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Incentivando projetos na neurologia e neurocirurgia
As atividades da Liga Acadêmica Multidisciplinar de Neurologia-Neurocirurgia (ALAMNN-UCS) são centradas na tríade: educação continuada, pesquisa e promoção de saúde. A maioria das atividades e esforços da liga está direcionada para a pesquisa clínica.
O médico Asdrubal Falavigna é graduado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Especialista em Neurocirurgia pelo Hospital São José, Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. Na Universidade de Caxias do Sul é o atual coordenador do Curso de Medicina e professor das disciplinas de Neurologia-Neurocirurgia e da Neuropsiquiatria de Anatomia Humana. Ele concedeu uma entrevista à Gazeta de Caxias.
Gazeta - Como surgiu a ideia de criar a Liga Acadêmica Multidisciplinar de Neurologia-Neurocirurgia - LAMN?
Falavigna - A Liga foi idealizada visando sanar a necessidade e dificuldade de implementação de projetos de pesquisa nas áreas de Neurologia e Neurocirurgia na UCS. Sua origem remonta ao ano de 2004 quando dois acadêmicos do curso de Medicina da UCS, Alisson R. Teles e Fabrício D. Kleber, juntamente comigo, avaliavam maneiras de incentivar a realização de novos projetos de pesquisa na universidade. Desta forma, objetivando proporcionar maiores oportunidades de iniciação científica e de aprimoramento técnico na área de Neurologia e Neurocirurgia foi criada no dia 30 de Maio de 2005. Atualmente a liga é composta por cerca de 46 acadêmicos dos cursos de Medicina, Fisioterapia e Psicologia.
Gazeta - Que pessoas ou grupos são beneficiados com as atividades da Liga?
Falavigna - Inúmeros grupos têm sido pesquisados e beneficiados com as atividades da liga nos últimos anos: estudantes de ensino fundamental e ensino médio das redes pública e privada de ensino, pacientes submetidos a intervenções neurocirúrgicas, estudantes de graduação, pacientes vitimados por acidentes vasculares cerebrais e a população geral. Estudos conduzidos em 2008 e 2009 que avaliaram o sono, a cefaléia, a prevalência de atividade física, a depressão e a dor lombar em estudantes universitários da UCS (Cidade Universitária) têm contribuído para que entendamos melhor a forma como esses comportamentos ou patologias se expressam nessa população. Com este conhecimento podem-se elaborar estratégias de prevenção e tratamento destinadas a esse público visando alcançar melhores índices de rendimento educacional e qualidade de vida.
Gazeta – E na área da educação?
Falavigna - Alunos de ensino médio das redes pública e privada de ensino de Caxias do Sul receberam intervenções educacionais nas suas escolas objetivando a capacitação relacionada aos riscos inerentes ao neurotrauma, no ano de 2008. Em 2010, alunos de ensino fundamental e médio tem sido novamente o alvo de uma estratégia de prevenção do trauma crânioencefálico (TCE) e do trauma raquimedular (TRM), denominado “Pense Bem”. Em 2010, além da palestra apresentada em 2008 por acadêmicos de medicina, fisioterapia ou psicologia estamos promovendo o contato deste público com o Corpo de Bombeiros, Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, Fundação Thiago de Moraes Gozanga e com a Secretaria Municipal do Trânsito visando uma efetiva alteração de comportamentos relacionados ao trânsito, atividades de lazer e vida social.
Gazeta - E o Projeto Lombalgia?
Falavigna - O Projeto Lombalgia na População Geral tem sido realizado nos finais de semana em pontos centrais do município de Caxias do Sul, como a Praça Dante Alighieri. Dentro de suas ações, acadêmicos abordam a população solicitando que preencha um questionário para que sejamos capazes de avaliar quantas pessoas aproximadamente sofrem em decorrência de dores nas costas. Pacientes submetidos à intervenção neurocirúrgica têm sido avaliados em relação às suas expectativas, dor e limitação funcional no período pré e pós-operatório de cirurgia de coluna, para entender melhor as suas expectativas.
Gazeta - Explique como o projeto Pense Bem atua na sociedade.
Falavigna - Aliado ao fato de que as maiores vítimas de TCE e TRM são os adolescentes e os adultos jovens, elaboramos uma Campanha de Prevenção ao Neurotrauma destinada a esse público com um objetivo maior – atingir toda a sociedade pela conscientização do adolescente. O projeto dá-se pela realização de palestras, peças de teatro, exposição de audiovisuais e distribuição de material informativo nas escolas do município.
