos frutos até hoje permanecem e que vão desde a fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, da Frente Agrária Gaúcha, até o atual aeroporto, passando pelo Centro de Saúde e pelas casas populares da zona do Cemitério,
Pelas assembléias sindicais, especialmente dos metalúrgicos, onde ombreou com adversários políticos e ideológicos duros, mas que acabaram por reconhecer sua liderança.
Eugenio Giordani era uma pessoa destemida, um líder, um homem polêmico, um construtor que teve a visão de projetar o bairro de São Pelegrino para aquilo que ele é hoje a partir da pequena igreja onde ele começou como vigário. Mas era também um homem culto. E a sua cultura fez com que idealizasse o maravilhoso monumento de arte que é a igreja de São Pelegrino, conhecida no mundo e ponto de afluência e de visitação obrigatória para todos aqueles que vêm à nossa cidade.
Mas apesar de todas essas atividades e da sua incursão pelo mundo da administração da construção e da arte, Eugenio Giordani era, acima de tudo, padre. SACERDUS CREDIT como pediu que colocassem na sua lápide. Foi padre vinte e quatro horas por dia e pelas suas posições sofreu com as incompreensões de lideranças da comunidade e até de colegas.
Acompanhei-o muito nos seus últimos anos de vida, quando foi feito um grande esforço para a confecção das portas de bronze da igreja. Duas pessoas que ele ouvia muito eram o professor Mario Gardelin e o deputado Victor Faccioni.
Lutamos cinco anos para reunir recursos para esta obra. O padre Eugenio evidenciava sinais da doença que viria a tomar-lhe a vida. Mas não se intimidava. Nós fomos a ministros, governantes, deputados, entidades, empresários e pessoas até conseguirmos. No dia da inauguração, com a presença do artista que as concebeu, Eugenio Giordani havia concluído seu testemunho de arte e de fé. A lição evangelizadora da arte de Aldo Locatelli seguiu a orientação de um padre que não só sabia de arte, mas principalmente da palavra de Deus.
Esta creio que foi a sua penúltima grande alegria porque a última deve ter sido o seu encontro com o Pai, a quem na verdade ele sempre serviu em tudo o que fez.
 
 

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