Gazeta - Qual é o maior desafio do Projeto Pense Bem?
Falavigna - O maior desafio do Projeto Pense Bem é contribuir para a redução de acidentes de trânsito e diminuir seus índices de mortalidade e morbidade (sequelas). É um desafio a mudança de atitude, por isso repetidamente tenta-se ensinar ao jovem caxiense que cuidar da sua própria vida, protegendo-se de situações de risco, é uma de suas maiores responsabilidades e um dever de casa.
“O trauma é a principal
causa da mortalidade
e morbidade no país”
Gazeta - O projeto visa capacitar os estudantes para que compreendam os riscos relacionados ao neurotrauma. O que é neurotrauma?
Falavigna - O trauma é a principal causa de mortalidade e morbidade em crianças e adultos jovens em nosso país. Ele ocorre, na maior parte das vezes, secundariamente a situações como agressões e acidentes de trânsito. Costumamos entender, enquanto sociedade, o trauma como uma situação inevitável, que não é passível de prevenção. Entretanto, deveríamos saber que oito em cada dez acidentes de trânsito são causados por motoristas que ingeriram álcool e que mesmo acidentes de trânsito que não estariam associados à mortalidade ou morbidade importante acabam ocorrendo porque a utilização do cinto de segurança – embora obrigatória – é negligenciada por grande parte da população brasileira. O trauma não é, portanto, um infortúnio, mas uma doença alimentada pela impunidade e por problemas sociais (saúde, tráfego, segurança).
Gazeta - O que o neurotrauma afeta?
Falavigna - O neurotrauma é o trauma que afeta as estruturas relacionadas com o nosso sistema nervoso (crânio, cérebro, coluna vertebral, medula espinhal, nervos periféricos) – cuja função é controlar as funções orgânicas e permitir a integração do homem ao meio ambiente. O traumatismo crânioencefálico e o traumatismo raquimedular – consequências diretas do neurotrauma – são uma das principais causas de morte imediata e de sequelas relacionadas aos acidentes de trânsito. A prática de atividades de lazer (ciclismo, patinação, rafting, rapel) sem a utilização de equipamentos de proteção individual também está associada à gênese do neurotrauma.
Gazeta - Quais são as consequências de um neurotrauma?
Falavigna - As consequências do neurotrauma variam de acordo com a idade do indivíduo, sendo mais graves nos extremos de idade, tais como a infância e a senescência, a intensidade do impacto, queda da própria altura, acidente automobilístico e o mergulho de cabeça em água rasa, e a utilização de equipamentos de proteção no momento do impacto, tais como capacete e o cinto de segurança. A sua apresentação é bastante variável, de uma dor de cabeça leve e transitória à morte imediata. Estima-se que 15% dos pacientes com trauma na coluna vertebral venham a ter algum tipo de comprometimento neurológico. As consequências do trauma craniano variam de acordo com a área cerebral afetada. Além disso, a tetraparesia ou a tetraplegia, incapacidade parcial ou total de movimentar os membros superiores e inferiores, são consequências do trauma da medula espinhal.
Gazeta - Por que é importante que os jovens conheçam o problema e suas implicações?
Falavigna - O mito da invencibilidade acompanha o adolescente na sua transição para a vida adulta. É importante que estratégias de intervenção como o Projeto Pense Bem sejam capazes de alertá-lo que ele é a principal vítima do neurotrauma em nosso país e que as consequências dessa doença podem acompanhá-lo para toda a vida.
Gazeta - Como surgiu a ideia de criar um espetáculo teatral para conscientizar os jovens sobre o tema?
Falavigna - Dentro da Liga Acadêmica Multidisciplinar de Neurologia e Neurocirurgia (LAMNN) temos uma acadêmica do curso de medicina que foi capacitada pela Fundação Thiago de Moraes Gonzaga como voluntária e conhecia o espetáculo. Quando buscávamos, durante a elaboração das estratégias de intervenção, entidades que fossem capazes de contribuir para a educação de nossa população alvo, ela prontamente sugeriu esse espetáculo. Fomos a Porto Alegre, conversamos com a diretoria da ONG Thiago de Moraes Gonzaga e quando souberam do nosso projeto eles prontamente tornaram-se parceiros, apoiando a ideia e se comprometendo em trazer a peça teatral para Caxias do Sul.
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